Linda Brasil saiu das urnas com 44.384 votos, a maior votação entre as mulheres para a Alese e a terceira maior votação nominal de Sergipe. Mesmo assim, não aparece entre os eleitos. Bem-vindo ao sistema proporcional brasileiro, onde o cidadão vota em poucos segundos e depois quase precisa de especialização em Direito Eleitoral para descobrir onde foi parar seu voto. O obstáculo está no indeferimento do DRAP da Federação PSOL/Rede. A Justiça ainda decidirá o efeito jurídico dessa votação. Politicamente, porém, a mensagem já foi entregue: Linda saiu da eleição maior do que entrou.
E não foi milagre de domingo. Linda recebeu 10.107 votos em 2018, chegou à Câmara de Aracaju em 2020, conquistou a Assembleia em 2022 com 28.704 e agora ampliou sua votação em cerca de 54,6%. Isso tem um nome menos emocionante para marqueteiro, mas muito mais importante para político: construção de eleitorado. Pode-se discordar dela, do PSOL ou de suas bandeiras. O que a urna tornou difícil é continuar tratando Linda como candidatura de nicho. Quando o voto cresce eleição após eleição, a realidade começa a atropelar a caricatura.
Sua trajetória ajuda a explicar essa musculatura. Linda passou pela Universidade Federal de Sergipe, formou-se em Letras Português-Francês, tornou-se mestre em Educação e foi pioneira na luta pelo reconhecimento do nome social na instituição. Depois chegaram Câmara Municipal e Assembleia. Ela saiu de espaços onde precisava disputar até o direito de ser reconhecida para se tornar uma das candidaturas mais votadas do estado. Hoje, Linda já não pede licença para entrar na fotografia política de Sergipe. Ela está nela.
Por isso, dizer que poderá “tirar a cadeira” de alguém é uma simplificação preguiçosa. Linda não anda pela Assembleia carregando mandato alheio debaixo do braço. Se a situação jurídica da federação for revertida, a Justiça Eleitoral terá de recalcular a distribuição das vagas; se não for, permanece o resultado atual. É assim que funciona o sistema proporcional. Fernandinho Franco aparece eleito com 22.483 votos, enquanto Linda recebeu quase o dobro. Isso não torna a eleição dele ilegítima, mas produz uma cena que desafia o senso comum: quem olha apenas a votação nominal precisa de algumas páginas de legislação para compreender por que quem teve muito mais votos está fora.
E talvez aí esteja a parte mais forte dessa história. A cadeira ainda pode depender de processo, recurso e cálculo eleitoral. O tamanho político que Linda alcançou, não. Ela ampliou sua base, consolidou seu nome e obrigou até adversários a olhar para os números antes de reduzi-la a rótulos. A Justiça ainda dirá se essa votação produzirá mandato. A urna já disse outra coisa, bem menos complicada de entender: ignorar Linda Brasil ficou muito mais difícil.




