Na política, mudar de opinião é legítimo. Difícil é mudar tantas vezes e continuar vendendo coerência como cartão de visitas. Alessandro Vieira entrou na vida política nacional embalado pelo discurso da renovação, do combate à velha política e da necessidade de impedir que mandato virasse profissão. Oito anos depois, candidato novamente ao Senado, sua campanha convive com uma companhia inconveniente: o arquivo. E arquivo, ao contrário de palanque, não sofre de amnésia.
Em 2018, Alessandro defendia o fim da reeleição e foi além: incluiu expressamente presidente, governador, prefeito e senador entre os cargos que não deveriam permitir reconduções sucessivas. Chamou a reeleição de “câncer” e argumentou que ela levava políticos a trabalhar pela própria permanência no poder. A Agência Senado registrou depois sua defesa de uma “renovação mais rápida”. Agora, em 2026, Alessandro pede exatamente aquilo que condenava: mais oito anos. Se vencer, poderá completar dezesseis anos consecutivos no Senado. Parece que o câncer diagnosticado em 2018 ganhou uma curiosa segunda opinião médica quando chegou ao próprio prontuário.
Há também uma metamorfose presidencial bastante documentada. Em 2018, Alessandro afirma que apoiou Marina Silva no primeiro turno e, já eleito senador, declarou voto em Jair Bolsonaro no segundo. Quatro anos depois, classificou aquela escolha como um “erro” e declarou voto em Lula contra Bolsonaro. Mudar de voto é direito de qualquer cidadão, inclusive de senador. Mas quem constrói a própria imagem pública sobre convicções precisa explicar essas travessias com especial cuidado. Do voto em Bolsonaro ao voto em Lula, a paisagem política mudou bastante; Alessandro mudou junto.
Em 2026, ele apresenta outra posição: diz que não quer o Brasil aprisionado à polarização entre os dois campos e rejeita a ideia de ser identificado como bolsonarista. É uma posição legítima, mas acrescenta mais um capítulo ao percurso. Marina em 2018, Bolsonaro no segundo turno, Lula em 2022 e, agora, distanciamento dos dois polos. Não se trata de proibir evolução política; trata-se de perguntar onde termina a evolução e onde começa uma flexibilidade tão grande que o eleitor já não sabe qual versão encontrará na próxima eleição.
As curvas também aparecem em Sergipe. Alessandro disparou críticas fortes contra André Moura e Rogério Carvalho. Fábio Mitidieri igualmente já esteve do outro lado de suas críticas políticas. Hoje, Alessandro apoia a reeleição de Fábio e chegou a dizer em agosto que era hora de “buscar o voto” para o governador, mesmo depois de ter sido retirado da chapa majoritária governista. Aproximações políticas são normais. O que chama atenção é a frequência com que antigos adversários conseguem reaparecer na fotografia enquanto o discurso anterior vai sendo colocado discretamente no porta-malas.
Com André Moura, a cena ganhou ainda mais combustível porque Alessandro, depois de críticas duríssimas, apareceu em evento mencionando seu número eleitoral. Ele nega ter pedido voto e afirma que apenas citava os candidatos ligados à liderança presente. A negativa deve ser registrada. Mas política também é símbolo: quando alguém utiliza um lança-chamas verbal contra um adversário e meses depois divide uma atmosfera eleitoral muito mais cordial, é natural que apareça a pergunta sobre o tamanho da distância entre convicção e conveniência.
Eis o problema central de Alessandro Vieira: ele próprio elevou a régua. Apresentou-se como fiscal da coerência alheia, cobrador de explicações, adversário do político profissional e defensor da renovação. Por isso, quando decide buscar a própria reeleição depois de condená-la, quando atravessa de Bolsonaro para Lula e posteriormente se distancia dos dois campos, ou quando suaviza relações com personagens anteriormente atacados, não pode pedir ao eleitor que simplesmente vire a página. Quem passou anos examinando os outros com lupa não deveria reclamar quando chega sua vez de ficar debaixo dela.
Alessandro pode mudar de opinião quantas vezes considerar necessário. O mandato é dele; a memória, porém, pertence ao eleitor. E talvez seja essa a grande ironia de 2026: o candidato que entrou na política combatendo a permanência dos políticos agora precisa explicar por que a renovação continua sendo ótima, desde que não comece pela cadeira dele.




