Nossa Senhora do Socorro vive uma cena curiosa, quase roteiro de Copa do Mundo com ata administrativa. O prefeito Samuel Carvalho saiu de férias, transmitiu o cargo ao vice Elmo Paixão e, de repente, parte da cidade começou a perceber uma coisa simples: a Prefeitura continuou funcionando. Pior para o titular, melhor para o banco de reservas. Porque em política, como no futebol, quando o camisa 10 sai para descansar e o reserva entra correndo, marcando, tabelando e indo para cima, a torcida começa a fazer uma pergunta perigosa: será que o time sente mesmo falta do titular?
Samuel tem direito a férias, claro. Todo gestor tem direito ao descanso, à família, à pausa. O problema é quando o descanso vira personagem político. Ainda mais num município onde o salário do prefeito virou pauta, com registros apontando remuneração entre as maiores do Estado, próxima ao vencimento do governador. Aí o cidadão olha para o contracheque, olha para o buraco na rua, olha para a coleta de lixo, olha para a falta d’água e pensa: se o salário é de Champions League, por que tanto serviço ainda parece campeonato de várzea?
O Forró Siri também entrou nessa conta simbólica. A Prefeitura vendeu a festa como valorização da cultura local, com artistas sergipanos e organização. Mas, na comparação popular com edições antigas, muita gente sentiu falta daquele brilho de evento gigante, daquele clima de multidão, daquele forró que fazia Socorro parecer capital do arrasta-pé. Pode ter sido economia, pode ter sido opção administrativa, pode ter sido prioridade de caixa. Mas política é percepção. E quando a percepção desafina, nem a melhor zabumba segura o refrão.
Nesse vácuo, Elmo Paixão aparece como vice em exercício e ganha espaço justamente pela presença. Vai à rua, conversa, escuta, acompanha demanda, mostra serviço, assume o papel de quem está no gramado. E aí mora o perigo para qualquer titular: não é o discurso que ameaça, é a comparação. O vice não precisa fazer barulho demais. Basta aparecer onde a população reclama. Basta estar onde o buraco incomoda. Basta ouvir onde o prefeito não está. Em política, presença vale mais que legenda bonita em rede social.
Socorro tem problemas reais, e não adianta maquiar com filtro de Instagram. Há reclamação sobre buracos, drenagem, limpeza urbana, saúde, educação, habitação, chuva e falta d’água. A cidade cresceu, mas a paciência da população não cresceu junto. O cidadão não quer saber se o problema é herança, contrato, secretaria, empresa terceirizada ou “processo em andamento”. Ele quer a rua limpa, a água chegando, o posto funcionando, a escola organizada e a cidade respirando. O resto é palestra para seminário de gestão pública.
O episódio das férias de Samuel virou uma espécie de teste silencioso. Se a cidade sente falta, o prefeito volta fortalecido. Se a cidade não sente, o vice cresce no espelho. E aí a brincadeira fica séria. Porque quando o reserva entra e faz dois gols, a torcida não quer saber se o titular estava viajando com a família, descansando ou fazendo agenda pessoal. A torcida quer resultado. E em Socorro, pelo visto, Elmo entrou em campo com chuteira amarrada, enquanto Samuel corre o risco de voltar das férias e descobrir que a arquibancada já estava comentando o desempenho do substituto.




