Hoje acaba o teatro da pré-campanha. Número pode aparecer, voto pode ser pedido e candidato pode finalmente dizer, sem rodeio, o que quer da vida do eleitor. A última semana mostrou bem quem chega à largada com motor, quem chega empurrando o carro e quem ainda está procurando a chave. André Moura encerrou os últimos dias fazendo política no sentido clássico, somando prefeitos, reunindo lideranças, ocupando municípios e exibindo organização. Eduardo Amorim manteve a linha mais serena, apostando na experiência de quem já sentou no Senado e conhece a máquina por dentro. Enquanto isso, parte dos concorrentes preferiu transformar a semana num campeonato de resposta, provocação, vídeo, nota e desmentido. A campanha nem tinha começado oficialmente e já havia candidato gastando mais energia apagando incêndio do que acendendo entusiasmo.
André Moura foi quem melhor entendeu a lógica da semana. Enquanto muita gente brigava por curtida, ele contava prefeito. Sua campanha afirma apoio de 61 dos 75 gestores municipais de Sergipe, número que não garante voto, mas certamente não cabe debaixo do tapete. Prefeito não carrega eleitor no bolso, mas carrega estrutura, relação política, grupo local e uma agenda que pode fazer diferença numa eleição estadual. André também apareceu ao lado de Fábio Mitidieri, falou de segurança, saúde, municípios e articulação em Brasília. Não tentou reinventar a própria biografia. Vendeu exatamente aquilo que sempre vendeu, capacidade de abrir portas, conversar com poder e buscar recursos. Pode funcionar ou não, mas há método. Num Senado cheio de candidatos tentando provar quem grita mais alto, André decidiu provar que sabe fazer conta política. E conta política, goste se ou não dela, costuma chegar cedo à urna.
Eduardo Amorim também termina a semana em posição respeitável. Não entrou no concurso de valentia digital nem tentou aparecer atirando verbalmente para todos os lados. Médico, ex-senador e ex-secretário da Saúde, tem uma bandeira reconhecível e uma história para apresentar. Seu desafio é transformar experiência em desejo de retorno. Precisa mostrar ao eleitor o que fez, o que deixou de fazer e por que merece novamente oito anos em Brasília. Ao lado de André David no Republicanos, Eduardo precisa tomar cuidado para não ser engolido pelo barulho do companheiro de chapa. André David vende enfrentamento. Eduardo deve vender serenidade, saúde e experiência. Se tentar virar delegado de internet, perde. Se permanecer no terreno que conhece, pode crescer. Em campanha, nem todo mundo precisa entrar na sala chutando a porta. Às vezes basta saber onde a porta fica.
A pancadaria política da semana ficou mesmo por conta de Rodrigo Valadares e André David. Rodrigo atacou, questionou o comportamento do delegado diante de Alexandre de Moraes e trouxe para a discussão contratos, investigações e pessoas próximas ao adversário. André David teve de responder sobre os R$ 240 mil apreendidos e declarou que renunciaria se fosse comprovada ligação dele ou de familiares com o dinheiro. Foi uma frase forte, mas também revelou uma candidatura obrigada a passar parte da semana explicando assunto que certamente não gostaria de carregar para o primeiro adesivaço. Rodrigo, por sua vez, também precisou correr para o extintor quando foi acusado de ter votado contra-medida relacionada aos combustíveis. Negou a interpretação e anunciou proposta para zerar tributos federais. Em resumo, um explicou dinheiro e o outro explicou voto. Alessandro Vieira também teve seu tropeço ao iniciar a semana atingido por decisão do TRE em caso de propaganda antecipada negativa contra Valmir. Depois tentou reagir no interior. Para quem já está no Senado, porém, a cobrança é simples: oito anos depois, o eleitor quer relatório de entrega, não apenas nova apresentação em PowerPoint.
Edvaldo Nogueira e Rogério Carvalho viveram semanas diferentes, mas carregam problemas claros. Edvaldo corre para provar que existe eleitoralmente além de Aracaju. Rodou o interior, recebeu apoios e precisou substituir sua segunda suplência praticamente na porta da campanha. Não é terremoto, mas chapa que troca peça antes da largada sempre produz aquele barulho de mecânico trabalhando com o carro ligado. Rogério, por outro lado, fez agenda, reuniu lideranças, falou de trabalho, saúde, Previdência e escala 6 por 1, mas continua excessivamente abraçado à imagem de Lula. Apoio presidencial ajuda, claro, mas senador precisa ter CPF político próprio. Coronel Rocha enfrenta um drama ainda mais básico: ser conhecido. E o PL entrou neste domingo carregando a crise provocada pela saída de Pastora Salete da vice de Ricardo Marques. Começar campanha discutindo quem abandonou a chapa é quase como inaugurar restaurante explicando por que o cozinheiro foi embora.
Iran Barbosa, Renatinha e Paulinho da União Tur completam o quadro com outro problema: pouca visibilidade. Iran tem história e conteúdo, mas precisa sair do álbum de campanhas passadas e entrar com força em 2026. Renatinha tem o diferencial de ser a única mulher na disputa, o que pode render identidade, desde que venha acompanhado de proposta e presença. Paulinho precisa explicar rapidamente ao eleitor por que sua candidatura merece espaço num cenário tão congestionado. A fotografia final da semana é simples e até divertida: André Moura chega contando prefeitos, Eduardo Amorim chega contando experiência, Rodrigo e André David chegam contando golpes políticos, Alessandro contando decisões judiciais, Edvaldo contando quilômetros pelo interior, Rogério contando com Lula, Coronel Rocha contando com o eleitor finalmente descobrir quem ele é e os menores contando com a campanha para existir de verdade. Agora os números estão liberados. Falta descobrir quem terá voto para acompanhá-los.




