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Sertão com 50 litros por pessoa: até quando Sergipe viverá de carro-pipa?


O Governo de Sergipe admite 11 municípios em situação de emergência por seca ou estiagem e aponta 73.151 pessoas afetadas em 2026. A operação estadual utiliza caminhões-pipa e poderá ampliar a frota para até 60 veículos caso o quadro se agrave. No planejamento da Defesa Civil, 50 litros de água por habitante/dia servem como parâmetro para avaliar o abastecimento. O carro-pipa é indispensável na emergência, mas a pergunta permanece: até quando o sertanejo dependerá de água chegando sobre quatro rodas?

Canindé, Poço Redondo, Porto da Folha, Monte Alegre, Glória, Carira, Frei Paulo, Poço Verde, Tobias Barreto e outros municípios convivem novamente com um problema antigo demais para ser tratado como novidade. O governo cita cisternas, adutoras e planos de contingência, medidas necessárias, mas a repetição do mesmo remédio revela a fragilidade estrutural. Carro-pipa resolve o hoje. Não pode virar política permanente para o amanhã.

A cobrança precisa chegar à planilha. Quanto Sergipe gasta para transportar água? Quem opera esses caminhões, quanto recebe e quais rotas atende? Quais obras têm prazo, orçamento e financiamento para retirar comunidades dessa dependência? A seca não nasceu neste governo e não será eliminada por decreto, mas exatamente por isso é preciso apresentar soluções duradouras.

Ampliar a frota de 40 para 60 caminhões pode ser necessário diante da emergência, mas também expõe o tamanho do problema. Quanto mais pipas são necessários, mais evidente fica que milhares de sergipanos ainda não possuem infraestrutura adequada de abastecimento. O caminhão-pipa deveria ser a ambulância do sistema, acionada quando tudo falha. Quando começa a parecer o próprio sistema, é hora de perguntar onde ficou a solução definitiva.

Quarenta na fila. Fábio Mitidieri anunciou que pretende entregar mais de 40 obras até dezembro, incluindo passarela, mirante, escolas e creches. É obra suficiente para deixar tesoura de inauguração pedindo hora extra. O governo corre contra o calendário, porque dezembro tem uma característica desagradável: chega mesmo quando o cronograma ainda está fazendo promessa. No fim, placa bonita ajuda, mas concreto pronto costuma ser mais convincente.

Dança das cadeiras. Fábio avisou que pretende manter boa parte do secretariado, mas já deixou a porta entreaberta para mudanças. Zezinho Sobral e Cláudio Mitidieri aparecem nas conversas envolvendo Educação e Saúde. Em governo reeleito, ninguém arruma completamente a gaveta antes de saber onde estará a mesa no ano seguinte. Brasília tem dança das cadeiras; Sergipe prefere fazer o ensaio dentro do próprio gabinete.

Seca sem eleição. A Defesa Civil mantém 40 caminhões-pipa atendendo comunidades e admite chegar a 60 se a estiagem apertar. Onze municípios estão em emergência e mais de 73 mil pessoas aparecem como afetadas. A seca tem uma inconveniência que político conhece bem: não lê release, não participa de reunião e não respeita calendário eleitoral. Quando ela chega, a torneira vira a mais sincera porta-voz do governo.

Valmir não descansou. Três dias depois das urnas, Valmir de Francisquinho anunciou retorno à Prefeitura de Itabaiana como secretário-geral de Governo. Disse que vai acompanhar 68 obras e tratou a eleição estadual como “águas passadas”. Política tem dessas capacidades terapêuticas: na segunda-feira existe luto eleitoral; na quarta já existe agenda, gabinete e 68 obras esperando despacho. Freud talvez chamasse de elaboração. Itabaiana chama de trabalho.

Samuel puxou a cadeira. Capitão Samuel entrou de cabeça na articulação do segundo turno presidencial em Sergipe e fala em ampliar a votação de Flávio Bolsonaro no estado. Prefeitos, parlamentares, lideranças evangélicas e dirigentes partidários entraram no telefone. Depois de meses em que a direita sergipana parecia reunião de condomínio com três síndicos, agora tentam descobrir se ainda existe uma sala onde todo mundo consiga sentar sem discutir quem segura o microfone.

