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Editorial: Entre a oposição em chamas, a situação em tensão e a imprensa com o galão de gasolina

A política sergipana entrou naquela fase em que ninguém mais finge normalidade. A tensão está exposta nos discursos atravessados, nos silêncios estratégicos e nas alianças que rangem como porta de casa antiga. Não é crise declarada, mas também passou longe da harmonia. É o momento clássico em que todos dizem estar juntos enquanto disputam espaço, futuro e narrativa.

No campo da situação, o nó tem nome claro. Fábio Mitidieri decidiu jogar antes da hora. Formalizou cedo sua reeleição, confirmou Jeferson Andrade como vice e anunciou seus nomes ao Senado em etapas. Primeiro André Moura. Depois Alessandro Vieira. O movimento foi calculado, mas acionou um curto-circuito previsível.

Colocar André Moura e Alessandro Vieira no mesmo tabuleiro reacendeu um conflito que já estava ali, apenas contido. André, político experiente, joga no tempo longo, absorve golpes com serenidade e não transforma desconforto em espetáculo. Alessandro, de discurso mais direto e menos afeito à liturgia silenciosa, prefere o embate aberto. Ambos já disseram que não votam um no outro. Isso não é ruído. É fissura visível.

O entorno não ajuda. Maísa Mitidieri sinalizou voto em Alessandro. André Moura, apesar de sua longa trajetória, lealdade ao grupo e histórico de entregas políticas, não recebeu gesto equivalente. Érica Mitidieri demonstra afinidade política com Alessandro, mas também evita declarações públicas em favor de André. Na política, o silêncio raramente é neutro. Muitas vezes, ele é a forma mais sofisticada de empurrar alguém experiente, sereno e institucional para fora do centro do tabuleiro, não por erro próprio, mas por conveniência do sistema, que costuma preferir o barulho à consistência.

Em Lagarto, o peso aumenta. Sérgio Reis anunciou Rogério Carvalho como seu primeiro senador e depois Alessandro Vieira, deixando André Moura fora da equação num colégio eleitoral estratégico. Soma-se a isso a posição de Ibrahim Monteiro, que rompeu apoio a André após décadas de convivência política construída também com Valmir de Monteiro. Nos bastidores, o gesto é lido menos como rearranjo eleitoral e mais como ingratidão simbólica. André absorve o movimento sem lamúria, com a frieza de quem conhece o jogo e sabe que o poder tem memória curta.

Edvaldo Nogueira segue como personagem que nunca saiu do palco. Sempre alinhado a Fábio, foi cogitado para o governo, optou por ficar na prefeitura, depois ficou fora da chapa e passou a ser sondado por vários campos. Valmir de Francisquinho ligou. O PT piscou. Edvaldo corre por fora, em silêncio. Na política, quem corre por fora costuma chegar inteiro.

Rogério Carvalho tenta se aproximar do grupo governista por cálculo e sobrevivência política. Até aí, nada de novo. O problema é a porta. Rogério parece tentar entrar por um buraco que não comporta nem seu histórico nem seu tamanho político. A resistência é clara. A antipatia pública de Érica Mitidieri não é segredo de bastidor. O encaixe é forçado. Parece roupa emprestada: fecha no botão, mas rasga na costura.

Ainda no campo da situação, as disputas paralelas ajudam a explicar o clima interno. Cristiano Cavalcante atua de forma inquieta, sempre em movimento, testando espaços e tensionando o ambiente político. Em contraste, Jorginho Mitidieri adota uma postura oposta: discreta, estratégica e silenciosa. Amparado pela amizade antiga com Fábio Mitidieri e pelo trânsito fácil dentro do PSD. Na política, muitas vezes, quem espera e escolhe o momento certo joga melhor do que quem se antecipa demais.

Na oposição, o roteiro ganha tom épico. O campo está dividido entre dois polos que já não disfarçam a animosidade. De um lado, Edvan Amorim, estrategista silencioso, conhecedor dos atalhos e do valor do tempo. Do outro, Rodrigo Valadares, discurso direto, mobilização real e disposição para confronto desde que assumiu o PL. A relação deixou de ser apenas política. Tornou-se pessoal. Algo como Aquiles e Agamenon: brigam menos pela guerra e mais pelo comando do exército.

A história mostra que a oposição raramente é um bloco único. Hoje, ela se organiza em pelo menos quatro polos distintos. De um lado, Rodrigo Valadares e Edvan Amorim travam um confronto direto, de egos, estratégias e controle de campo. De outro, Emília Corrêa enfrenta seu próprio desgaste interno com o vice-prefeito Ricardo Marques. Em paralelo, Valmir de Francisquinho observa tudo com serenidade. Ainda assim, a política ensina que rivais duros sabem marchar juntos quando o inimigo comum se impõe. Há quem aposte que Rodrigo e Edvan, apesar da guerra aberta, possam dividir o mesmo front se o projeto maior falar mais alto que o orgulho. Na política, até espadas desembainhadas aprendem a descansar lado a lado quando a batalha exige unidade.

Emília vive o dilema clássico da casa grande, onde os conflitos existem, mas ninguém deixa de se falar. Enquanto administra o atrito doméstico com o vice-prefeito Ricardo Marques, ela mantém os olhos atentos ao tabuleiro maior da oposição. Edvan Amorim atua nos bastidores tentando esfriar a relação entre Emília e Ricardo. Emília, por sua vez, faz o movimento inverso, usando paciência, tranquilidade e cálculo político para reduzir a tensão mais ruidosa entre Edvan e Rodrigo Valadares, apostando no diálogo silencioso e na reconstrução gradual da coesão. Apesar das brigas, a engrenagem segue funcionando: Ricardo conversa com Rodrigo, Rodrigo mantém canais abertos com Emília, Emília dialoga com Edvan, e Valmir de Francisquinho conversa com todos. No meio desse xadrez, Valmir observa com a serenidade de quem conhece bem o roteiro político, fala com os quatro, escuta mais do que fala e aguarda o momento certo. 

E então chegamos ao terceiro vértice. A imprensa. Não a responsável, mas a que vive de intriga, recorte e bastidor vazado como verdade absoluta. A que transforma ajuste político em guerra pessoal. Shakespeare já avisava: reis caem conforme o tom do mensageiro. Maquiavel lembrava que o conflito interno corrói mais que o inimigo externo.

Rádios e portais amplificam frases soltas, constroem narrativas a partir do ouvi dizer e empurram personagens para embates que nem sempre existem na intensidade noticiada. O resultado é uma distorção da percepção do eleitor comum, que passa a enxergar guerra onde muitas vezes há apenas ajuste, ruído ou disputa natural de espaço. Enquanto isso, Fábio Mitidieri governa tentando manter o equilíbrio do tabuleiro, André Moura joga no tempo e na experiência, Edvan Amorim opera no silêncio estratégico, Rodrigo Valadares mobiliza com discurso direto, Valmir de Francisquinho preserva seu capital popular, Emília Corrêa administra conflitos com cautela institucional e Ricardo Marques calcula movimentos com paciência. Todos com defeitos. Todos com virtudes. Todos parte legítima do jogo democrático, ainda que nem sempre do espetáculo fabricado.

O problema não é o conflito. Política vive dele. O problema é o conflito fabricado em escala industrial para gerar audiência. Enquanto se monta picadeiro, quem paga a conta é o cidadão. O sergipano não quer saber quem venceu a discussão do rádio da manhã ou do Portal da tarde. Quer hospital funcionando, estrada transitável, escola aberta, emprego, turismo ativo e segurança nas ruas. O resto é novela repetida, enquanto os problemas reais seguem esperando o próximo intervalo comercial

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