Preliminarmente os fatos aqui narrados pertencem ao reino da imaginação. Qualquer semelhança com pessoas, cargos ou discursos é coincidência, dessas que só acontecem quando a realidade resolve imitar a fábula.
O Fabulista dormia num plano distante, desses onde o tempo se arrasta devagar, e a alma não se lembra da pressa. Até que, de repente, um bico aflito começou a bater na janela dos seus sonhos. — Acorda, fabulista! (gritava a Pomba Aureliano, com a urgência de quem carrega uma fofoca disfarçada de pauta). — O Cisnei Narcisiano botou a floresta inteira em polvorosa!
O Fabulista abriu um olho só, meio indignado e disse: — Pomba… são quatro da manhã. Que raio de escândalo político começa antes do café? — Um escândalo de domingo! (respondeu Aureliano, ajeitando as penas com pose de correspondente internacional). — O Cisnei Narcisiano, na sua domingueira, resolveu abrir o bico. Disse no ar que o Saruê e o Guaxinim estão em pé de guerra. A floresta parou, fabulista. Parou mesmo!
— Saruê e Guaxinim?, perguntou o Fabulista, coçando a testa. — Mas eles não eram aliados do mesmo grupo do Gov. Leão? — Eram e são (trinou a Pomba, com ironia). — Eram até ontem. Hoje, um chamou o outro de falso, o outro respondeu chamando de folgado, e o resto da bicharada entrou em frenesi.
Nesse momento, a linha espiritual do rádio atravessou o ar: — “Alô, alô, bicharada! Aqui fala o Cisnei Narcisiano!” Era ele, ao vivo, direto da Rádio Fanrestal. A voz soava entre o pomposo e o debochado. — Hoje, meus caros ouvintes, temos um duelo de titãs do brejo e da ilha! O Saruê, o mais sereno dos roedores, e o Guaxinim, o estrategista das águas turvas! Um diz que o outro está cavando voto com as garras. O outro diz que o um joga flores pra enganar a bicharada. O Baixo Franciscano virou circo, e eu tenho o ingresso da primeira fila!
O Foca na emissora Metrofloresta, que sempre ouve mais do que devia, interrompeu com suas palmas alegres: — Ah, Cisnei, isso é um presente de domingo! Finalmente uma briga boa, limpa, com insultos cheirosos! O Cisnei, vaidoso, inflou o peito: — Foca, meu lindo, eu só entrego o que a bicharada pede.
A Coruja Missias na rádio Rioresta, elegante como sempre, entrou na linha com voz pausada, de quem dá parecer jurídico: — Me permitam um preâmbulo… Os outros suspiraram. O Foca murmurou: “Lá vem o preâmbulo…” E a Coruja continuou: — Não sei quem tem razão. Não sei mesmo. Mas afirmo, com base em longa observação empírica, que quando dois aliados começam a se morder, o governo é quem sangra.
Silêncio. A floresta inteira ficou quieta por três segundos. Então a Pomba Aureliano, espirituoso como sempre, quebrou o ar: — Ô, Coruja, que frase maravilhosa! Posso colocar no meu status? “Quando aliados se mordem, o governo sangra.” — Pode (respondeu a Coruja, seca). — Mas coloque entre aspas. Eu cobro direitos autorais.
O Foca caiu na risada, batendo palmas outra vez: — Vocês são ótimos! Parece até debate de cúpula do Palácio das Corujas! Eu já derrubei o bolsonarista, a anta Cleitóves lá da Floresta Minas Geralópolis. — Silêncio! (interrompeu o Cisnei Narcisiano, dramatizando). — O público quer saber quem começou a briga!
E lá estava ele, o grande narrador do caos, pronto para relatar como se fosse final de campeonato: — Tudo começou quando o Guaxinim, nosso amado barão da Ilha, disse que o Saruê estava torrando os cofres do Brejo pra se eleger deputado. Disse que o Saruê inchou o colégio eleitoral, que transferiu voto, que faz lá o que quer! Foi um show! Tinha até tamborete e banda de pífano.
A Pomba Aureliano deu um salto no ar, rindo: — Ah, eu vi! O Guaxinim tava possesso! Parecia candidato em surto! Disse que ia cercar o Baixo e o Alto, que o Baixo era dele e que o Alto também seria. Eu quase caí da torre de tanto rir! O Foca, em crise de riso, completou: — E o Saruê, tão calmo, o que fez?
