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Seis candidatos, dois protagonistas e uma frase que pode custar caro

Sergipe entrou oficialmente naquela época do calendário em que todo mundo descobre uma vocação irresistível para abraçar gente, visitar feira, comer buchada diante das câmeras e jurar amor eterno ao interior. As convenções terminaram e seis candidaturas ao Governo estão anunciadas: Fábio Mitidieri, Valmir de Francisquinho, Ricardo Marques, Emanuel Cacho, Helton Monteiro e Taty Cristina. É uma mesa farta de nomes, embora as pesquisas apresentadas até aqui indiquem uma disputa muito mais concentrada. Em bom português sergipano, montaram uma mesa para seis, mas dois já chegaram discutindo quem fica na cabeceira. Os outros ainda procuram uma cadeira que apareça na fotografia.

Fábio Mitidieri fez aquilo que qualquer governador tentando permanecer governador sabe fazer com precisão quase coreográfica: mostrou estrutura de governo. Em Propriá, apareceu no Grande Encontro promovido pelo prefeito Luciano de Menininha e exibiu musculatura política no Baixo São Francisco. Até aí, manual clássico de campanha. O problema surgiu quando a boca resolveu disputar protagonismo com a máquina. A frase atribuída ao governador, “vocês não querem um marchante, vocês querem alguém que sabe trabalhar”, pretendia atingir Valmir, mas encontrou uma plateia muito maior. Porque marchante trabalha. E muito. De repente, aquilo que deveria ser uma provocação eleitoral passou a soar como uma curiosa divisão social do trabalho: de um lado quem governa, do outro quem sua. Para uma campanha que pretende conquistar votos populares, é um luxo retórico bastante caro.

É justamente aí que a política pratica uma de suas ironias favoritas. Valmir de Francisquinho, cuja biografia é associada ao trabalho como marchante, vendedor de picolé e a uma origem popular, ganhou gratuitamente um capítulo de campanha escrito pelo adversário. Ninguém precisou contratar roteirista. Quando alguém tenta diminuir um concorrente lembrando de onde ele veio, existe sempre o risco de o eleitor ouvir outra coisa: “olha de onde ele conseguiu chegar”. E essa mudança de percepção pode ser poderosa. O marchante passa a representar o açougueiro, o feirante, o pedreiro, o motorista, a diarista, o pequeno comerciante e tanta gente que aprendeu cedo que trabalhar não significa necessariamente usar paletó ou ter fotografia ao lado de prefeito e ainda ter nascido em berço de ouro. O tiro político, portanto, pode atingir o adversário ou voltar carregando a memória de classe de uma parcela considerável do eleitorado. 

Valmir, entretanto, vive uma campanha com um ingrediente que Fábio prefere acompanhar de longe: o Direito. Enquanto o governador administra a máquina, o ex-prefeito administra manchetes jurídicas, pedidos de impugnação, manifestações de aliados e o velho suspense brasileiro sobre até onde uma eleição será resolvida na urna e até onde continuará nos tribunais. É um contraste quase cinematográfico. Valmir aparece competitivo nos levantamentos citados, justamente enquanto sua situação jurídica permanece no centro do debate público. Isso cria um fenômeno curioso. Quanto mais seus adversários discutem se ele poderá permanecer na disputa, mais seu nome permanece dentro da disputa. A política brasileira descobriu há muito tempo que tentar retirar alguém do palco pode ser uma maneira bastante eficiente de garantir que todos continuem olhando para ele e isso já não é a primeira vez.

Ricardo Marques tenta mostrar que é candidato ao Governo e não figurante numa campanha partidária cuja atenção também passa pela disputa de Rodrigo Valadares ao Senado. Emanuel Cacho e Helton Monteiro possuem candidaturas formalmente constituídas e discursos próprios, mas enfrentam o desafio brutal de transformar existência eleitoral em presença política. E chega Taty Cristina, do Democracia Cristã, ainda sem participação naquele levantamento citado porque sua candidatura foi confirmada posteriormente. Todos têm direito ao palco. O eleitor, porém, costuma ser um diretor de elenco cruel. Quem aparece com 1%, 2% ou 5% não precisa apenas apresentar propostas. Precisa primeiro convencer as pessoas a interromperem por alguns segundos a discussão entre os dois candidatos que dominam o noticiário. Em eleição, chama-se sobreviver.

E assim Sergipe abre sua temporada eleitoral com todos os elementos de uma boa tragicomédia brasileira: máquina pública, origem humilde, processo judicial, prefeito em fotografia, candidato tentando crescer, candidato tentando aparecer e uma frase que provavelmente renderá muito mais do que quem a pronunciou imaginava. Fábio quer demonstrar que sabe governar. Valmir quer demonstrar que pode governar. Os demais querem demonstrar que também estão concorrendo. Talvez seja ele quem tenha entendido primeiro a parte mais simples dessa história: palanque cheio não garante voto, tribunal não deveria substituir urna, fotografia não administra Estado e profissão humilde nunca deveria funcionar como argumento de inferioridade entedeu Fábio? Porque no final, depois que os santinhos forem varridos das ruas e os abraços eleitorais entrarem novamente em férias, marchante, pedreiro, feirante, professor e diarista continuarão fazendo aquilo que sempre fizeram. Trabalhando.

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