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Editorial – FM, AM e AV: como costurar a paz em meio ao conflito?

Desde que assumiu o governo de Sergipe, Fábio Mitidieri tem sido construído como uma figura de reconciliação, um árbitro político, um verdadeiro juiz de paz entre alas que, em tese, deveriam estar no mesmo campo, mas vivem em constante atrito. Seu papel tem lembrado, cada vez mais, o do rei Salomão, personagem bíblico lembrado por sua sabedoria e senso de justiça, especialmente na famosa história em que propõe dividir um bebê entre duas mulheres para revelar quem é a verdadeira mãe. Ao provocar o limite da dor, Salomão revela a verdade pela renúncia e consagra o ideal de justiça que se realiza pela razão e sensibilidade. Fábio Mitidieri, nesse cenário atual, caminha em terreno semelhante, tentando evitar que o bloco governista seja partido ao meio pelos desentendimentos explícitos entre dois nomes centrais de sua base: André Moura e Alessandro Vieira.

A disputa, no entanto, está longe de ser equilibrada. Enquanto André Moura adota uma postura política serena e estrategicamente calculada, Alessandro Vieira tem optado por um tom público cada vez mais agressivo, marcado por ataques de cunho pessoal e declarações que extrapolam o debate político. Em vez de confrontar ideias, projetos ou visões de gestão, Alessandro tem direcionado suas críticas à figura de André, numa tentativa de desqualificação moral que nada contribui para o amadurecimento do diálogo público. Esse tipo de postura não apenas fere a ética do confronto político, como também expõe fissuras dentro do grupo que apoia o governador Fábio Mitidieri, alimentando a percepção de desunião e gerando um desgaste desnecessário à imagem do próprio governo.

O curioso é que esses ataques não são respondidos na mesma moeda. André Moura, experiente, evita a escalada do conflito. Responde com elegância, quando responde, e mantém-se no campo político, sem adentrar o pessoal. Isso não é fraqueza, é estratégia. André compreende que em política, quem perde o controle perde o respeito. Sua serenidade diante da artilharia de Alessandro revela uma força interna rara em tempos de política emocional. Ele sabe jogar o jogo e sabe que, às vezes, o silêncio é mais eloquente que a réplica.

Nesse cenário, Fábio Mitidieri se vê obrigado a vestir a toga do mediador. Está constantemente entre dois fogos: de um lado, tenta manter Alessandro na base, com alguma projeção institucional; do outro, busca garantir que André Moura continue como pilar de sustentação política, como sempre foi e mais, como primeiro senador do seu grupo. O governador já declarou em público que André Moura será o seu primeiro senador. Isso foi dito, repetido, assumido. E mesmo com o ruído criado pelas brigas, os eventos seguem confirmando essa sintonia: André Moura e Fábio Mitidieri seguem juntos, presentes em todas as agendas estratégicas do governo. Não há briga, não há racha. Há, sim, uma tentativa deliberada da oposição e da imprensa sensacionalista em forçar uma crise que, na prática, não existe. A sintonia entre FM e AM é sólida, é evidente, é estável. O que há é um terceiro elemento, Alessandro Vieira, que, em vez de somar, muitas vezes divide.

É preciso lembrar que o papel do mediador, na filosofia e no direito, não é apenas calar os lados. É promover escuta ativa, racionalidade e consenso. Juristas como Habermas sustentam que a legitimidade da política nasce do diálogo racional entre as partes, não da imposição unilateral. Aristóteles, por sua vez, ensinava que a justiça se dá no meio-termo,  não no excesso nem na omissão. Fábio Mitidieri, nesse dilema, precisa se perguntar: até onde vale manter um aliado que não respeita os demais? Até que ponto o silêncio diante de ataques pessoais não enfraquece sua própria autoridade?

Há pouco, em um evento público, Fábio Mitidieri brincou: “Estamos aqui com André Moura e Alessandro Vieira, só falta os dois tirarem uma foto”. A frase, apesar do tom leve, revela o desconforto: o governador quer o bloco unido, mas sabe que Alessandro não dá sinais de recuo. E não é por André. André está pronto. Alessandro é que parece incapaz de superar questões pessoais, talvez até sentimentais e políticas, e enxergar o todo. Um bom aliado não é aquele que bate nos outros membros da equipe para aparecer. Um bom aliado constrói pontes, não tenta destruí-las e é isso que André faz.

Mais recentemente, a deputada Maísa Mitidieri, irmã do governador, declarou publicamente que já sabia, desde o início, que Alessandro Vieira seria o segundo senador e que seu primeiro voto era, naturalmente, para André Moura. A fala de Maísa não foi gratuita: foi uma sinalização política de que o bloco do Executivo está se organizando com clareza. Fabio Mitidieri caminha para a reeleição; Jefferson Andrade será o vice-governador; André Moura, o primeiro senador; Alessandro, correndo por fora, poderá tentar a segunda vaga. Simples assim. E justo assim.

O tempo da dúvida está acabando. Agora é tempo de clareza. De definir papeis. De fechar composições. Fabio Mitidieri tem sido hábil até aqui. Mas se quiser continuar sendo visto como o “Salomão sergipano”, o grande mediador da política local, precisará mais do que sabedoria, precisará firmeza. O bebê não pode ser dividido. O palanque também não. Se for preciso, que se diga com todas as letras: quem não respeita seus aliados, não pode exigir lealdade. Quem não consegue separar o pessoal do político, não pode pedir voto em nome da unidade. E quem ataca para desestabilizar, não constrói, apenas destrói.

Mitidieri sabe disso. A paz que ele tenta manter não pode custar sua autoridade. E, como Salomão, às vezes é preciso tomar decisões duras para salvar o todo. Neste momento, o governador parece já ter feito sua escolha. Resta saber se todos os envolvidos terão a grandeza de aceitá-la.

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