A Câmara de Aracaju viveu, nessa última leva de sessões, aquele roteiro clássico de política municipal: muito microfone, muito discurso, muita indignação sincera (ou performática) e, no meio disso tudo, algumas pautas que realmente mexem com a vida de quem pega ônibus lotado, espera cirurgia na fila, pisa em buraco, paga imposto e ainda ouve promessa de transparência. Entre defensores de asfalto, caçadores de cargos comissionados, guardiões da democracia, militantes do Hemose e especialistas em emenda parlamentar, o plenário virou um misto de assembleia de condomínio com série política: todo mundo fala de interesse público, mas cada um com o seu próprio enquadramento de câmera.
O que você vai ler a seguir não é ata oficial, é resumão apimentado: os vereadores em modo turbo, com suas causas, seus conflitos, seus números, suas homenagens, suas cobranças e, claro, seus recados embalados em boa retórica. Tem vereador defendendo servidor, outro enquadrando secretário, gente comemorando prisão de ex-presidente, gente pedindo calma na hora de comemorar, uns puxando a fila das cirurgias, outros tentando evitar que o cidadão vire cone no meio do trânsito. É a Câmara em ação – com todos os exageros, disputas e contradições que fazem da política local um ótimo laboratório para entender o Brasil. Vejamos:

SÁVIO NETO, O MOTORISTA DA ESPERANÇA ELÉTRICA: Sávio entrou na sessão como quem anuncia fim de obra de novela: ônibus novos, frota renovada, transporte público “turbinado” e, de quebra, ônibus elétrico rodando em Aracaju. No pacote, ainda trouxe de volta a linha do bairro América, antiga novela da comunidade que finalmente saiu do “aguarde o próximo capítulo”. Entre um elogio ao Tamo Junto Aracaju e outro ao projeto Pop Rua Aju, Sávio se posicionou como o vereador que roda a cidade inteira, mas não perde o ponto: discurso é social, mas com ar-condicionado e tomada USB.
SARGENTO BYRON, DAS ESTRELAS DO MAR AO EXÉRCITO BRASILEIRO – Byron fez de tudo um pouco: comemorou emenda virando asfalto no Atalaia, mostrou que sabe usar o recapeamento como quem passa cera em sala de quartel, puxou o Ironman 70.3 para o plenário e ainda destacou o atleta Felipe Monte de Carvalho, com síndrome de Down, dando aula de superação para meio mundo adulto cansado de reclamar da vida. Como se não bastasse, em outra frente aparece homenageando o coronel Ricardo Pereira com Título de Cidadão Aracajuano, distribuindo estrela no peito de militar e frase de efeito no microfone. Na Zona de Expansão, virou “ouvidor oficial” de rua esburacada, praça suja e poste apagado. Se depender de Byron, o mapa de Aracaju vai ser atualizado a partir das reclamações de grupo de WhatsApp.
BRENO GARIBALDE, O FISCAL DO TAPUME E CAÇADOR DE FIO PENDURADO – Breno entrou na semana com duas missões: impedir pedestre de virar faixa de rolamento e salvar o Centro de virar labirinto de cabo de telefone. Primeiro, desceu o sarrafo nas obras das pontes do Rio Mar e do Parque dos Cajueiros, onde tapume tomou calçada e obrigou o povo a disputar espaço com carro, mobilidade ativa virou “mobilidade suicida”. Depois, ligou o modo ambiental: atacou o “PL da Devastação”, prometeu mostrar para Sergipe como cada deputado federal vota e avisou que não vai deixar passar licenciamento ambiental a la porteira aberta. Em outra rodada, comemorou a retirada de mais de 16 toneladas de fios inúteis no Centro, pediu freio na poluição visual de letreiros e cobrou solução para canal, escola quente e esgoto “artístico” caindo onde não devia. Se continuar assim, Breno vira o terror de obra mal planejada e de cabo sem dono.
CAMILO DANIEL, O CRONISTA DO GOLPE FRACASSADO – Camilo usou a tribuna como quem dá aula de História em tempo real: lembrou condenação de militares e de ex-presidente por tentativa de golpe, puxou da gaveta a ditadura militar, a Operação Cajueiro e emendou tudo num discurso de “Brasil passando a história a limpo”. Para ele, o país está finalmente olhando para o retrovisor e percebendo que o buraco não era metáfora, era institucional mesmo. Enquanto uns ainda tratam golpe como “exagero de linguagem”, Camilo fez o registro em ata: democracia é frágil, golpista tem CPF e, desta vez, tem sentença.
ELBER BATALHA, O CAÇA-COMISSIONADOS DA EMSURB – Elber foi para cima dos cargos comissionados da Emsurb como quem faz auditoria em folha de pagamento de banco falido. Jogou na tela: 538 comissionados na autarquia, atividades terceirizadas, folha que saltou de R$ 6,9 milhões para R$ 15,4 milhões, mais de 3 mil cargos comissionados na gestão, e um recado que veio com tom de ironia histórica: a própria Emília Corrêa, quando era vereadora, dizia que isso “beirava crime”. Agora, com a realidade multiplicada por três, Elber ressuscitou o vídeo da prefeita do passado para confrontar a prefeita do presente. Se esse levantamento por secretaria sair completo, vai ter muita cadeira tremendo antes mesmo do próximo concurso.

