Por Elaine Costa.
Em todos os eventos de empreendedorismo que participei, uma coisa me chamou a atenção: a fé quase cega no discurso do lucro rápido. Trocam o altar pelo palco, a bíblia por slides no Canva e o espírito santo por um tal de “mindset milionário”. A pergunta que não quer calar: os mentores viraram os novos pastores da fé empreendedora?
Não é força de expressão. Já perdi a conta de quantas vezes vi pessoas se emocionando, chorando e aplaudindo palestrantes que vendem a ideia de que basta acreditar, seguir o método (pago, claro) e tudo vai se resolver. É um teatro muito bem montado — luz, música, voz treinada, storytelling ensaiado. Mas, no fundo, é mais sobre ilusão do que sobre negócio.
O evangelho do sucesso instantâneo
Essa narrativa cresce na mesma proporção da insegurança econômica. No Brasil da informalidade, do desemprego crônico e da ausência de políticas públicas reais, o “seja seu próprio patrão” parece a única saída. Só que essa saída, muitas vezes, é um beco.
O que me incomoda profundamente é que boa parte dessas pessoas que comandam esse show nunca empreenderam de fato. Nunca viveram o desespero de um boleto vencido ou a angústia de não fechar o mês. Mesmo assim, vendem fórmulas de sucesso com a mesma convicção de quem prega a salvação eterna.
Entre o palco e a plateia: quem lucra com a esperança alheia
O discurso é emocional, quase religioso. E funciona. Frases prontas, jargões de autoajuda, gatilhos mentais. Tudo é pensado para criar um estado de euforia e pertencimento. Só que, quando a euforia passa, o boleto chega — e o milagre não vem.
Já vi gente gastar tudo o que tinha com imersões, mentorias, acesso a comunidades. E sabe o que acontece na maioria das vezes? A pessoa volta pro mesmo lugar — só que agora mais endividada. Porque ninguém fala da parte difícil. Ninguém sobe no palco pra contar que faliu, que está em depressão, que não deu certo. O fracasso é invisível, mas ele está em toda parte.
A armadilha do marketing sem régua
O marketing digital virou o território perfeito pra essa indústria da promessa. Não exige formação oficial, e quem tem boa oratória e sabe atingir as dores certas consegue construir autoridade em pouco tempo. Mas autoridade não é competência. E ensinar exige mais do que slides bonitos e frases de efeito.
Tem muita gente séria nesse meio, que estuda, se dedica, entrega conteúdo de qualidade e mostra que o caminho é árduo, mas possível. Essas pessoas merecem ser valorizadas. Só que, infelizmente, são os ilusionistas que mais enriquecem — financiados por uma massa de iludidos que compra curso atrás de curso e nunca sai do lugar.
Precisamos falar sobre fiscalização
Acho urgente termos algum tipo de órgão que regule e fiscalize esse setor. Não pra burocratizar, mas pra proteger quem está vulnerável. Não dá mais pra normalizar esse mercado de promessas que vende solução mágica pra problema estrutural.
Empreender é incrível, mas também é solitário, duro e exige tempo. Nem sempre vai te deixar milionário — e tudo bem. O que não dá é continuar tratando fé empreendedora como commodity. Isso não é inovação, é oportunismo.
Você já caiu em alguma dessas promessas de palco? Conhece alguém que pagou caro por uma mentoria furada? Conta pra mim nos comentários e compartilha essa matéria com quem precisa abrir os olhos.
Sobre a autora
Elaine Costa é publicitária, com formação em marketing digital, inovação tecnológica e Inteligência Artificial. Colunista do Portal Fausto Leite, escreve com olhar crítico e provocador sobre empreendedorismo, marketing e os impactos da tecnologia no cotidiano de quem trabalha, cria e tenta fazer diferente.




