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Editorial: A reforma, a granada e os escudos: como Ricardo e Élber desarmaram o pacote-bomba de Emília Corrêa

Em Aracaju, a semana começou com um enredo digno de thriller político: um projeto de reforma da Previdência enviado em regime de urgência, carregado de armadilhas ocultas sob o manto da legalidade, uma prefeita em colapso de coerência entre o que foi e o que agora propõe, e dois vereadores que não se esconderam, vestiram a farda do compromisso com o servidor e empunharam a razão como escudo. Ricardo Vasconcelos e Élber Batalha não apenas reagiram: mostraram que há diferença entre obedecer à lei e usá-la como disfarce para atropelar direitos.

A prefeita Emília Corrêa, que um dia empunhou com eloquência a bandeira da defesa dos servidores, decidiu, já investida no poder, reescrever sua própria trajetória política com a frieza de quem apaga o passado a caneta. Sem transição, sem aviso e, sobretudo, sem escuta. Sob a justificativa formal de “cumprir a lei” e recuperar a Certidão de Regularidade Previdenciária (CRP), Emília encaminhou à Câmara o PLC nº 9/2025, um projeto que, embora travestido de obrigação constitucional, vai além do necessário: eleva a contribuição previdenciária de 11% para 14% (como exige a EC nº 103/2019), mas esconde em suas entrelinhas um pacote de medidas que exalam o cheiro do retrocesso, têm o gosto amargo da injustiça social e a estrutura disfarçada de um cavalo de Troia legislativo. É a lei sendo usada como biombo para esconder um corte cirúrgico nos direitos mais básicos do funcionalismo.

Vamos aos detalhes e eles não são técnicos, são humanos: O projeto aumenta em sete anos o tempo mínimo de contribuição para que as mulheres se aposentem. Sete. Não são ajustes graduais nem regras de transição: são anos inteiros arrancados de quem já contava os meses. E por falar em transição, não há nenhuma. Mulheres que estavam a dois ou três meses de garantir sua aposentadoria serão lançadas, de repente, num salto de sete anos, como se tempo de vida fosse variável de planilha e não de existência real. O texto ainda levanta sérios indícios de tratamento desigual à população LGBTQIAPN+, criando distinções nas regras de união estável. Uma afronta jurídica, social e civilizatória, o tipo de norma que desumaniza em silêncio. E para fechar o pacote, há uma tentativa clara de reduzir os benefícios previdenciários. Na prática, o servidor contribuirá mais, trabalhará mais e, ao fim, receberá menos. É a lógica do sacrifício de um lado só, sempre do lado de quem já deu a vida ao serviço público. Essa reforma não corrige um sistema: ela impõe um castigo. É a matemática da injustiça travestida de modernização

Foi diante desse cenário, em que a legalidade era usada como escudo para encobrir um corte profundo nos direitos sociais que Ricardo Vasconcelos, presidente da Câmara, assumiu o comando como quem pilota um navio em meio à tempestade. E não tremeu. Subiu à tribuna com a sobriedade de quem entende o peso da história e falou com a firmeza de quem sabe a diferença entre legislar e compactuar: “Não vamos aprovar uma reforma que represente retirada de direitos para trabalhador nenhum.” E foi além, com a clareza de um bisturi: “Não vamos deixar nossas digitais em algo que seja ruim para os nossos servidores.”

Ricardo não negou o problema. Reconheceu que há um déficit previdenciário, sim, mas mostrou que encarar a realidade não significa sacrificar quem sustenta a máquina pública há décadas.
Para ele, reforma não pode ser feita às pressas, nem sob chantagem institucional. Precisa ser construída com luz acesa, estudos em cima da mesa e o servidor dentro da sala.

Ao recusar a lógica da urgência a qualquer custo, Ricardo não fez discursofez escudo. E provou que ainda há espaço para estadistas no Parlamento, mesmo em tempos de discursos rasos e projetos profundos… demais para quem paga a conta

Enquanto Ricardo Vasconcelos pacificava o plenário com a prudência de quem constrói pontes, Élber Batalha chegou com o alicate de corte na mão, foi direto, incisivo, e não mediu palavras nem recuos. O líder da oposição subiu à tribuna como quem já leu o projeto inteiro, viu o que estava por trás das entrelinhas e decidiu dizer o óbvio que muita gente tenta esconder: “Massacra o servidor, ataca aposentados, trai tudo que Emília defendia quando era vereadora.”