FÁBIO MEIRELES, O FISCAL DA PRESTAÇÃO DE CONTAS FANTASMA – Fábio entrou em campo com a calculadora numa mão e a Lei de Responsabilidade Fiscal na outra. Chamou de “desdém” o fato de o secretário de finanças não ter apresentado o 2º quadrimestre no prazo, lembrou que o 1º já veio atrasado, desmentiu a tese mágica de que a lei teria tirado a obrigatoriedade da audiência e mostrou o parágrafo que o secretário aparentemente esqueceu de ler. Na tradução livre de Fábio, não falta tempo, falta vontade. E não perdeu a oportunidade de lembrar que a atual prefeita, quando era vereadora, cobrava transparência do antigo gestor. Agora, a cobrança está voltando, com juros e correção monetária.
IRAN BARBOSA, ENTRE A BANDEIRA, O MUSEU E A LUTA CONTRA A PRIVATIZAÇÃO – Iran dividiu o tempo entre o passado e o futuro: no Dia da Bandeira, cobrou a recuperação da Praça da Bandeira e do antigo Museu da Bandeira, hoje em modo “ruína urbana”, com calçamento quebrado e iluminação capenga. Na mesma toada, se colocou na linha de frente contra privatizações em saúde, educação e assistência social, participou de audiência pública, lembrou que não dá para transformar direito social em linha de lucro de planilha. Em outra agenda, recebeu a presidenta nacional do PSOL, Paula Coradi, puxou roda de conversa sobre fim de escala 6×1, serviços públicos e defesa da democracia. E ainda achou tempo para visitar escolas sem climatização e lembrar o óbvio: sala quente não combina com aprendizado, muito menos com discurso de prioridade na educação.

RICARDO VASCONCELOS, EMENDAS, CIRURGIAS E DEMOCRACIA SEM FESTA COM PRISÃO – Ricardo assumiu o papel de síndico das emendas impositivas: cobrou responsabilidade de quem destina e de quem recebe, alertou para instituição que não está pronta para executar recurso e avisou que dinheiro público não foi feito para virar “letra morta” em orçamento ou vitrine eleitoral. Em seguida, vestiu o jaleco metafórico e defendeu o Opera Aracaju, projeto que pode zerar fila de cirurgias na capital – se as emendas forem bem usadas e não virarem santinho sofisticado. Sobre a prisão de Bolsonaro, foi cirúrgico: quem erra tem que pagar, mas sem festa em cima da desgraça alheia. Democracia, para ele, não é torcida organizada, é regra do jogo.
BIGODE DO SANTA MARIA, O CRONISTA DO BAIRRO EM OBRAS E DA GRATIDÃO EM PÉ – Bigode fez um balanço emocional e prático do Santa Maria: de 2012 para cá, 170 ruas saneadas e pavimentadas, três unidades de saúde, quatro creches, sete escolas e até agência do Banese para dar aquela cara de bairro com CEP respeitado. Entre elogios à prefeita Emília e agradecimentos ao governador Fábio Mitidieri por ter segurado sua cadeira na Câmara por um período, Bigode fez discurso de despedida com tom de “não tenho diploma, mas tenho rua e joelho ralado de luta”. No outro dia, apareceu reforçando o trabalho da Emsurb e pedindo que a Oposição faça crítica com responsabilidade, sem transformar asfalto em campo de guerra eleitoral.
LEVI OLIVEIRA, ENTRE A APOSENTADORIA ESPECIAL E O ASFALTO INTRAFEGÁVEL – Levi começou a semana comemorando vitória histórica: aposentadoria especial para agentes de endemias e agentes comunitários de saúde, gente que segura o rojão na linha de frente das comunidades. Mas não ficou só na tribuna federal; desceu para o asfalto local. Cobrou conserto de buraco gigantesco no Jardim Centenário, pediu requalificação da avenida Alexandre Alcino, no Santa Maria, classificou o trecho como intrafegável e lembrou que asfalto ruim não é só incômodo, é risco real. Ainda pediu limpeza pesada na Praça Raul Félix, tomada por mato e lixo, e sugeriu mudança de fluxo em rua do bairro Luzia para evitar que a falta de sinalização transforme cruzamento em loteria diária. Levi assumiu o papel de “conciliador de buraco, praça e previdência”.
LÚCIO FLÁVIO, DO LIVRO AO MOTOTÁXI, PASSANDO PELO TUDO-EM-UMA-FRENTE PARLAMENTAR – Lúcio abriu a semana parabenizando o jornalista Nubem Bomfim pelo livro “É desse jeito”, porque até vereador precisa manter boa relação com quem escreve. Em seguida, mergulhou em reuniões com auxiliares de enfermagem, agentes de trânsito, guarda municipal e usou a tribuna para defender os 800 servidores da Emsurb espalhados pela cidade. Mais adiante, virou garoto-propaganda da ideia de que, na gestão Emília, não há “óbice” para resolver demanda quando o recurso é do BID, apenas aquela burocracia básica que não aceita milagre contábil. Criou Frente Parlamentar em Defesa do Desenvolvimento Econômico, falou de emprego como maior programa social e desfilou ações em vários bairros, do estacionamento na feira do Centro ao Tamo Junto no Olaria. Fechou a semana abraçando duas causas pesadas: regulamentação do mototáxi (com foco em segurança no trânsito) e atendimento digno à população em situação de rua, em evento na Praça General Valadão. Versão vereador multitarefa ativada.

