O governador Fábio Mitidieri transformou o Opera Sergipe numa das principais vitrines de sua administração. Mas, enquanto a publicidade celebra resultados, o Ministério Público Federal precisou recorrer novamente à Justiça para garantir a continuidade das cirurgias de endometriose profunda. Em junho de 2026, veio a revelação mais preocupante: o Estado pretendia reduzir de R$ 28 mil para R$ 12.280 o custeio mensal destinado aos procedimentos no Hospital Universitário. Um corte projetado de 56% numa assistência que exige profissionais especializados e materiais de alta complexidade. É difícil conciliar o discurso de prioridade à saúde da mulher com uma proposta de redução tão expressiva.
A história fica ainda mais delicada quando se examinam os documentos. Em março de 2025, o próprio governo reconheceu problemas administrativos que atrasaram R$ 168 mil em repasses relacionados às cirurgias. A Justiça também precisou cobrar integração das filas, informações financeiras e garantias de continuidade. O Estado anunciou 208 cirurgias de endometriose até março de 2026, resultado importante que merece reconhecimento. Mas quantas mulheres continuam esperando? Quantas foram operadas desde então? E por que a estrutura do atendimento ainda precisava de sucessivas intervenções judiciais?
A situação contratual acrescenta outra preocupação. O MPF informou que o instrumento estadual da linha de cuidado da endometriose tinha encerramento previsto para outubro de 2026. Até esta apuração, não foi possível confirmar documentalmente sua renovação. Isso não significa que o contrato tenha vencido ou que as cirurgias tenham parado, mas significa que falta uma resposta pública verificável. O governo precisa apresentar os instrumentos atualizados, esclarecer o financiamento e demonstrar que as pacientes não ficarão dependentes de soluções emergenciais.
Fábio Mitidieri tem todo o direito de divulgar as cirurgias realizadas. O que não pode é transformar números positivos em resposta para problemas que continuam exigindo fiscalização judicial. O Ministério Público Federal não deveria precisar insistir para que financiamento, organização das filas e continuidade do tratamento fossem assegurados. A verdadeira eficiência de um programa de saúde não se mede pelo tamanho da propaganda, mas pela capacidade de atender, prestar contas e garantir tratamento sem interrupções. Para quem convive com a dor da endometriose, promessa não é anestesia, publicidade não é cirurgia e fotografia de inauguração não substitui assistência permanente.




