Charlie Kirk caiu sob a luz do dia, num evento aberto, enquanto jovens o observavam com olhos cheios de futuro. Um disparo seco, vindo de longe, atravessou o ar e o tempo e, por um instante, o mundo pareceu conter a respiração. Morria ali não apenas um dos rostos mais visíveis da juventude conservadora americana. Morria também a ideia, tão simples e tão rara, de que palavras bastam, de que ideias se enfrentam com ideias.
O corpo de Kirk tombou, mas o silêncio que o seguiu foi o que mais doeu. Um silêncio gelado, quase cúmplice. Um silêncio que parece dizer que certas mortes pesam menos desde que sejam de quem pensa “errado”. Foi um crime, sim, mas foi também um símbolo. Um aviso. Uma cicatriz aberta sobre o mapa do Ocidente: a violência política deixou de ser ameaça e passou a ser rotina, e nós estamos aprendendo a aceitá-la com a mesma naturalidade com que aceitamos o fim do verão.
Não é a primeira vez que a pólvora tenta calar a política. Em 2018, Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, levou uma facada em pleno ato de campanha. Sobreviveu por milagre e meses de cirurgias, mas a imagem de seu corpo ensanguentado, erguido pelos braços da multidão, ficou cravada na história política brasileira como um grito de dor congelado em fotografia.
Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, também viu a sombra da morte cruzar seu palanque. Em julho de 2024, durante um comício na Pensilvânia, tiros romperam o céu, mataram um apoiador e feriram outros dois; um projétil arrancou parte da orelha de Trump, que foi retirado do palco coberto de sangue. A cena, absurda e cinematográfica, foi classificada pelo FBI como atentado político e reacendeu o medo de que as disputas eleitorais se tornem arenas de guerra.
E eles não foram os únicos. O eurodeputado polonês Paweł Adamowicz foi esfaqueado durante um evento público em 2019. O ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe foi assassinado a tiros enquanto discursava em 2022, sob o céu azul de Nara. Cada ataque, com suas circunstâncias, guarda o mesmo traço sombrio: o ódio político transformado em gatilho.
Essa violência não surge do nada. Ela cresce no calor da polarização, alimentada por redes sociais que funcionam como máquinas de indignação. No Brasil, segundo o MediaTalks/UOL, estamos entre os dez países que mais matam jornalistas e quase sempre sem punição. Muitos desses crimes não são registrados como políticos, mas revelam um terreno fértil para que insultos se tornem ameaças e ameaças, ataques.
Até aqui, não temos um “Charlie Kirk brasileiro”. Mas achar que isso nos protege é ilusão. A violência política não dá aviso prévio: ela só precisa de um símbolo, e os símbolos estão se multiplicando. Nikolas Ferreira, com seu magnetismo quase adolescente; Caio Compolla, com a retórica afiada que viraliza; Jeffrey Chiquine, com a ironia cortante que provoca multidões; jornalistas da Revista Oeste que enfrentam linchamentos virtuais diários, todos se tornam, cada um à sua maneira, espelhos de uma ideia. E representar uma ideia virou risco.
Não se trata de romantizar figuras ou endossar ideologias. Trata-se de entender que há uma linha delicada que separa o dissenso do ódio e que estamos apagando essa linha com passos cada vez mais pesados. Os episódios mais recentes e visíveis dessa violência, o atentado contra Bolsonaro, o assassinato de Kirk, a tentativa de homicídio de Trump, a execução de Abe, nasceram ou foram justificados em discursos de ódio antipolítico, muitas vezes aninhados na retórica de uma esquerda radical que deixou de ver o adversário como adversário e passou a vê-lo como herege.
E isso é inaceitável. Não podemos normalizar que o debate político envolva risco de morte; que figuras públicas tremam ao sair de casa por expressarem convicções; que parte da sociedade aplauda o sangue quando ele escorre do “outro lado”. Democracia não floresce sob o cano de uma arma. Quando ideias passam a ser respondidas com lâminas, o pluralismo murcha. Quando a liberdade de expressão vira roleta russa, o pacto civilizatório racha.
Precisamos parar de fingir que isso é normal. Ignorar agora é correr o risco de, amanhã, não restar ninguém disposto a pensar, ou a falar, em voz alta. O silêncio não é neutralidade. É conivência.
E conivência, neste ponto da história, custa vidas.




