Sergipe amanheceu neste domingo eleitoral com a claridade de outubro rompendo entre nuvens, ruas começando a ganhar movimento e 1.740.240 eleitores diante da decisão que encerra meses de discursos, pesquisas, carreatas, acusações e promessas. No Brasil, são 158.745.463 pessoas aptas a votar. A partir das oito da manhã, desaparece por algumas horas o barulho dos trios, dos jingles e das pesquisas. Entra em cena a única pesquisa que não tem margem de erro eleitoral: a urna. O Brasil chega a este 4 de outubro dividido numa eleição presidencial apertada, enquanto Sergipe põe frente a frente projetos políticos que passaram meses disputando a interpretação da realidade vivida pelo sergipano.
A disputa pelo Governo de Sergipe começou com seis nomes, mas chegou ao domingo profundamente modificada. Emanuel Cacho renunciou à candidatura e declarou apoio a Valmir de Francisquinho. Ricardo Marques viu sua chapa ser inviabilizada pela Justiça Eleitoral depois da renúncia do vice Érico Menezes. Dr. Helton aparece com registro indeferido em prazo recursal ou com recurso. Assim, Fábio Mitidieri, Valmir de Francisquinho e Taty Cristina chegam a este domingo com registros deferidos na base eleitoral consultada. Valmir atravessou a campanha como o principal adversário do governador, colocando no centro do debate temas como abastecimento de água, saúde, transporte e a promessa de mudança administrativa. Fábio, por sua vez, chegou às urnas defendendo a continuidade de sua gestão e apresentando obras, programas e resultados do governo. Hoje nenhum dos dois poderá responder com propaganda. Quem responde é o eleitor.
E existe uma torneira aberta no centro dessa eleição mesmo quando dela não sai água. A crise do abastecimento acompanhou a campanha e atingiu Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros em diferentes episódios. A própria Iguá informou, em setembro, redução de 60% na produção da ETA João Ednaldo após rompimento da Adutora do São Francisco, afetando os três municípios; no dia seguinte, Barra e Socorro ainda estavam em processo de recuperação do abastecimento. A Barra dos Coqueiros, sozinha, possui 31.775 eleitores aptos. São cidadãos que chegam às urnas depois de um ano em que interrupções, recuperações graduais, caminhões-pipa e comunicados sobre falta d’água passaram a integrar a rotina de diferentes comunidades. O governo argumenta que cobrou providências da concessionária e anunciou investimentos e medidas para melhorar o sistema. A oposição transformou o problema em uma de suas principais críticas. A urna mostrará apenas o resultado político final; a experiência de cada eleitor com a água pertence a ele.
No plano nacional, o Brasil também amanheceu diante de uma eleição marcada pela polarização. A última pesquisa Datafolha colocou Lula com 45% e Flávio Bolsonaro com 42% dos votos válidos, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Flávio chega ao domingo depois de tentar concentrar o voto antipetista e ampliar seu espaço na reta final, enquanto Lula apostou na mobilização de sua base. Não cabe à manchete substituir o eleitor, mas existe um fato político incontornável: Flávio Bolsonaro conseguiu chegar ao primeiro turno disputando voto a voto com um presidente em exercício, transformando uma candidatura inicialmente questionada até dentro da direita em uma das protagonistas da eleição presidencial.
Em Sergipe, a trajetória de Valmir de Francisquinho também dá ao domingo um ingrediente particular. Depois de 2022, quando recebeu 457.922 votos que terminaram anulados em razão da situação jurídica de sua candidatura, ele voltou quatro anos depois às urnas novamente como protagonista da disputa estadual. Desta vez, chega ao dia da eleição com registro deferido e depois de uma campanha marcada por grandes mobilizações de rua, principalmente em Itabaiana, e por um discurso centrado na mudança do comando estadual. Do outro lado está Fábio Mitidieri, governador em busca da reeleição e que precisa submeter quatro anos de administração ao julgamento popular. Obras, programas e propaganda estarão de um lado da memória do eleitor; do outro estarão problemas que marcaram o governo, entre eles a recorrente crise no abastecimento de água.
E talvez seja essa a imagem mais poderosa desta manhã. O sol tenta aparecer sobre Sergipe enquanto milhares de pessoas caminham para escolas, colégios e seções eleitorais. Algumas levam esperança. Outras levam indignação. Muitas levam dúvidas. Na Barra dos Coqueiros, em Socorro, em Aracaju, em Itabaiana, no sertão e no litoral, cada urna receberá histórias diferentes. Hoje não existe carro de som capaz de responder por elas. Pesquisa não vota. Governador não vota pelo povo. Candidato não aperta a tecla no lugar do cidadão. Depois de meses em que todos falaram em nome de Sergipe, chegou finalmente o domingo em que Sergipe fala por si mesmo.




