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Entre coronéis, capitães e sargentos, quem realmente tem voto em Sergipe?

A eleição de 2026 resolveu colocar a Polícia Militar de Sergipe inteira em regime de preparação física. São pelo menos 14 nomes ligados à corporação espalhados pelas disputas para Senado, Câmara Federal, Assembleia e suplências. Tem coronel, tenente-coronel, capitão, sargento e cabo. Se patente elegesse, a apuração terminaria antes do jantar. O problema é que urna não presta continência. Ela exige voto. E, daqui até outubro, todos terão de descobrir se estão realmente entrando em forma eleitoral ou apenas escolhendo uma fotografia melhor para o santinho.

Na disputa mais alta está Coronel Rocha, candidato ao Senado pelo PL, acompanhado da Sargento Krisvania na suplência. Rocha possui identidade clara com segurança pública e direita, mas entrou num ringue onde quase todo mundo já chega com luva, patrocinador e torcida organizada. Krisvania, por sua vez, participa daquele curioso esporte eleitoral chamado suplência: faz campanha, aparece na chapa, mas sua vitória depende integralmente de outra pessoa. Situação semelhante vive a Tenente-Coronel Iris, segunda suplente de André David. As duas estão na urna sem exatamente estarem na urna. É quase uma experiência quântica da política sergipana.

Capitão Samuel chega à disputa federal com currículo, recall e 38.151 votos conquistados em 2022, mas também com algumas contradições difíceis de esconder debaixo da farda. Conhecido por se apresentar como defensor dos policiais, votou a favor da reforma previdenciária estadual de 2019, que atingiu aposentados e pensionistas, justamente um dos temas mais sensíveis para os militares reformados. Politicamente, a ginástica continua: Samuel mantém identidade bolsonarista, mas em Sergipe apoia Fábio Mitidieri, governador aliado de Lula e candidato à reeleição dentro de uma ampla coalizão governista. É quase um conservador com GPS eleitoral: em Brasília, aponta para Bolsonaro; em Sergipe, recalcula a rota e desembarca no palanque de Fábio. Samuel continua competitivo, mas em 2026 terá de explicar à tropa como o discurso de direita, a defesa dos militares e determinadas escolhas políticas conseguem marchar na mesma formação.

Coronel Mano, Sargento Vieira, Sargento Silvio e Cabo Didi formam uma espécie de pelotão federal tentando ganhar condicionamento durante a corrida. Mano tem respeitável trajetória militar, mas seus 6.613 votos de 2022 mostram que medalha institucional e voto são moedas diferentes. Vieira precisa sair de Aracaju e descobrir que Sergipe continua depois da avenida Tancredo Neves. Silvio enfrenta o desafio clássico do estreante pouco conhecido. E Cabo Didi possui recall, o que já ajuda, mas precisa transformar “eu conheço esse nome” em “eu vou votar nesse nome”. Parece detalhe. Em eleição, é praticamente a diferença entre Brasília e assistir à posse pela televisão.

É na Assembleia, entretanto, que aparece o nome militar que mais merece atenção: Coronel Ribeiro. Ex-comandante-geral da PMSE, ele começa sua primeira campanha eleitoral carregando algo que dinheiro de marketing nenhum compra rapidamente: conhecimento institucional espalhado pelo Estado inteiro. Ribeiro não ficou conhecido porque inventou uma patente para colocar no santinho. Comandou a corporação. Circulou, decidiu, administrou crises e construiu relações. Está no PSD, dispõe de estrutura partidária relevante e entra nessa academia eleitoral aparentemente já com bastante músculo. O teste, evidentemente, será converter respeito em voto. Mas entre os estreantes da farda, Ribeiro parece aquele sujeito que chegou à prova física sem precisar perguntar onde ficava a esteira.

Sargento M. Filho e Sgt Alex Lima ainda precisam engordar eleitoralmente, no bom sentido. M. Filho veio de 908 votos na eleição municipal de 2024 e terá de multiplicar bastante essa base. Alex Lima ainda enfrenta o desafio elementar de ser apresentado ao eleitor. Sargento Naldinho merece o prêmio da persistência. Já disputou várias eleições, fez 324 votos para estadual em 2022 e 133 numa disputa municipal posterior. Depois de tantas tentativas, experiência ele tem. Agora falta aquela inconveniência chamada quantidade de votos.

A Tenente-Coronel Manuela talvez seja um dos casos mais curiosos. No papel, tem ingredientes excelentes: mulher, oficial, experiência de comando, segurança pública e trânsito. Dá uma bela apresentação de PowerPoint. A urna, entretanto, não lê PowerPoint. Manuela ainda precisa provar que essa soma de atributos produz eleitorado real. E existe outro problema: o Avante resolveu montar praticamente um batalhão próprio. Quando vários candidatos militares procuram o mesmo eleitor, chega uma hora em que todos descobrem que o bolo corporativo tem tamanho limitado. Manuela pode crescer, mas primeiro precisa deixar de ser “a candidata mulher da segurança” e apresentar uma razão política mais ampla para Sergipe votar nela. Patente e gênero abrem conversa. Não garantem cadeira.

Coronel Lino completa o elenco com um currículo de nove eleições anteriores. Nove. A essa altura, Lino conhece seção eleitoral melhor que muito mesário. Persistência é qualidade admirável, mas também pode virar estatística. Se depois de tantas campanhas a cadeira não chegou, alguma coisa precisa mudar além do número no santinho. O eleitor sergipano é paciente, mas talvez esteja esperando novidade no roteiro.

No fim, todos estão entrando em forma. Uns fazendo musculação eleitoral, outros ainda procurando o personal trainer. Samuel tem história, mas não pode disputar 2026 com o álbum de 2010 debaixo do braço. Manuela possui atributos interessantes, mas precisa mostrar densidade fora do nicho. Rocha tenta crescer numa eleição pesada. Mano, Didi, Vieira, Silvio, M. Filho, Alex Lima, Naldinho e Lino correm atrás de musculatura. Krisvania e Iris dependem dos cabeças de suas chapas.

E Coronel Ribeiro? Esse larga diferente. Tem uma candidatura nova, capital institucional recente e estrutura para surpreender. Não significa eleição garantida, porque urna costuma derrubar até general. Mas, entre tantos candidatos tentando transformar patente em voto, Ribeiro parece ter entendido antes dos demais que não basta colocar a farda no santinho. É preciso colocar a campanha na rua. A PM entrou em peso na eleição. Agora resta saber quem realmente está em forma e quem apenas comprou roupa nova para a academia.

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