Se Sergipe aprendeu alguma lição no tapa foi esta: obra sem planejamento é tragédia anunciada disfarçada de festa de inauguração. É como churrasco sem carvão, a fumaça até sobe, mas a carne nunca assa. A nova ponte Aracaju–Barra dos Coqueiros, anunciada com fanfarra e o peso de R$ 1,117 bilhão, carrega em si duas possibilidades extremas: pode ser lembrada como um divisor de águas na história da mobilidade sergipana, ou como o maior monumento ao improviso já erguido sobre o rio. Uma linha tênue separa o futuro grandioso do fiasco histórico.

Antes de mais nada, o crédito tem que ser dado a quem bancou a aposta. O governador Fábio Mitidieri mostrou coragem e teimosia no melhor sentido da palavra: decidiu carregar nos ombros a maior obra de Sergipe em décadas. Não foi bravata de palanque nem promessa de campanha esquecida na gaveta, ele assinou o edital, convocou as empresas e disse em alto e bom som que Sergipe não vai mais empurrar o problema com a barriga. Mitidieri tem se comportado como um maratonista da política, daqueles que não correm só para a foto na largada, mas sabem que a verdadeira glória vem quando se cruza a linha de chegada depois de muito suor, resistência e pulmão cheio.

Mas é preciso também fazer justiça histórica: o atual prefeito da Barra, Airton Martins, foi um dos primeiros a erguer a bandeira dessa segunda ponte quando ainda parecia conversa de exagerado. Em 2021, enquanto muitos riam da ideia de colapso viário, Airton já enxergava o futuro com a nitidez de quem conhece cada rua da Barra. Não foi profecia de bola de cristal, foi a experiência de quem acompanhou, em seus mandatos, uma cidade pacata se transformar em um canteiro de prédios e condomínios, um polo imobiliário em ebulição. A primeira ponte, entregue em 2006, abriu as comportas do desenvolvimento; e Airton, testemunha ocular dessa explosão, sabia que o estrangulamento era questão de tempo. Se hoje a nova ponte saiu da gaveta e entrou na agenda, é porque ele manteve a chama acesa quando muitos preferiam fechar os olhos.
Dito isso, vamos ao ponto que separa o sonho do pesadelo: o planejamento viário. Construir a ponte é apenas metade da equação; a outra metade, tão ou mais importante, está nos acessos. E é aí que o bicho pega. Quem encara, todos os dias, o inferno dos engarrafamentos na ponte João Alves sabe que o verdadeiro nó não está na travessia sobre o rio, mas nas artérias que levam até ela: o bairro Industrial, do lado de Aracaju, e o Olimar, do lado da Barra, já colapsaram. De nada adianta erguer um gigante de concreto e aço se o motorista continuar preso em funis urbanos que mais parecem gargalos de garrafa.
O governador precisa, desde já, convocar CPTran, CPRv, DER e SMTT para a mesma mesa e desenhar um plano sério de mobilidade: rotas alternativas, alças de saída, novos corredores de escoamento. Sem isso, a ponte corre o risco de virar o maior paradoxo da engenharia: uma obra faraônica que resolve a travessia, mas multiplica os engarrafamentos. Em outras palavras, seria como inaugurar um shopping de luxo com uma única porta de entrada, aplausos na fita de inauguração, caos no primeiro sábado de movimento.
Outro ponto que não pode ser varrido para debaixo do tapete é o crescimento voraz do eixo Coroa do Meio–Mosqueiro–Sarney. Aracaju está se expandindo para o sul como quem pisa fundo no acelerador, mas esquece de olhar para o retrovisor. Condomínios surgem em cada esquina, a população cresce em ritmo de avalanche e todo esse fluxo humano e automotivo acaba desaguando no mesmo funil viário. O que hoje é incômodo, amanhã pode ser colapso anunciado.
A saída não está em discursos, mas em concreto e planejamento: uma nova via estrutural, ligando Parque dos Faróis–UFS–Mosqueiro, criando um corredor paralelo ao atual e desafogando o tráfego que ameaça travar toda a região. Não é delírio futurista, não é sonho de engenheiro com régua e compasso: é necessidade urgente e inadiável. Ignorar isso agora é como tapar o sol com a peneira e esperar que o trânsito, por milagre, se resolva sozinho.
E aqui vai o recado: obra de ponte não pode ser apenas foto de inauguração para pendurar na parede do gabinete. Precisa vir casada com estudo urbano, impacto ambiental bem planejado e, acima de tudo, visão estratégica de futuro. O risco de não fazê-lo é repetir a história: em 2006, quando a primeira ponte foi inaugurada, ela parecia sobra de espaço; menos de duas décadas depois, virou gargalo diário. A boa notícia é que o governador Fábio Mitidieri sabe disso, tem plena consciência do desafio e já deixou claro que vai tratar a obra como parte de um plano mais amplo de mobilidade. Porque se não aprendermos com o passado, a nova ponte pode nascer já ultrapassada e Mitidieri não tem a menor intenção de deixar esse carimbo na sua gestão.
O governador Mitidieri merece, sim, o elogio pelo fôlego, pela ousadia e pela energia que colocou nesse projeto. Mas também precisa ouvir o alerta: ponte não é só concreto, é mobilidade. E mobilidade não se faz apenas com obras, mas com inteligência de gestão, diálogo com os órgãos de trânsito e coragem para abrir novas frentes viárias.
Em resumo, Sergipe tem diante de si uma oportunidade rara: transformar a nova ponte num divisor de águas para a mobilidade urbana e o desenvolvimento econômico. Mas para isso precisa evitar a tentação do imediatismo. Porque construir ponte é fácil; difícil é construir cidades que funcionem depois que os aplausos da inauguração terminarem.




