A fala atribuída a Glória Sena não veio de uma adversária. Glória é ligada há mais de duas décadas a Laércio Oliveira e ocupa a primeira suplência de Rodrigo Valadares ao Senado. Quando afirma que “o projeto de Tiago está indo por água abaixo” e “vai cair a qualquer momento”,descreve uma crise dentro do próprio barco de Rodrigo. Tiago Rangel dos Santos, ex-assessor de Laércio, ex-superintendente do Ministério da Saúde e candidato estadual pelo Podemos, é tratado como afilhado político e prioridade eleitoral do senador. Se a primeira suplente já procura o colete salva-vidas, é porque alguém percebeu água entrando no convés.
A frase mais comprometedora é: “Vamos mandar ele desistir, parar de gastar.” Parar de gastar o quê? Até a atualização pública localizada, Tiago declarou apenas R$ 2 mil em receitas, doados por Matheus dos Santos, sem Fundo Eleitoral e sem Fundo Partidário. Se existem outras despesas pagas pelo candidato, por apoiadores, fornecedores ou pelo grupo de Laércio, tudo precisa aparecer nas contas. Campanha não pode ter dinheiro imaginário: ou o gasto está declarado, ou a frase de Glória abriu uma pergunta maior do que pretendia responder.
Glória também afirma que seis bons candidatos ameaçam desistir e que, sem eles, “acabou o projeto”. Nesse ponto, a matemática eleitoral concorda com o desespero. Tiago não se elege sozinho; depende dos votos somados pela nominata do Podemos. Seis desistências retirariam bases, militância e votos, atingindo também candidatos como o pastor José Carlos, nome associado à chapa. As renúncias ainda não foram formalmente confirmadas, mas a ameaça já revela um partido em que metade procura votos e a outra metade procura a porta de saída.
Rodrigo não preside formalmente o Podemos, mas anunciou Valdélio Silva no comando estadual da legenda. E o próprio Valdélio declarou publicamente: “Nós seguimos a liderança de Rodrigo Valadares.” Não é possível reivindicar liderança para montar coligação e escolher suplentes, mas virar visitante quando o partido começa a desmontar. Glória Sena e Marina Castro, ambas do Podemos, completam a chapa senatorial de Rodrigo. O partido aparentemente serve para carregar seu projeto, mas não recebe o mesmo empenho para salvar Tiago. É uma aliança curiosa: Rodrigo fica com as suplentes e o Podemos fica com o prejuízo.
A crise pode chegar a Ricardo Marques, embora ele tenha negado publicamente qualquer intenção de desistir. Ricardo está sem Fundo Eleitoral nacional, foi retirado da fachada do principal comitê e ouviu Rodrigo declarar que a prioridade é o Senado. Agora, Tiago pode perder sua nominata e a própria primeira suplente de Rodrigo denuncia a falta de reação. Se Glória romper, Tiago desistir, seis candidatos abandonarem o Podemos e Ricardo cansar do papel de figurante, Rodrigo terá realizado uma façanha: montou uma aliança inteira para terminar sozinho. Liderança não é aparecer na proa quando o barco sai; é permanecer no comando quando os aliados começam a pular no rio.




