O ministro Alexandre de Moraes recebeu suspeitas graves, mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e uma crise estacionada no coração do Supremo. Poderia ter respondido com documentos, explicações públicas e serenidade institucional. Preferiu retirar da gaveta o Inquérito das Fake News, aberto em 2019 e com previsão informal de encerramento para o dia em que Brasília ganhar praia, coqueiro e vendedor de queijo coalho. Moraes apontou fortes indícios de improbidade, abuso de autoridade e crime de responsabilidade contra André Mendonça e encaminhou o material a Edson Fachin. O gesto teve menos aparência de prestação de contas e mais cheiro de contra ataque: mexeu comigo, ganha inquérito; abriu documento, recebe relatório; fez pergunta, vira suspeito. No Supremo atual, a toga já vem equipada com escudo, espada, airbag e botão de emergência.
Isso não transforma André Mendonça em santo de vitral, padroeiro da transparência ou querubim da Polícia Federal. Ele precisa explicar o encontro fora da agenda com Vorcaro, a audiência realizada sem a presença da PF, o tratamento dado aos sigilos e cada interferência atribuída a ele. Se houve abuso, parcialidade ou favorecimento, que se investigue até o último ponto e vírgula. O que não existe é suspeita contra Mendonça funcionando como detergente institucional para lavar suspeita contra Moraes. A situação fica ainda mais pitoresca porque o relatório usado na ofensiva não tem assinatura de delegado responsável e informa não possuir valor probatório formal. É a mais nova alquimia jurídica de Brasília: entra um documento sem valor de prova, saem três acusações de luxo, uma crise constitucional e entrega expressa no gabinete da Presidência do STF.
O problema já ultrapassou Moraes e Mendonça. O Supremo permitiu que o Inquérito das Fake News virasse um apartamento processual com puxadinho, varanda gourmet, garagem para vinte investigações e escritura sobre metade da República. Quando uma ferramenta conduzida por Moraes é utilizada para reagir contra o ministro que tornou públicas mensagens envolvendo o próprio Moraes, a pergunta não é de direita nem de esquerda. É de lógica elementar: quem investiga quem, com qual independência e obedecendo a quais limites? William Waack disse que o Supremo não sabe para onde ir. Talvez saiba perfeitamente: está caminhando para o abismo, discutindo apenas quem dirige, quem segura o mapa e quem ficará responsável por instaurar o inquérito contra o precipício.
A imprensa percebeu que a crise já não cabe embaixo do tapete vermelho do plenário. A Folha defendeu a renúncia de Moraes e falou em desonra e descrédito. O Estadão sustentou que investigar resolve apenas parte da crise. A CartaCapital descreveu o movimento de Mendonça como uma operação de tudo ou nada. A Revista Oeste destacou o uso do Inquérito das Fake News contra o colega. Jornais que mal conseguem concordar sobre a previsão do tempo chegaram ao mesmo destino: o Supremo virou notícia policial, guerra política e sessão coletiva de terapia. Enquanto o país pedia explicações, ministros apareceram sorridentes numa fotografia. Nada ilegal em rir. O curioso é que, naquele instante, a República estava do lado de fora da janela tentando descobrir se a piada era ela.
Lula também não pode observar o incêndio da sacada do Planalto e oferecer mais uma declaração genérica, daquelas que servem para qualquer crise, qualquer governo e qualquer século. Respeitar o Supremo não é proteger ministro. É exigir que ministro se submeta às mesmas regras que aplica aos outros. Moraes, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Paulo Gonet e toda autoridade mencionada no material relacionado a Vorcaro precisam apresentar esclarecimentos verificáveis. Quando o presidente mede as palavras com a régua da eleição, prudência começa a parecer conveniência de campanha. O governo repete que ninguém está acima da lei, mas o brasileiro quer saber se a frase alcança quem usa toga, carro oficial e elevador privativo ou se termina educadamente na portaria do Supremo.
A desconfiança popular já deixou de ser apenas barulho de rede social. Pesquisa Datafolha realizada em abril apontou que 55% dos entrevistados acreditavam no envolvimento de ministros do STF no caso Master, enquanto apenas 4% afirmavam não acreditar. Isso não prova a culpa de ninguém, mas revela a falência da confiança pública. Edson Fachin precisa levar os fatos ao plenário, preservar as provas e garantir uma investigação independente. O Senado deve abandonar a função de vaso decorativo constitucional, tirar a poeira das suas atribuições e finalmente trabalhar. Moraes deveria afastar-se das decisões diretamente relacionadas ao caso enquanto as suspeitas forem examinadas. O Brasil não precisa fechar o Supremo. Precisa abrir suas janelas, seus procedimentos e suas caixas pretas. Se a Corte escolher salvar reputações individuais em vez de recuperar a própria credibilidade, não chegará necessariamente ao fim jurídico. Chegará a algo politicamente pior: continuará aberta, iluminada e funcionando depois de milhões de brasileiros já terem desistido de acreditar no espetáculo.




