Um medicamento fabricado em 1998, vencido em 2002 e encontrado em 2026 ainda aguardando incineração não é apenas um produto fora da validade. É praticamente uma peça de museu da administração pública. Enquanto governos mudaram, secretários entraram e saíram, contratos foram assinados, licitações foram abertas e discursos sobre modernização foram repetidos, as caixas aparentemente permaneceram firmes, fortes e imóveis, demonstrando uma estabilidade que poucos servidores comissionados conseguem alcançar. A explicação de que o material estava separado para incineração pode até justificar sua presença naquele espaço durante alguns dias. O que ela não explica é como um medicamento conseguiu atravessar aproximadamente 24 anos depois de vencido sem que ninguém resolvesse definitivamente o seu destino.
A direção do HUSE afirmou que os produtos estavam protegidos, que o local teria sido invadido durante a noite e que a lona teria sido retirada antes da filmagem. Pode ser verdade. Mas uma lona não consegue cobrir duas décadas de perguntas. Quem comprou esses medicamentos? Quanto o Estado pagou? Por que venceram sem utilização? Em qual depósito ficaram? Quando foram retirados do estoque hospitalar? Houve inventário, baixa patrimonial, comunicação à Vigilância Sanitária e contratação regular de empresa para a destinação? O governo tenta concentrar o debate na forma como o vídeo foi produzido, quando a questão principal continua dentro das caixas. Mesmo que alguém tenha entrado irregularmente no local, a suposta invasão não rejuvenesce o medicamento, não apaga a data de validade e muito menos explica por que o descarte demorou o equivalente à vida adulta de uma pessoa.
O Ministério Público de Sergipe precisa observar o caso para além da espuma eleitoral. Não se trata de decidir quem gravou melhor ou quem concedeu a entrevista mais convincente. Trata-se de verificar a rastreabilidade de produtos adquiridos com dinheiro público e mantidos sob responsabilidade de uma unidade hospitalar. É necessário requisitar o inventário completo, as notas fiscais, os números dos lotes, os registros de entrada e saída, o Plano de Gerenciamento de Resíduos, o contrato da empresa responsável pela coleta e os certificados de transporte e incineração. Sem documentos, a narrativa oficial fica parecendo aquelas embalagens bonitas que prometem resultado imediato, mas trazem a verdadeira informação em letras microscópicas. Na saúde pública, confiança não pode depender da autoridade de quem segura o microfone. Precisa depender da prova apresentada sobre a mesa.
O problema maior nem sequer é o medicamento ter vencido em 2002. Produtos vencem, estoques falham e compras podem ser mal dimensionadas. O escândalo está na possibilidade de o poder público ter convivido durante mais de vinte anos com esse material sem uma destinação claramente demonstrada. Se a incineração estava programada, que se mostrem a ordem de coleta e o contrato. Se os remédios foram encontrados recentemente, que se explique como ficaram desaparecidos do controle administrativo por tanto tempo. Se permaneceram armazenados desde o vencimento, alguém precisa informar por que sucessivas gestões aceitaram essa eternidade farmacêutica. A população sergipana não está pedindo espetáculo, perseguição ou condenação antecipada. Está pedindo algo muito mais simples e, aparentemente, muito mais raro: uma explicação que também esteja dentro do prazo de validade.




