A pesquisa do CTAS favorável ao governador Fábio Mitidieri não pode ser analisada como se tivesse caído do céu, limpinha, neutra e perfumada. O problema começa quando se olha para quem aparece no entorno financeiro do levantamento: a IN Comunicação Produção e Serviços Ltda. E aqui não estamos falando de boato de corredor, nem de conversa de grupo de WhatsApp. Os documentos enviados mostram a IN Comunicação ligada a uma sequência de contratações com a FUNCAP, órgão do Governo de Sergipe, para eventos públicos, por inexigibilidade, com valores recorrentes de R$ 60 mil.
Entre os documentos, aparece a contratação do Forró Atrevido, por meio da IN Comunicação, para o Maruim Folia, no valor de R$ 60 mil. Também aparece Cartas de Tarô para o Carnaval do Bairro São Conrado, em Aracaju, igualmente por R$ 60 mil. A mesma empresa surge em contratação de Cartas de Tarô para a Tardezinha da Jackson, em Siriri, mais R$ 60 mil; para o Arraiá do Povo 2026, em Aracaju, mais R$ 60 mil; para a festa alusiva a Santo Antônio, em Lagoa Redonda, Pirambu, mais R$ 60 mil; para o Forró do Beco, em São Francisco, mais R$ 60 mil; e para a Festa da Padroeira Nossa Senhora de Lourdes, em Japoatã, mais R$ 60 mil. O relatório oficial de licitações ainda lista processos FUNCAP em ratificação envolvendo a mesma empresa e os mesmos eventos.
E tem mais: os termos de referência não tratam pagamento como ficção. Eles preveem que a nota fiscal ou fatura deve ser apresentada com certidões, conferida, atestada por servidor e encaminhada à Diretoria Financeira para pagamento. Ou seja, os próprios documentos mostram a engrenagem contratual: contratação, execução, nota fiscal, atesto e pagamento. Não localizei nos arquivos uma nota fiscal específica já quitada, mas os instrumentos enviados demonstram claramente que a IN Comunicação está inserida em contratos públicos com fluxo formal de pagamento pelo Governo de Sergipe.
É aí que a coisa fica indigesta. Uma empresa que orbita o caixa público estadual, recebendo contratos culturais do governo, aparece vinculada a uma pesquisa que projeta justamente o governador em posição confortável. Isso não prova fraude, mas produz um cheiro político que nem o melhor perfume institucional resolve. O eleitor precisa olhar para isso e perguntar: quem pagou essa pesquisa? Com qual interesse? Qual a origem do recurso? Qual o vínculo econômico entre contratante, instituto e governo? Pesquisa eleitoral não é santinho com gráfico. É instrumento de formação de opinião.
O CTAS também precisa ser olhado com lupa. Um instituto que já teve pesquisas questionadas pela Justiça Eleitoral não pode se apresentar como tábua dos mandamentos. Quando o histórico já vem com suspensão, multa ou falha documental, a credibilidade precisa ser reconstruída com transparência absoluta, não com manchete conveniente. Pesquisa não pode ser mágica de palco: mostra o número, esconde o truque e pede aplauso da plateia.
O TRE de Sergipe precisa entrar nesse assunto com mais afinco, mais rigor e menos cerimônia. Não basta verificar se o formulário foi preenchido. É preciso olhar quem contratou, quem pagou, qual a origem do dinheiro, quais relações comerciais existem e se a pesquisa foi usada para construir narrativa eleitoral artificial. Se houver irregularidade, a responsabilização não pode parar no instituto. Quem encomenda, financia e divulga levantamento sem credibilidade suficiente também precisa responder.
A população sergipana também não pode assistir a isso como quem vê propaganda de liquidação. Pesquisa eleitoral mexe com partido, eleitor, imprensa, doador, pré-campanha e palanque. Quando o número sai dizendo que a eleição praticamente acabou, ele não informa apenas; ele tenta criar clima. E se esse clima nasce de uma empresa com contratos públicos com o governo beneficiado pelo levantamento, o cidadão tem o direito de desconfiar, cobrar e exigir explicação.
No fim, o caso IN Comunicação e CTAS precisa sair da espuma da política e entrar no terreno da fiscalização séria. Os documentos mostram vínculo contratual da IN com o Governo de Sergipe. Os documentos mostram eventos, valores e fluxo de pagamento por nota fiscal. A pesquisa favorece o chefe do Executivo estadual. Isso basta para acender sirene, não apenas luz amarela. Sergipe precisa saber se está diante de uma pesquisa eleitoral séria ou de uma peça de narrativa com roupa de estatística. Porque número, em ano eleitoral, nunca é inocente. E quando vem embalado por quem bebe na fonte do governo, o eleitor tem todo o direito de perguntar se a rua falou ou se o ar-condicionado soprou.