A Pomba ajeitou as penas: — Deu entrevista, claro! Ao Cisnei da concorrência! Disse que o Brejo tem todas as certidões, que tudo é mentira, que o Guaxinim tá com mania de grandeza e que ele, Saruê, não briga, trabalha. A Coruja Messias interrompeu, solene: — Eis aí o contraste psíquico do poder. Um age por vaidade. O outro, por serenidade. Ambos, porém, por desejo.
O Cisnei Narcisiano, impaciente, soltou uma risadinha sarcástica:
— Ah, Coruja, você e suas análises freudianas! O público quer é intriga, não terapia! — Mas a terapia explica a intriga! (respondeu a Coruja, ofendida). E o fabulista, até então calado, não aguentou mais: — Meus amigos, vocês estão se divertindo demais com a desgraça alheia! Eu tô tentando dormir e vocês transformaram uma disputa política em programa de humor!
O Foca gargalhou: — Mas é exatamente isso, fabulista! É política brasileira em modo comédia romântica! Um bicho acusa, o outro nega, a bicharada assiste, e o Gov Leão vai ficando sem juba de tanto arrancar cabelo. A Aurelino arrematou, triunfante: — Exatamente, meu caro fabulista! E é por isso que te chamei! A floresta precisa de você pra transformar esse barraco institucional numa fábula moral.
O Fabulista suspira… pensa que tem diversos processos para despachar e prazos a cumprir, mas seu espírito de jornalista fala mais alto, então ele fecha-se em seu escritório e começa a pensar na Fábula. A Pomba, satisfeita, ajeitou o microfone imaginário e anunciou: — Senhoras e senhores da floresta, o fabulista acordou. Preparem-se. Lá vem história!
A Coruja Messias acenou, o Foca bateu palmas, o Cisnei fez pose de âncora global, e o Fabulista respirou fundo antes de dizer: — Pois bem, meus caros, se toda coincidência é mera semelhança, esta será uma fábula. E se toda fábula tem moral, esta terá duas: a do Saruê, que cresce devagar mas com raiz; e a do Guaxinim, que sobe rápido mas se vê sozinho no galho.
o Foca gritou: — E o título, fabulista? Ele sorriu e disse: — “A Guerra do Brejo e da Ilha: como a vaidade afoga os que não sabem nadar.” Todos aplaudiram. E a floresta voltou a rir, porque rir é o único antídoto possível quando os bichos poderosos esquecem que vivem no mesmo rio. Então a fábula:
No começo era a paz. O Guaxinim, vindo do outro lado do Rio São Franciscano, havia se instalado na Ilha da Floresta. Não era nativo, mas aprendeu depressa o sotaque da maré. Fino, esperto, metódico, fez-se prefeito duas vezes, para garantir. Os bichos diziam: — Esse bicho tem cálculo na cabeça. E tinha. Era estrategista de nascença, da raça dos que veem a política como uma partida de xadrez jogada no escuro.
Mas um dia, o Guaxinim, vaidoso até o reflexo, apaixonou-se por uma guaxinim de Capelópolis, e trocou de amor como quem troca de vice. O romance virou notícia, e o noticiário virou piada. Ainda assim, ajudou na reeleição da amada. E não só isso: elegeu-se deputado de Sergipólis. Virou líder do Gov. Leão. Era o bicho do momento, o “manda-chuva do Baixo Franciscano”.
O Guaxinim, quando estava animado, jogava flores pro ar e quando jogava flores, caía papel e os bichos corriam para pegá-las. A Floresta Jurídica abriu inquérito, farejou o perfume, resmungou mas no fim não sabemos ainda o que foi decidido, talvez tenha saído ileso e assim convencido de que o Baixo era dele. — O baixo é meu! (dizia ele, olhando o rio com um meio sorriso). — E o alto também será. E os bichos atrás das folhas jogadas acreditavam, ou fingiam que acreditavam, o que em política é quase o mesmo.
