Faltam menos de 28 dias para as eleições, e Sergipe precisa discutir com seriedade o papel da imprensa na formação da vontade do eleitor. Neste momento decisivo, microfone não pode virar palanque, estúdio não pode funcionar como comitê e reportagem não pode chegar ao público fantasiada de santinho eletrônico. Jornalistas têm o direito de opinar, criticar candidatos e fiscalizar governos, mas não podem dedicar um programa inteiro a atacar Valmir de Francisquinho e outro a promover Fábio Mitidieri, como se a cobertura eleitoral fosse uma arquibancada dividida entre torcidas organizadas. O eleitor sergipano não precisa de narradores escolhendo o vencedor antes da votação. Precisa de fatos, contexto, equilíbrio e liberdade para formar sua própria convicção.
Foi justamente essa responsabilidade que o procurador regional eleitoral José Rômulo Silva Almeida demonstrou durante a sessão do TRE de Sergipe realizada em 4 de setembro. Ao recordar a notícia segundo a qual Valmir teria sofrido uma “recente derrota” no Superior Tribunal de Justiça, Rômulo não falou como torcedor, assessor ou adversário. Falou como alguém que examinou o processo. “Não houve recente derrota nenhuma”, afirmou. Em seguida, explicou o essencial: “Houve um julgamento de um recurso de um corréu que foi improvido”. A diferença não é um detalhe técnico escondido numa nota de rodapé. O recurso não era de Valmir, o julgamento não decidiu contra Valmir e, portanto, não existia a derrota atribuída a ele. Rômulo fez o que o bom jornalismo também deve fazer: abriu os autos antes de abrir a boca.
A revelação mais preocupante veio quando o procurador contou que a notícia inexata gerou instabilidade dentro do próprio Ministério Público Eleitoral. “Essa notícia nos levou, inclusive, a ter que perder tempo pesquisando as coisas lá para ver se ia impugnar ou não”, declarou. Se uma informação errada conseguiu colocar procuradores para procurar uma derrota inexistente, imagine o efeito provocado sobre o eleitor que lê apenas a manchete enquanto toma café, trabalha ou espera o ônibus. A notícia não ficou presa às redes sociais. Ela atravessou a porta da instituição responsável pela fiscalização da eleição e obrigou o Ministério Público a chamar o Corpo de Bombeiros dos autos para apagar uma fumaça produzida pelo noticiário. Foi por isso que Rômulo advertiu: “Esse tipo de questão tem que ser punido pela Justiça Eleitoral, porque é objetivo, porque gera instabilidade eleitoral, porque gera prejuízo”.
Rômulo merece reconhecimento pela coragem e pela independência com que se manifestou. Não atacou a liberdade de imprensa, não pediu censura e não exigiu silêncio sobre candidatos. Cobrou aquilo que deveria ser o primeiro mandamento de qualquer redação: verificar antes de publicar. Liberdade de imprensa não concede autorização para trocar o recorrente, alterar o resultado de um julgamento ou apresentar como fato aquilo que os autos desmentem. Uma parcela da cobertura sergipana precisa abandonar o comportamento de adversária política, que anuncia suspeitas com megafone e publica correções com flauta doce. Quando a manchete erra personagem, processo e resultado, ela deixa de informar e passa a interferir no ambiente eleitoral. E interferência baseada em falsidade não é opinião, crítica contundente nem liberdade editorial. É desinformação com maquiagem jornalística.
A imprensa precisa seguir o exemplo de Rômulo e recuperar a tranquilidade de falar a verdade, mesmo quando a verdade desagrada ao governo, à oposição, ao anunciante, ao candidato amigo ou ao próprio apresentador. Se existem problemas em Itabaiana, que sejam mostrados. Se há falhas no Governo do Estado, que sejam investigadas. Se a atuação da Iguá provoca questionamentos, que a empresa responda. Se Valmir, Fábio, Ricardo Marques, Emanuel Cacho ou qualquer outro candidato acertar, que o mérito seja reconhecido; se errar, que seja cobrado com o mesmo rigor. Mandar repórter a um município com a conclusão pronta para atacar determinado grupo não é investigação. É turismo eleitoral com pauta encomendada.
O cuidado deve ser ainda maior porque Valmir teve seu registro deferido por unanimidade pelo TRE somente em 4 de setembro e chegou ao período decisivo com aproximadamente trinta dias para realizar sua campanha. Enquanto os demais candidatos tiveram mais tempo para organizar estratégias, ocupar as ruas e consolidar discursos, Valmir precisou atravessar uma disputa judicial e médica antes de disputar plenamente o voto. Obrigá-lo a gastar esse tempo curto respondendo por uma derrota que nunca sofreu significa retirar da campanha minutos preciosos e contaminar o debate com um fato inexistente. A Justiça Eleitoral precisa manter um olhar clínico sobre publicações objetivamente falsas que possam desequilibrar a disputa, sempre assegurando investigação, contraditório e ampla defesa. Fiscalizar desinformação não é perseguir jornalista. É proteger o direito do eleitor de decidir com base na realidade.
Este debate também pertence à população sergipana. O cidadão precisa cobrar dos veículos as fontes, confrontar manchetes com documentos e desconfiar tanto do ataque permanente quanto do elogio automático. Quem faz jornalismo deve mostrar o sentimento verdadeiro das ruas, inclusive quando ele contraria a expectativa da redação. O povo pode votar em Valmir, Fábio, Ricardo, Emanuel ou em qualquer outro candidato. Pode apoiar, rejeitar, mudar de opinião e cobrar explicações. O que não pode é receber uma realidade previamente editada para servir aos interesses de quem controla o microfone. Rômulo mostrou que coragem institucional é chamar o erro pelo nome. Agora cabe à imprensa demonstrar a mesma coragem e ao eleitor exigir a única campanha que deveria unir todos os lados: a campanha permanente pela verdade.