André virou a página. André Moura mal terminou a apuração para o Senado e já estava no Rio de Janeiro participando de articulações políticas. Fábio Mitidieri também disse que conversará com ele sobre o futuro. Em política, luto eleitoral costuma ter expediente reduzido: chora-se domingo, analisa-se segunda e na terça já aparece alguém perguntando se o café do novo gabinete tem açúcar. A cadeira do Senado escapou; a agenda, aparentemente, não.

Hospital ou pelada? Fábio Meireles cobrou explicações sobre o projeto do futuro Hospital Veterinário de Aracaju e questionou a utilização de uma área da Zona Norte atualmente usada como campo de futebol. A cidade conseguiu produzir uma discussão genuinamente difícil: cachorro de um lado, futebol do outro. O desafio da Prefeitura será provar que urbanismo não precisa escolher entre o vira-lata e o centroavante.

Democracia pega carona. O TRE-SE reabriu o formulário para transporte gratuito de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida no segundo turno. A medida atende quem não possui meios próprios e enfrenta dificuldade no transporte público. Parece detalhe administrativo, mas não é. Para algumas pessoas, exercer a democracia começa muito antes da urna: começa conseguindo chegar até ela. O voto é secreto; a dificuldade de locomoção, infelizmente, costuma ser bem pública.

Simão Dias sem tédio. O TRE-SE determinou o cumprimento imediato da cassação dos diplomas do prefeito Cristiano Viana Meneses e do vice José Renaldo Prata Sobrinho, em processo por abuso de poder econômico. Também há determinação relacionada à inelegibilidade e realização de nova eleição. Em Simão Dias, a política não conseguiu esperar quatro anos para trocar de capítulo. A cadeira de prefeito entrou no modo rotativo e o eleitor já procura novamente onde guardou o título.

A vírgula milionária. O Ministério Público de Contas recorreu das contas de São Francisco de 2022 e apontou despesa de pessoal equivalente a 63,29% da Receita Corrente Líquida. Em administração pública, às vezes 0,29% parece uma migalha. Quando entra depois do número 63 e envolve folha de pagamento, a migalha ganha terno, gravata e processo. A matemática pública tem esse talento: transforma casa decimal em dor de cabeça.

TJ veste rosa. O Tribunal de Justiça de Sergipe prepara programação do Outubro Rosa para magistradas e servidoras, com prevenção e informação sobre câncer de mama. É uma daquelas ocasiões em que ninguém precisa ganhar ação, apresentar recurso ou citar jurisprudência. O objetivo é justamente evitar que a vida chegue ao ponto em que qualquer sentença seja tardia. Desta vez, prevenção vale mais que decisão transitada em julgado.

Promotor também previne. O Ministério Público de Sergipe colocou câncer de mama e colo do útero no projeto Saúde em Cores, reforçando diagnóstico precoce e acompanhamento médico. O MP, acostumado a recomendar providências aos outros, desta vez recomenda algo bastante simples à população: cuide-se antes que o problema cresça. É uma recomendação ministerial que ninguém precisa recorrer ao Tribunal para cumprir.

Mosquito sem oposição. O Ministério da Saúde informou que quase metade dos municípios avaliados apresenta situação de alerta ou risco para o Aedes aegypti. Grande parte dos focos continua dentro ou perto das residências. Enquanto Brasília discute coalizão, segundo turno e reforma, o mosquito mantém sua plataforma simples: água parada, calor e silêncio. E ao contrário de político, ele visita a casa do eleitor sem pedir autorização.

Pré-sal não é poça. O maior leilão do pré-sal realizado até agora terminou com sete dos 13 blocos ofertados arrematados e previsão de R$ 530 milhões em bônus de assinatura. A área exploratória também cresce. Petróleo permanece realizando um feito quase impossível na política brasileira: consegue colocar ambientalista, economista, empresário, governo e oposição discutindo a mesma coisa, cada um com uma planilha diferente e todos jurando que a sua é a definitiva.

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