Durante a pandemia, Jair Bolsonaro foi transformado no culpado oficial por praticamente tudo. Se faltava oxigênio, a culpa era dele. Se um governador fechava o comércio, a conta política também chegava ao Planalto. Se um prefeito proibia o cidadão de caminhar na praia, Bolsonaro aparecia no telejornal como réu universal da humanidade. Foi chamado de genocida por artistas, jornalistas, políticos e militantes que dispensaram investigação, processo e sentença. Bastava pronunciar a palavra ciência, colocar uma máscara diante da câmera e distribuir condenações morais do conforto da sala de casa. Bolsonaro, entretanto, teve coragem para questionar o fechamento prolongado das escolas, a destruição de empregos, a falência de pequenos comerciantes e a transformação de recomendações sanitárias em ordens praticamente sagradas. Pode ter errado no tom e exagerado em algumas declarações, mas não errou ao lembrar que um país não sobrevive apenas evitando o vírus. Também precisa trabalhar, produzir, estudar, alimentar seus filhos e preservar as liberdades individuais.
Agora, o cenário ganhou uma ironia que nem o melhor roteirista político seria capaz de inventar. Anthony Fauci, apresentado durante anos como sacerdote máximo da ciência mundial, compareceu ao Senado americano e invocou mais de cem vezes o direito constitucional de não responder perguntas que pudessem incriminá lo. O homem que tinha respostas para máscaras, escolas, vacinas, igrejas, restaurantes e encontros familiares subitamente ficou sem vocabulário diante dos senadores. Para completar o espetáculo, Fauci possui um perdão amplo concedido por Joe Biden, abrangendo eventuais delitos federais relacionados às suas funções desde 1º de janeiro de 2014. Invocar a Quinta Emenda não significa confessar culpa, e o perdão também não prova a prática de crime. Politicamente, porém, é impossível ignorar o tamanho da contradição. Para mandar milhões de pessoas obedecerem, havia certezas abundantes. Para explicar os bastidores dessas certezas, apareceram advogados, silêncio e proteção presidencial.
A divulgação de mais de mil páginas de registros pessoais e profissionais de Fauci reforçou a necessidade de investigar como decisões científicas, políticas e econômicas foram construídas. Os documentos não provam que ele criou o coronavírus, enriqueceu ilegalmente ou comandou uma conspiração mundial. Também não encerram a discussão sobre a origem da doença. Mas revelam dúvidas, debates internos e preocupações que raramente chegavam ao público com a mesma intensidade. Durante a pandemia, qualquer pessoa que mencionasse a possibilidade de acidente em laboratório corria o risco de receber imediatamente o carimbo de conspiracionista. Hoje, a hipótese é discutida por órgãos de inteligência e por instituições respeitáveis. Bolsonaro e outros dirigentes que desconfiaram das verdades absolutas foram tratados como inimigos da ciência. O tempo demonstrou, no mínimo, que havia mais perguntas legítimas do que a televisão permitia fazer.
No Brasil, o tratamento dispensado a Bolsonaro ultrapassou a crítica e entrou no território da desumanização política. A palavra genocida foi repetida como bordão, embora a acusação específica de genocídio tenha sido retirada do relatório da CPI da Pandemia por falta de apoio e por dúvidas sobre sua caracterização jurídica. O relatório aprovado recomendou outras imputações graves, que devem ser analisadas pelos órgãos competentes, mas CPI não é tribunal e indiciamento político não equivale a condenação judicial. Mesmo assim, uma parte da imprensa apresentou Bolsonaro como sentenciado antes do julgamento. Não houve espaço semelhante para discutir os efeitos devastadores do isolamento prolongado, o atraso educacional, os transtornos emocionais, o desemprego e a ruína de milhares de pequenos negócios. O cidadão que perdeu tudo recebeu uma frase de consolo. Fique em casa. Quem tinha salário garantido achou simples. Quem dependia da porta aberta para colocar comida na mesa descobriu que o boleto, aparentemente, não assistia ao Jornal Nacional.
Bolsonaro merece ser reconhecido por ter enfrentado uma corrente poderosa quando era mais fácil baixar a cabeça, repetir frases prontas e governar de acordo com o aplauso dos estúdios. Ele defendeu o trabalho, questionou a vacinação obrigatória, denunciou os abusos cometidos em nome da emergência e lembrou que liberdade não é um luxo reservado aos períodos de tranquilidade. Isso não significa declarar que acertou em tudo, nem apagar as vítimas da Covid, muito menos substituir uma idolatria científica por uma idolatria política. Significa admitir que o homem chamado de louco, irresponsável e genocida levantou questões que o mundo agora é obrigado a discutir. Aos que o condenaram sem medida, cabe uma pergunta simples: quem devolverá os empregos, os negócios, os anos escolares e a dignidade de quem foi tratado como criminoso por querer trabalhar? O passado não volta, mas a verdade ainda pode chegar. E quando ela chega, costuma bater à porta sem máscara, sem autorização da imprensa e sem pedir licença ao teleprompter.