PASTOR DIEGO, ENTRE A DEFESA DA EMSURB E A CIDADE NEURODIVERGENTE – Pastor Diego começou defendendo a Emsurb das críticas sobre número de servidores, lembrando que a maioria está na rua, varrendo, fiscalizando e tentando manter a cidade num padrão minimamente habitável. Na mesma toada, elogiou o Pop Rua Aju pelo atendimento à população em situação de rua e trouxe para o debate a pauta da neurodiversidade: programa Cidade Neurodivergente, aumento de auxílio moradia e gratuidade no transporte para mães de pessoas neurodivergentes. Enquanto muita gente ainda acha que inclusão é só discurso de campanha, Pastor Diego colocou no microfone o recado: política pública tem que incluir até quem o sistema insiste em fingir que não vê.
SELMA FRANÇA, A DEFENSORA SILENCIOSA DA EMSURB – Selma entrou na disputa narrativa sobre a Emsurb fazendo aquilo que muita gente evita: defesa técnica em meio a guerra política. Disse que conhece de perto o funcionamento da autarquia e pediu que as críticas sejam feitas com base em informação verdadeira, não em print descontextualizado. Não fez discurso de palanque, fez discurso de bastidor: quem mexe com empresa de serviço urbano mexe com a engrenagem que impede a cidade de virar lixão.
MAURÍCIO MARAVILHA, CIDADE INTELIGENTE CONTRA BURACO BURRO – Maurício voltou a falar do Jardim Recreio, onde estrutura frágil, risco de acidente e obra lenta formam o combo perfeito da dor de cabeça urbana. Para ele, não adianta só tapar buraco: é preciso pensar Aracaju como cidade inteligente, com dados, sensores e modernização administrativa para resolver problemas de mobilidade, drenagem e planejamento. Em resumo: menos gambiarra, mais neurônio aplicado à gestão.
ALEX MELO, O VEREADOR QUE MILITA NO HEMOSE E NO PLENÁRIO – Alex usou o Dia Nacional do Doador de Sangue para transformar plenário em campanha de Hemose. Relatou ação com mais de 100 voluntários, lembrou que cada bolsa pode salvar quatro vidas e que os estoques vivem perigosamente baixos. Reforçou que doar sangue não é gesto bonito para foto, é rotina de responsabilidade. No embalo, elogiou o Tamo Junto nos bairros e já emendou promessa de nova ação de doação em 2026. Se continuar assim, em vez de base eleitoral, Alex vai ter base sanguínea.

JOAQUIM DA JANELINHA, O OLHO MÁGICO DO PARAÍSO DO SUL – Joaquim explicou para o povo do Paraíso do Sul que, se a entrada do bairro está um caos, é porque obra grande também tem efeito colateral. Lembrou os investimentos de mais de R$ 30 milhões em mais de 30 ruas, reconheceu que buraco, lama e chuva transformaram o acesso em aventura off-road e cobrou da Emurb e da Emsurb mutirão constante de limpeza e manutenção. Em outro giro, comemorou a reforma da Escola Francisco Portugal, com climatização, quadra e acessibilidade, exaltando o governo Fábio Mitidieri e o secretário Zezinho Sobral. No final, mandou o recado clássico: toda grande obra causa problema, mas cabe ao vereador não deixar a população atolada enquanto a foto da inauguração não fica pronta.
ANDERSON DE TUCA, A CORRENTE DO BEM NA VEIA (LITERALMENTE) – Anderson celebrou o Dia Nacional do Doador de Sangue organizando mais uma edição da Corrente do Bem – Amigos de Anderson de Tuca no Hemose. Reuniu voluntários, falou de UTI, de gente que depende de transfusão para viver e lembrou que quem doa não sabe para quem vai, mas sabe que vai salvar alguém. Com lei de sua autoria criando a campanha no calendário oficial, Anderson faz o que muita gente promete e não cumpre: pega a pauta, assina e aparece no local onde a política pública precisa sair do papel. Sangue, neste caso, é metáfora e realidade.




