PUBLICIDADE

Editorial: Rodrigo atira para todo lado, mas pode acertar a própria campanha

A entrevista de Rodrigo Valadares a Luiz Carlos Focca revelou um candidato preparado, ligado na tomada e com enorme disposição para conquistar uma vaga no Senado. Rodrigo enfrentou assuntos incômodos, falou da crise do PL, do Fundo Eleitoral e da divisão da oposição. Mas entrou no estúdio com munição para uma guerra inteira. Atirou em Alessandro Vieira, André David, Coronel Rocha, Valmir de Francisquinho, Edvan Amorim e, indiretamente, até em Ricardo Marques. Coragem sobrou. Faltou deixar claro quem é o principal adversário e qual projeto pretende oferecer ao eleitor.

A artilharia mais pesada atingiu Alessandro Vieira. Rodrigo afirmou que, quando Alessandro comandava a Polícia Civil, “fez de Sergipe o Estado mais violento do Brasil, com índices semelhantes aos de países em guerra”. É uma frase forte, feita para virar manchete, mas que exige números, datas e contexto. Rodrigo acerta ao cobrar resultados de quem transformou a segurança pública em patrimônio político. Exagera, porém, ao colocar um problema tão complexo na conta de uma única autoridade.

André David recebeu um ataque ainda mais pessoal. Rodrigo questionou se ele teria coragem para enfrentar Alexandre de Moraes e políticos suspeitos dentro do próprio grupo: “Ser brabo e dar tapa na cara de morador de rua e nóia do Centro é fácil. Quero ver o delegado candidato a senador ser brabo contra Xandão e contra políticos bandidos, inclusive do seu próprio grupo”. Também mencionou suspeitas envolvendo contratos supostamente ligados à cunhada de André. Acusações graves exigem documentos, investigação e contraditório. 

Com Coronel Rocha, a divergência virou divórcio litigioso. Rodrigo chamou o correligionário de traidor e afirmou que ele teria prejudicado o projeto de Flávio Bolsonaro. No centro da briga está o Fundo Eleitoral: Rodrigo e Moana Valadares teriam recebido cerca de R$ 3 milhões cada, enquanto Rocha começou com aproximadamente R$ 250 mil. Rodrigo interpretou a reclamação como pressão política, mas dinheiro público não é problema doméstico do partido. O eleitor tem o direito de saber quem recebeu, quanto recebeu e quais critérios foram utilizados.

Ricardo Marques apareceu como vítima involuntária da entrevista. Embora seja candidato do PL ao Governo, seria o único nome da legenda sem recursos do Fundo Eleitoral. Rodrigo confirmou: “O único candidato que não terá direito ao FEFC é o candidato ao Governo, Ricardo Marques”. Depois afirmou que o diretório estadual economizaria para ajudá-lo, mas o estrago já estava feito. O PL entregou a Ricardo a chave do carro, desejou boa viagem e esqueceu de abastecer o tanque.

Valmir de Francisquinho também entrou na mira. Rodrigo afirmou que ele estaria “com medo de Ricardo Marques”. É uma provocação boa para animar grupo de WhatsApp, mas difícil de sustentar diante das pesquisas que colocam Valmir muito à frente. Edvan Amorim, por sua vez, recebeu uma resposta afiada: “Não tomei o lugar de Edvan Amorim. Ocupei um espaço que estava vazio”. A frase sugere que Edvan perdeu força e revela uma disputa maior: o comando político da direita sergipana e o palanque de Flávio Bolsonaro.

Curiosamente, Fábio Mitidieri não recebeu a mesma intensidade reservada aos nomes da oposição. Rodrigo criticou o governador, mas sua metralhadora parecia muito mais interessada nos concorrentes do próprio campo. Enquanto a oposição trava uma guerra civil televisionada, o governista pode assistir à cena, pedir uma água e agradecer pela economia de munição.

Rodrigo saiu da entrevista maior em coragem, presença e capacidade de produzir manchetes, mas não necessariamente maior em poder de agregação. Demonstrou que sabe apontar o dedo; agora precisa explicar o que pretende construir com as mãos. O eleitor quer propostas para segurança, saúde, emprego e desenvolvimento, não apenas uma coleção de inimigos.

A metralhadora giratória rende cortes, manchetes e aplausos da militância. Mas eleição para o Senado não se vence apenas fazendo barulho. Vence-se escolhendo os adversários, apresentando um projeto e somando votos. Coragem abre caminhos; bala perdida, inclusive na política, pode atingir o próprio atirador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *