A segunda-feira dos candidatos ao Governo de Sergipe foi quase uma aula prática sobre a diferença entre ter agenda e ter assunto. Fábio Mitidieri apareceu com a futura Universidade Estadual de Sergipe, prédio, reitor, cursos, cronograma e toda aquela parafernália que governo adora colocar em fotografia institucional. Só que, enquanto tentava pautar o Estado com a Unese, continuava sendo pautado pela própria frase do “marchante”. É o drama clássico de quem leva uma universidade para a coletiva e descobre que uma frase infeliz cabe muito melhor na manchete. Fábio passou o dia como governador de manhã, candidato à tarde e bombeiro da própria comunicação à noite.
Valmir de Francisquinho fez o movimento politicamente mais eficiente do dia: pegou a frase do adversário, colocou-a no bolso e saiu distribuindo significado. Em vez de responder apenas como ofendido, transformou “marchante” em símbolo de trabalhador, origem humilde e ascensão social. Trouxe até Lula para a conversa, lembrando a trajetória operária do presidente aliado de Fábio. Foi uma boa jogada porque tirou Valmir, por algumas horas, do terreno jurídico onde seus adversários querem mantê-lo preso e o devolveu ao terreno biográfico onde ele se movimenta melhor. E ainda apareceu uma decisão favorável ao Republicanos numa representação contra Alessandro Vieira, embora sem qualquer relação direta com o julgamento de sua elegibilidade. Politicamente, Valmir ganhou o dia sem precisar inaugurar meio-fio, cortar fita ou beijar criança em feira. Fábio entregou o combustível e ele apenas acendeu o motor.
Ricardo Marques, por sua vez, passou a segunda-feira tentando resolver um problema deliciosamente inconveniente: provar que continua candidato dentro do próprio partido. Depois de Rodrigo Valadares declarar que a prioridade do PL seria eleger senadores e deputados federais, Ricardo precisou explicar que não estava desmotivado, que não desistiria e que permanecia “firme, motivado e preparado”. É sempre um momento curioso quando o candidato ao Governo precisa conceder entrevista para dizer que continua candidato ao Governo. Em vez de atacar Fábio, Valmir ou apresentar uma grande bandeira, gastou energia mostrando que não havia sido rebaixado a figurante na própria convenção. Campanha é cruel: às vezes o adversário está do outro lado; às vezes está sentado na mesa do diretório.
Emanuel Cacho apareceu de maneira mais organizada. Deu entrevista, falou de alianças e projeto de governo e, pelo menos, garantiu que sua candidatura produzisse som, imagem e registro público. Não foi exatamente um terremoto político, mas em campanha também existe mérito em aparecer quando metade do pelotão está praticamente invisível. Emanuel ainda precisa transformar presença de mídia em fato político, porque entrevista sem repercussão corre o risco de virar aquele podcastque todo mundo promete ouvir e nunca chega ao segundo episódio. De qualquer forma, foi um dia mais produtivo que o silêncio, e numa eleição polarizada, existir publicamente já é o primeiro degrau.
Helton Monteiro e Taty Cristina tiveram uma segunda-feira quase zen. Nas fontes públicas rastreadas, não apareceu grande caminhada, entrevista de impacto, anúncio relevante ou movimento capaz de disputar espaço com os dois líderes da corrida. Isso não significa que ficaram em casa vendo televisão; significa apenas que, politicamente, o eleitor não recebeu notícia suficiente para saber onde estavam. Helton possui bandeiras claras, especialmente na educação, mas não conseguiu transformá-las em presença forte no dia. Taty, recém-chegada ao tabuleiro e única mulher entre as seis candidaturas homologadas, ainda enfrenta a etapa mais ingrata da política: antes de convencer o eleitor, precisa ser reconhecida por ele. Em eleição, desaparecer por 24 horas para quem já está atrás nas pesquisas é quase tirar férias durante a semana de prova.
O placar político das 24 horas, portanto, foi curioso. Fábio teve a agenda institucional mais robusta, mas passou boa parte do dia tentando recolher os cacos de uma frase que Valmir transformou em bandeira. Valmir teve menos agenda formal e mais política, apropriando-se do erro adversário com rapidez e eficiência. Ricardo lutou contra a sensação de abandono dentro do PL. Emanuel marcou presença. Helton e Taty ficaram quase fora do enquadramento. Se política fosse futebol, Fábio teve mais posse de bola, Valmir marcou o gol no contra-ataque, Ricardo discutiu com o próprio banco de reservas e os demais ainda procuravam o vestiário. E assim terminou a segunda-feira sergipana: com a máquina funcionando, a oposição sorrindo e uma velha lição novamente confirmada, porque em campanha eleitoral quem fala demais frequentemente termina fazendo propaganda para o adversário.




