As últimas 24 horas colocaram Valmir de Francisquinho e Fábio Mitidieri em vitrines bem diferentes da política sergipana. Valmir apareceu no movimento de construção de palanque, com a candidatura homologada pelo Republicanos. Do ponto de vista estratégico, é o tipo de gesto que mostra campanha com sola de sapato, agenda de interior e faro de quem sabe que eleição não se ganha apenas no ar condicionado do marketing. Enquanto uns ainda ensaiam o discurso, Valmir tenta transformar convenção em musculatura, fotografia em adesão e adesão em notícia circulando no zap antes do café esfriar.
O reforço vindo de Poço Verde mostra que a campanha de Valmir buscou produzir fato político além da própria convenção. O ex-prefeito Toinho de Dorinha e a vice-prefeita Edna oficializaram apoio ao projeto, movimento tratado como expansão da base no interior sergipano. Em política, apoio municipal não é enfeite de mesa nem flor de palanque. É liderança, família, grupo, voto, deslocamento, carro de som, conversa de feira e aquela engenharia invisível que não aparece toda na foto, mas aparece na urna. Também houve notícia de aproximação da Federação PSDB/Cidadania, com Emanuel Cacho deixando o caminho de candidatura própria para entrar na composição com o Republicanos. É o velho idioma da política funcionando: quando a chapa começa a andar, aparece sempre alguém querendo pegar carona antes que o ônibus fique cheio.
Do outro lado, Fábio Mitidieri entrou nas 24 horas com a marca que virou quase método de governo: anúncio, edital, duplicação, requalificação, investimento milionário e vídeo pronto para circular. A duplicação e requalificação da Ponte Governador Djenal de Queiroz, sobre o Rio do Sal, entre Aracaju e Nossa Senhora do Socorro, é uma obra importante e necessária, especialmente para quem enfrenta diariamente o trânsito da região. Mas a cobrança pública é objetiva: edital não alarga ponte, release não acaba engarrafamento e postagem não reduz o tempo de quem volta para casa cansado. O Governo já havia anunciado a duplicação e a requalificação da ponte em 2025, com informação de edital para serviços de recuperação do guarda corpo e calçada; por isso, a pergunta legítima é menos sobre o anúncio e mais sobre o cronograma real, a execução física, o recurso disponível e a data em que a obra deixa de ser promessa com legenda bonita para virar concreto, pista e passagem.
A dificuldade de Fábio é que a sucessão de anúncios começa a bater de frente com a guerra dos balanços. Uma publicação favorável ao governo afirma que a gestão concluiu 418 das 476 promessas de campanha, alcançando cerca de 88% de execução. Já reportagem do AjuNews, citando acompanhamento do G1 Sergipe, apontou que Fábio teria cumprido integralmente apenas 10 das 24 promessas registradas, o equivalente a 41,67%, mantendo ainda um terço do programa sem execução. Os universos são diferentes, os critérios são diferentes e a comparação automática pode ser injusta. Mas a distância entre 88% e 41,67% é tão grande que cabe nela uma ponte, uma duplicação e ainda sobra espaço para inaugurar uma placa, fazer a concessão da Deso, apresentar o projeto do VLT e da Vila Vaticano e ainda passar pela Rota do Leite sem mamar na vaquinha do Estado. O governo precisa explicar, item por item, o que é promessa cumprida, promessa iniciada, promessa licitada, promessa anunciada e promessa que só apareceu sorridente no PowerPoint.
O relógio eleitoral também aperta. Segundo o calendário do TSE, o primeiro turno das eleições de 2026 será em 4 de outubro; a partir de hoje, faltam 73 dias para a votação e 161 dias para o fim do ano. Ou seja, já não estamos naquele momento confortável em que o governo pode dizer que “vai fazer” como quem promete começar dieta na segunda. Agora cada anúncio precisa carregar prazo, obra, execução e entrega mensurável. A Justiça Eleitoral também já impõe limites aos agentes públicos no período de três meses antes das eleições, especialmente para preservar igualdade de oportunidades entre candidaturas. Governar é permitido e necessário; transformar governo em vitrine eleitoral permanente é outra conversa, daquelas que a lei olha de lado e pergunta quem pagou a iluminação, quem gravou o vídeo e quem se beneficiou da plateia.
No saldo político das últimas 24 horas, Valmir apareceu fazendo campanha de aproximação, costurando apoios e tentando ocupar o interior com narrativa de crescimento. Fábio apareceu como governador em modo anúncio, apostando em obras estruturantes e em números favoráveis, mas tendo que carregar a cobrança sobre o que efetivamente foi entregue. Pesquisa pesa, mas não governa; anúncio anima, mas não entrega; apoio empolga, mas precisa virar voto. A campanha está entrando naquele ponto em que o eleitor separa fotografia de fato, promessa de obra e barulho de resultado. E aí, meu amigo, a política deixa de ser propaganda e vira prestação de contas com o povo segurando a caneta.




