O governo federal reapresentou um velho projeto com cara de conexão direta ao bolso: eliminar a obrigatoriedade das aulas em autoescolas para quem tira a CNH. A justificativa oficial? Reduzir burocracia, facilitar acesso, baratear o custo que atualmente no Brasil varia entre R$ 3 mil e R$ 4 mil.
Em Sergipe, a situação já tem suas peculiaridades. Segundo tabela divulgada pelo Detran-SE, o preço para tirar a CNH varia conforme categoria: para a categoria B (carro), o valor mínimo é de aproximadamente R$ 1.478,83 e o máximo chega a R$ 2.005,48. Para categorias como AB, os valores máximos podem passar de R$ 2.900. As taxas do Detran (como a taxa de primeira habilitação) custam ao menos cerca de R$ 338.36. Exames médicos, psicotécnicos e práticos complementam o custo, variando bastante de escola para escola.
Se a proposta em discussão for aprovada, muitos poderão estudar em casa ou com instrutores credenciados, sem depender exclusivamente da autoescola tradicional. Isso pode reduzir o custo total em até 75 %, com projeções de valores para a CNH entre R$ 750 e R$ 1.000 em alguns estados. Essa economia é bem-vinda, sobretudo para quem mora no interior ou tem renda limitada.
Mas esse “barato” não pode vir junto da negligência. Com menos carga mínima definida, menos aulas obrigatórias supervisionadas, há risco real de haver condutores mal preparados, o que pode elevar os acidentes, ferir a segurança, comprometer vidas.
Além disso, a proposta não é exatamente nova, mas reaparece com nova roupagem. É prática política comum: quando uma ideia tem apelo popular, mesmo que vista como controversa ou ligada a outras gestões, acaba sendo adotada. E isso não é necessariamente ruim, desde que seja bem executada, transparente, clara nos mecanismos, nos critérios e na fiscalização.
Em Sergipe, é urgente: o Estado precisa garantir que instrutores autônomos sejam credenciados, que existam padrões mínimos de formação, que haja controle efetivo, que o valor reduzido não signifique ensino fraco. Também é preciso que os preços cobrados pelo serviço sejam fiscalizados, para evitar autoescolas que reduzam hora-aula ou aulas práticas apenas para encaixar um preço baixo sem qualidade. O Detran já regulou preços mínimos e máximos para autoescolas, justamente para coibir abusos e garantir atendimento com padrão.
Se bem executada, a CNH com maior acesso será conquista social importante. Mas se for mal feita, apenas barateará o preparo, aumentará o risco no trânsito e criará falsas promessas de liberdade que terminam em apelo por socorro.
Sergipe merece mais que documento barato: merece motorista responsável, consciente, bem treinado. Se o Estado e as novas regras ajudarem nisso, ótimo. Se servirem só pra baratear e deixar a formação de lado, vamos pagar o preço no asfalto e não no orçamento.




