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EDITORIAL: COP30: a conta chega para quem paga imposto

No meio do vendaval, julgamento histórico, tarifaço dos EUA, filas e fraudes no INSS, viagens intermináveis e arrecadação a granel, empurra-se o Brasil para um espetáculo climático que ameaça virar alegoria de improviso caro. Belém foi alçada a palco da COP30 sem ter, hoje, lastro logístico para receber a dimensão do evento. E é justamente por isso que a discussão ambiental corre o risco de ser soterrada por fumaça de queimadas retóricas e por uma logística que já nasce fora da realidade de quem banca a conta: o contribuinte.

Os fatos: a ONU disparou cartas às delegações reconhecendo “alta demanda” de hospedagem, pedindo que reservas sejam feitas “o mais rápido possível” e, mais do que isso, sugerindo que as próprias agências da ONU cortem o tamanho de suas delegações por causa da crise de hotéis em Belém. A recomendação, assinada por Simon Stiell (UNFCCC), é o retrato oficial de que há um problema estrutural, faltam leitos, sobram preços abusivos, e o risco é excluir quem menos pode pagar.  

Não é exagero. A ONU realizou reunião emergencial por conta das diárias “absurdas”, com países pobres ameaçando reduzir presença por não conseguir arcar com os custos, enquanto o Brasil tentava dar garantias e o próprio “COP bureau” cobrava respostas. Quando o organismo internacional precisa apertar o freio a dois meses do início, não é “mimimi”; é diagnóstico.  

Para contornar o buraco de hospedagem, o governo fretou dois cruzeiros e os atracará no porto de Outeiro, a cerca de 20 km do Parque da Cidade, sede dos pavilhões. A operação depende de um trajeto prometido de 30–40 minutos e de uma malha viária que, até ontem, não comportava o vai-e-vem de milhares de passageiros, equipes e ônibus oficiais. Uma ponte nova foi prometida para reduzir o tempo de deslocamento; é engenharia contra o relógio.  

E, enquanto a infraestrutura manca tenta alcançar a agenda, as diárias previstas nos cruzeiros chegam a ser múltiplas vezes mais caras do que roteiros internacionais equivalentes. A comparação virou manchete lá fora e virou munição diplomática: delegações questionam por que um quarto “de apoio” em Belém custa mais do que cabine “all inclusive” atravessando o Mediterrâneo. Esse descolamento entre custo e entrega, sobretudo quando parte das despesas escorre para o contribuinte via aparato de logística, segurança e transporte, não é detalhe; é problema político.  

O estrago reputacional não vem só da planilha. Ao menos 25 países assinaram documento pedindo a transferência total ou parcial da COP30 por preços e logística, e veículos internacionais relatam delegações avaliando cortes drásticos, inclusive a chinesa que sinalizou reduzir o tamanho em relação às COPs anteriores. Quando parceiros pressionam pela mudança de sede a menis de 100 dias do evento, não é intriga de bastidor; é alerta de que a ambição climática corre risco de virar festa cara com plateia vazia.  

Tudo isso acontece enquanto o governo tenta vender a COP30 como “a COP da verdade”, mas terceiriza a hospedagem para navios e promete deslocamentos em massa por corredores que ainda não existem plenamente, com preço político atrelado a cada atraso e a cada diária fora da curva. Se a conferência serve para mostrar liderança, a primeira liderança é a da coerência logística: não se fala de Amazônia com delegações presas em transfer sem fim, com jornalista em fila por credencial e com países pobres “desconvidados” pelo preço do travesseiro.  

No plano interno, o silêncio incomoda. A menos de dois meses do evento, quase não se ouve a bancada federal de Sergipe (e de tantos outros estados) discutir impacto orçamentário, transparência de contratos, teto de diárias, contingenciamento de segurança, cronograma de obras e plano B para atrasos. O governo promete Senacon em cima de abusos, força-tarefa para arrumar leito e ponte nova para encurtar caminho, mas a pergunta que interessa ao brasileiro segue sem resposta: quem paga a diferença quando a conta estoura?  

Há, ainda, a hipocrisia de vitrine. Enquanto se multiplica a retórica verde, o mundo olha para a Amazônia com dados de desmatamento, conflitos fundiários e reservas pressionadas. Se a COP30 é a chance de reconstruir credibilidade, a régua será simples: resultado de negociação, transparência de gasto e logística que funcione. O resto é cenografia.

Este editorial não é contra a COP; é contra a COP mal feita e cara. País sério não monta megaevento para, depois, correr para completar o quebra-cabeça com cruzeiro atracado longe do pavilhão, transfer enxuto, credencial contingenciada e diária que beira o nonsense. País sério não empurra custo para quem já foi moído por impostos, inflação de serviços e “taxas” que nascem todos os dias. País sério organiza primeiro, anuncia depois e presta contas sempre.

Belém pode, sim, ser vitrine do Brasil que dá certo, mas só se parar de fingir que falta de leito é detalhe, que navio longe é charme e que preço abusivo é “efeito COP”. O clima não perdoa maquiagem: ou entregamos um encontro inclusivo, tecnicamente impecável e financeiramente responsável, ou seremos lembrados pela ironia de ter convocado o mundo para falar de futuro enquanto tropeçávamos na própria logística.

Se querem “a COP da verdade”, comecem por ela: verdade sobre custos, sobre quem paga, sobre o que se prometeu e o que estará pronto. Verdade sobre por que o Brasil brigou para manter Belém e como garantirá que ninguém fique de fora por não poder pagar a chave do quarto. O resto é fumaça. E de fumaça a Amazônia já entende demais.

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