Jorge Júnior não nasceu ontem nem apareceu agora na vida pública de Propriá. Foi diretor municipal de Esporte e Juventude, presidiu o América de Propriá e participou da reconstrução esportiva do Tricolor da Ribeirinha. Recentemente, foi contratado pelo Falcon, onde se apresenta como gerente de futebol. Filho do saudoso Jorginho da Telemar, carrega uma história familiar ligada à política e ao município. Pode-se concordar ou discordar de suas escolhas, mas tratá-lo como alguém sem trajetória é um drible contra os fatos. Empresa privada não contrata dirigente por caridade, e clube profissional não entrega responsabilidade a quem considera incapaz.
A mudança política de Jorge Júnior, segundo ele próprio, nasceu da gratidão. Durante quatro anos, trabalhou como secretário na gestão do ex-prefeito Dr. Valberto. Relata que Valberto esteve presente num dos momentos mais dolorosos de sua família, especialmente durante a enfermidade de sua mãe, que enfrenta um quadro de demência. Quando Valberto decidiu acompanhar o projeto de Valmir de Francisquinho, Jorge reuniu a família e escolheu seguir o mesmo caminho. Não anunciou cargo, dinheiro ou vantagem. Falou de lealdade. Na política atual, esse sentimento parece causar estranheza porque muita gente entende fidelidade apenas quando vem acompanhada de portaria.
Depois de comunicar respeitosamente sua decisão, Jorge afirma ter recebido uma ligação do seu xará o deputado estadual Jorginho Araújo. Segundo seu relato, o parlamentar teria classificado a mudança como uma “apunhalada”, dito que ele estaria se vendendo “por migalhas” e sugerido consequências negativas para sua trajetória esportiva. A conversa teria ocorrido por telefone, e não foi apresentada gravação que permita confirmar seu conteúdo. Portanto, essas falas precisam ser tratadas como versão de Jorge Júnior, garantindo-se ao deputado o direito de responder. Mas, se confirmadas, são graves. Divergência política é democrática. Insinuar que a carreira profissional de alguém poderá ser atingida por causa de uma escolha eleitoral tem outro nome: pressão.
Chamar gratidão de migalha é uma forma particularmente pobre de enxergar as relações humanas. Migalha é imaginar que todo apoio possui preço. Migalha é reduzir a consciência de um homem a uma negociação que ele afirma não ter feito. Migalha, sobretudo, seria usar a força de um mandato para assustar quem decidiu seguir outro caminho. Jorginho Araújo foi eleito deputado estadual com mais de 23 mil votos e ocupa uma função que exige grandeza, equilíbrio e respeito ao contraditório. Mandato parlamentar não é cartão de propriedade sobre lideranças. Quem apoia hoje pode divergir amanhã, porque democracia sem liberdade de escolha é apenas obediência usando roupa de festa.
Jorge Júnior decidiu permanecer ao lado de Dr. Valberto e, por consequência, integrar o agrupamento de Valmir de Francisquinho. Pode perder alianças, enfrentar críticas e pagar o preço político da escolha, como acontece com qualquer liderança. O que não pode é ser diminuído, ameaçado ou tratado como mercadoria. Propriá conhece sua história, sua família e o trabalho realizado no esporte. Agora, cabe ao deputado esclarecer se pronunciou as frases que lhe foram atribuídas e em qual contexto. Até lá, fica uma lição simples: quem chama a decisão alheia de migalha talvez esteja revelando mais sobre a própria concepção de política do que sobre a dignidade de quem escolheu seguir a consciência.




