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Gordinho do Povo, o carro-pipa e a pergunta que incomoda

A torneira do pobre amanhece muda. Não responde ao balde, à panela, à mãe que precisa preparar a comida nem à criança que espera pelo banho. É nesse cenário que a discussão envolvendo o Gordinho do Povo e Jorge Mitidieri ganha uma dimensão que ultrapassa a porta de uma residência: o direito de falar sobre aquilo que a população vê e sente. Há uma ação de Jorge Mitidieri contra o influenciador, Gordinho do Povo que afirma que ela decorre de sua publicação sobre o abastecimento de água na casa do tio do governador. O registro localizado informa designação de audiência de conciliação, sem demonstrar uma ordem para silenciá-lo. Mas o episódio merece debate público: defender o direito de alguém recorrer à Justiça também exige defender, com a mesma firmeza, o direito de um comunicador fazer perguntas incômodas. 

Segundo o relato publicado pelo Gordinho, a explicação seria que a água não se destinava ao consumo próprio, mas ao enchimento da piscina. A versão ainda precisa ser confrontada com a petição, mas a distinção, apresentada desse jeito, parece uma aula de malabarismo com balde: agora, antes de comentar um carro-pipa, será necessário entrevistar a água? “A senhora veio para o banho, para o feijão ou está escalada para o mergulho?” No sentido cotidiano, abastecer a piscina de uma residência também é atender a uma necessidade particular, ainda que de lazer, e não de alimentação ou higiene. A água continua servindo àquela casa. Pode proporcionar descanso, brincadeira, convivência familiar. Não há motivo para transformar essa diferença de finalidade numa palavra mágica capaz de encerrar a discussão. 

Ninguém precisa transformar uma piscina em delito para enxergar o contraste social. Quem pode pagar por abastecimento alternativo compra uma saída; quem não pode continua esperando que a torneira volte a cumprir sua função. É aí que a desigualdade ganha som: de um lado, o motor do caminhão; do outro, o fundo do balde raspando no chão. A riqueza consegue fazer a água chegar sobre rodas, enquanto a pobreza precisa administrar a falta dela dentro de casa. E a cobrança dirigida às autoridades não pode desaparecer atrás de uma discussão sobre o destino de cada litro. A população não quer fiscalizar o mergulho alheio. Quer poder tomar banho, cozinhar e lavar a roupa sem transformar cada tarefa numa operação de emergência.

Defender o Gordinho neste debate é defender seu direito de informar, questionar e sustentar sua versão, sujeito à responsabilidade pelos fatos que divulga. Não é conceder imunidade a ninguém, nem antecipar o julgamento de Jorge. É rejeitar a ideia de uma sociedade treinada apenas para ver, ouvir e baixar a cabeça. A existência da ação, sozinha, não comprova perseguição governamental; tampouco deve impedir a discussão sobre o efeito intimidatório que disputas judiciais podem produzir no debate público. O sentimento de que “agora ninguém pode falar mais nada” precisa ser enfrentado com transparência, documentos e liberdade para perguntar. Porque, quando a torneira está vazia, a última coisa que se deve exigir do cidadão é que também esvazie a própria voz.

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