Mal terminaram de contar os votos e Fábio Mitidieri já abriu a próxima urna, a da presidência da Assembleia Legislativa. O governador foi cuidadoso, mas deixou clara a preferência por manter o PSD no comando e chegou a defender um revezamento entre Jorginho Araújo e Cristiano Cavalcante. Ao mesmo tempo, reconheceu que “quem vota são eles” e que o governo “não tem como impor”. Eis a graça da política: ninguém impõe nada, mas já aparece sugestão com nome, partido e tempo de mandato. O PSD elegeu cinco deputados; o União Brasil, seis. Antes de escolher onde o Peito de Pombo vai pousar, portanto, convém saber se o Guaxinim está disposto a dividir o galho.
Cristiano chega à disputa com argumentos pesados. Foi novamente o deputado estadual mais votado de Sergipe, com 52.765 votos. Já foi prefeito de Ilha das Flores, preside a FAMES através da esposa Silvany, é líder do governo e ocupa posições importantes na engrenagem interna da Alese, como a CCJ. Jorginho também mostrou força nas urnas, com 49.550 votos, mas passou boa parte da legislatura comandando a Casa Civil, muito mais próximo do Palácio do que do cotidiano do plenário. Essa diferença pode pesar. Jorginho tem a confiança pessoal e política de Fábio; Cristiano tem convivência parlamentar diária e uma rede construída entre deputados e prefeitos. Em resumo: o Pombo chega com a senha do Palácio; o Guaximim conhece melhor os corredores da Assembleia.
E existe ainda André Moura no tabuleiro. O União Brasil saiu da eleição com a maior bancada da Casa e não deverá assistir de braços cruzados à escolha do próximo presidente. Cristiano também tem proximidade com Jefferson Andrade e influência no municipalismo, enquanto Jorginho carrega a preferência natural do grupo mais próximo ao governador. Não dá para afirmar antecipadamente quem possui maioria, mas é evidente que Fábio terá de negociar muito mais do que simplesmente apontar um nome. Imaginar que seis deputados do União aceitariam entregar a presidência sem conversa seria pedir ao Guaxinim que sorrisse enquanto retiram sua comida.
Por isso a proposta de revezamento parece quase um tratado de paz zoológico: dois anos para o Pombo, dois para o Guaxinim e todo mundo sai dizendo que venceu. O problema é que cadeira de presidente tem uma característica conhecida na política: depois que alguém senta, levantar voluntariamente costuma ser mais difícil do que combinar antes. Fábio pode conversar, sugerir e articular, mas a Assembleia é um Poder independente e a decisão pertence aos deputados. Se o governador começar a distribuir a cadeira antes da votação, a pergunta deixa de ser quem vence entre Pombo e Guaxinim. Passa a ser para que servem os outros 22 deputados.