E não é retórica: é diagnóstico clínico de quem acompanha a política pública com lupa. O que Emília tentou vender como um simples ajuste obrigatório, o aumento da alíquota para 14%, determinado pela Emenda Constitucional 103, veio acompanhado de um combo de maldades que atinge frontalmente as mulheres, os idosos e a população LGBTQIAPN+. É como se, em nome da lei, o Executivo tivesse colocado veneno na seringa e disfarçado de vacina, esperando que o Parlamento aplicasse sem ler a bula.

É por isso que Élber vai além da crítica: aponta a solução com clareza jurídica e responsabilidade institucional. “Prefeita, retire o projeto. Envie apenas o necessário para recuperar a certidão, o aumento da alíquota. Depois, com calma e transparência, debata o resto com os servidores.”

Simples, direto e justo. Reforma se faz com diálogo, não com chantagem técnica nem urgência fabricada. E aí entra a cena que mais espanta: Emília, pressionada pelas reações, tenta se descolar da autoria da tragédia e joga a batata quente no colo do ex-prefeito Edvaldo Nogueira.

Pode até ser que ele tenha adiado o problema. Mas o que Emília faz agora é pior: usa a omissão de ontem como pretexto para a brutalidade de hoje. E ainda embala tudo com uma narrativa de “obrigação legal”, como se isso a autorizasse a desmontar o sistema de proteção social sem freios, sem debate e sem compaixão.

O projeto enviado por Emília não é uma reforma: é um manifesto de desprezo técnico e simbólico por quem carregou Aracaju nas costas. E o alerta de Élber é cristalino: ou a prefeita recua, ou vai gravar sua assinatura na história como aquela que trocou coerência por conveniência e fez isso nas costas dos servidores.

A prefeita Emília Corrêa diz que dialoga com os sindicatos. Postou até foto sorrindo ao lado de lideranças em uma daquelas reuniões que parecem mais sessão de fotos do que espaço de escuta. Mas quem acompanhou de perto o trâmite do PLC nº 9/2025 sabe: não houve construção coletiva, houve imposição organizada.

O Conselho Municipal da Previdência, que por lei deveria ter sido ouvido, foi ignorado. Os estudos atuariais, jurídicos e financeiros,  documentos técnicos obrigatórios em qualquer reforma previdenciária, simplesmente não vieram com o projeto.


E o pedido de urgência, que deveria ser exceção, foi usado como regra, lido na Câmara com a mesma atenção de quem lê bula de remédio genérico: rápido demais, sem entender quase nada e com medo do que pode dar errado depois.

Enquanto os vereadores tentavam consertar o estrago e devolver o projeto para ajustes, a prefeita preferiu recorrer ao velho truque digital: frases prontas, termos genéricos e a boa e velha tática de deslegitimar o contraditório. Chamou os críticos de “populistas do discurso fácil”. Logo ela, que passou anos como vereadora fazendo exatamente isso: combatendo reformas duras, defendendo o funcionalismo com discursos inflamados e microfone em punho.

No fim das contas, o que Emília fez foi tentar maquiar uma granada, enrolar com fita de cetim e colar um adesivo escrito “compensação de 3%”, como se esse bônus salarial fosse suficiente para neutralizar o estrago de sete anos a mais de trabalho e aposentadorias reduzidas.

Mas desta vez, o Parlamento não caiu na cilada. Ricardo Vasconcelos e Élber Batalha não apenas viram o conteúdo por trás da embalagem: levantaram a tampa, desarmaram o dispositivo e disseram em alto e bom som que não deixariam suas digitais nesse atentado legislativo.

Fizeram o que todo parlamentar deveria fazer: seguraram o rojão, mas se recusaram a entregá-lo nas mãos do servidor como se fosse presente. E o povo? O povo entendeu. O povo viu quem optou pela legalidade com justiça e quem tentou usar a lei como trincheira para esconder uma covardia administrativa. O povo sentiu na pele, porque é o servidor quem paga, mas também é ele quem vota. E memória de trabalhador é silenciosa, mas certeira. Quando a granada explode no bolso, o eco vai até a urna.

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