A campanha pelo Governo de Sergipe entrou nas últimas horas naquele estágio em que ninguém mais pede licença para bater na porta do adversário: entra, senta no sofá e ainda pergunta onde está o café. Fábio Mitidieri decidiu não comparecer ao debate da TV Sergipe e justificou a ausência dizendo, entre outras coisas, que não via sentido em debater com Ricardo Marques, atingido pela renúncia do vice, nem com Dr. Helton, cuja situação eleitoral estava judicialmente questionada. Foi o suficiente para transformar a cadeira vazia do governador quase no sexto participante do programa. Ricardo perguntou se sua saída da disputa teria sido resultado de articulação de bastidores; Valmir de Francisquinho direcionou críticas à gestão através da discussão sobre a venda da Deso e a crise da água; Emanuel Cacho classificou a ausência como desrespeito ao eleitor; e Dr. Helton reagiu à declaração de Fábio sobre sua candidatura. Fábio não estava no estúdio, mas trabalhou mais que muito candidato presente: recebeu pergunta, crítica, cobrança e até interpretação política sem precisar gastar saliva. Em eleição, aparentemente, existe até home office de debate.
Valmir de Francisquinho aproveitou a reta final para puxar a campanha novamente para um terreno em que sabe produzir barulho: o bolso do eleitor. Em entrevista voltou à proposta de reduzir a passagem do transporte público para menos de R$ 3 com participação financeira do Estado. Enquanto Fábio procura vender a continuidade administrativa, Valmir tenta vender a ideia de que algumas contas poderiam simplesmente chegar mais baratas. E passagem de ônibus tem uma vantagem eleitoral extraordinária: não precisa de PowerPoint para explicar. O passageiro entra, paga e imediatamente descobre se gostou da proposta. Mas Valmir também acabou participando de outro capítulo, bem mais cinematográfico, ao ser visto deixando o condomínio Le Jardin, onde mora Ricardo Marques. Pronto. Em campanha eleitoral, dois políticos podem até morar no mesmo planeta que alguém já pergunta se fizeram aliança. Ricardo posteriormente negou ligação política com Valmir. Portanto, até aqui há condomínio, há saída registrada e há especulação; acordo político comprovado, não. Porque eleição em Sergipe já está suficientemente movimentada sem precisar transformar porteiro de condomínio em correspondente internacional.
Ricardo Marques, aliás, viveu o roteiro mais improvável dessa reta final. Depois da renúncia de Érico Menezes, segundo candidato a vice a abandonar sua chapa, a Justiça Eleitoral homologou a saída e considerou inviável a manutenção da candidatura sem substituto. Ricardo reagiu em live, disse que não desistiria voluntariamente e perguntou publicamente a quem interessava sua retirada da eleição. Também relatou sentir-se desrespeitado e mencionou dificuldades internas enfrentadas desde a convenção do PL. É uma campanha que começou procurando voto e terminou procurando vice, recurso jurídico e explicação partidária quase ao mesmo tempo. A crise interna do PL, que já vinha de episódios envolvendo Rodrigo Valadares, ganhou contornos de seriado: quando o público pensa que chegou ao último episódio, aparece outro personagem na porta dizendo que precisa conversar. Ricardo promete anunciar seus próximos passos depois de ouvir aliados. Até lá, a chapa do PL conseguiu uma proeza rara: produzir mais suspense sobre quem estará na eleição do que sobre o resultado dela.
Enquanto isso, Fábio procura atravessar esse tiroteio apresentando administração, obras e compromissos de governo. Em entrevista à 103 FM, falou de educação, segurança, infraestrutura e abastecimento, reconhecendo problemas relacionados à água e atribuindo ao Estado a obrigação de fiscalizar e cobrar a concessionária. É a velha diferença entre quem ocupa o governo e quem tenta ocupá-lo: o adversário promete consertar; quem governa precisa explicar por que ainda está consertando. Emanuel Cacho escolheu justamente esse flanco para bater, criticando a concessão da água e aproveitando o debate para alcançar Fábio mesmo sem Fábio estar lá. Também apresentou propostas para servidores, agricultura, turismo, segurança e saúde. Dr. Helton fez movimento semelhante, respondendo ao governador e marcando posição contra a tentativa de tratá-lo como candidato fora do jogo. Resultado: Fábio faltou ao debate para não entrar no confronto e acabou virando o assunto principal do confronto. Politicamente, é quase como faltar à própria festa e descobrir no dia seguinte que cantaram parabéns olhando para sua cadeira.
Na outra ponta aparecem Dr. Helton e Taty Cristina, com exposição menor no noticiário das últimas horas, mas presentes no tabuleiro político. Ambos foram citados entre os candidatos que aceitaram compromisso apresentado por representantes dos bancários em defesa do Banese, dos concursos públicos e de direitos dos trabalhadores. E assim Sergipe chega aos últimos dias antes das urnas: Fábio defendendo governo sem precisar entrar no estúdio; Valmir falando de passagem barata e aparecendo em endereço que imediatamente virou assunto político; Ricardo tentando descobrir juridicamente se ainda existe campanha para continuar; Emanuel tentando aproveitar cada espaço deixado pelos maiores; Helton brigando para não ser declarado fora da eleição antes da hora; e Taty procurando espaço num noticiário dominado pelos candidatos mais expostos. Se campanha eleitoral fosse campeonato, esta rodada teria pedido VAR, juiz eleitoral, contador, advogado, encanador por causa da água e, no caso do PL, talvez até um departamento especializado exclusivamente em localizar candidatos a vice. O eleitor, no fim das contas, continua com a parte mais simples e mais poderosa do espetáculo: observar toda essa confusão e decidir sozinho o que fazer com o voto.