Mas a floresta é bicho esperto. Onde há domínio, nasce resistência. E lá no Brejo, vivia o Saruê, um bicho manso, calmo, inteligente, desses que escutam mais do que falam. O Saruê não gritava, não prometia, não ameaçava. Fazia. Governava a cidade havia décadas. Era prefeito, depois prefeito de novo, depois elegia o irmão, a irmã, o sobrinho, a tia…
Nunca perdeu uma eleição. Diziam que ele entraria para o Guinness Book da Floresta, por “longevidade política sem derrota”.
O Saruê era amigo do Gov Leão, vizinho de sala no palácio. Quando o trono rangia, chamavam o Saruê para conversar. E o bicho, com aquela calma de quem já viu tempestade virar orvalho, falava pouco e resolvia muito. Um dia, o Saruê percebeu que o tempo pedia passo novo. Decidiu concorrer ao Legislativo da floresta. E o fez sem alarde: andando, ouvindo, conversando, conquistando. Não tomava o galho de ninguém. Plantava galhos novos. O Saruê tinha um talento raro: sabia crescer sem incomodar. Mas mesmo a sombra da serenidade desperta inveja em quem vive do sol.
Lá na Ilha, o Guaxinim começou a ouvir murmúrios. A primeira a avisar foi a Formiga, carregando fofoca e migalha na mesma boca: — Guaxinim, o Saruê andou por aqui, viu? Foi em São Franciscóplis, Santanópolis e até em Capelópolis … Tá crescendo. O Guaxinim riu, ajeitando o paletó: — Aqui ele não tem vez, Formiga. Mas as formigas sempre sabem o que as Onças fingem não ouvir.
Logo depois, tocou o telefone do palácio. Era a Muriçoca, secretário do Governo do Gov. Leão: — Guaxinim, cuidado. Aqui dentro já notamos: o Saruê tá ganhando espaço, viu? O Leão anda ouvindo ele demais. O Guaxinim, vaidoso, ficou em silêncio. E silêncio, em política, é o rugido da suspeita.
No domingo seguinte, o Rádio da Floresta explodiu. O Cisnei Narcisiano, voz de gala e ego do tamanho de uma represa, abriu o programa: — Atenção, bicharada! O Guaxinim atacou o Saruê! Discurso inflamado! O Baixo tá em guerra! A Pomba Aureliano, voando entre antenas, fez seu comentário: — Ah, fabulista, isso vai dar prosa. Já tô sentindo cheiro de moral no ar! O Foca, jornalista empolgado, bateu palmas no estúdio: — Que maravilha! A floresta precisa disso! Um bom escândalo é o oxigênio da pauta! A Coruja Messias suspirou: — Não sei quem tem razão, mas sei que quem fala primeiro quase sempre se arrepende depois. E assim o rádio virou praça pública. E a praça pública virou tribunal.
O Guaxinim, sabendo do falatório, resolveu enfrentar o vento. Subiu num tamborete e falou: — Esse Saruê aí está acabando com os cofres do Brejo pra se eleger! Abre o olho, Baixo! Ele incha o colégio eleitoral, transfere eleitor, faz o que quer, e ainda quer mandar aqui? A multidão se dividiu. Metade aplaudiu. Metade chiou. E as rádiobicharadas transmitiram tudo, com eco, edição e exagero.
No dia seguinte, o Cisnei chamou o Saruê para se explicar. O Saruê chegou sem pressa, sorriso leve, voz de algodão: — Veja, Cisnei… o Brejo tem todas as certidões. Tudo certo. O que o Guaxinim falou não é verdade. Já há processo correndo sobre essas difamações. Mas não vim falar dele, vim falar de política pública. O Baixo precisa e pode ter dois representantes, não precisa de um coronel de lagoa. Eu sou daqui, conheço as dores da terra. E, acima de tudo, somos do mesmo grupo. Eu ajudei a eleger o Gov. Leão, e não quero brigar, quero somar.
Enquanto falava, o Guaxinim, dentro de um carro reluzente, ouvia a entrevista com o queixo tenso e o ego em combustão. Tentou remendar:
— Não foi bem isso que eu quis dizer… fui mal interpretado… Mas a bicharada da floresta já havia entendido.
A confusão chegou ao palácio. O Gov., cansado, ouvia o falcão Venâncio e águia Uliciano, veteranos sábios que já sobreviveram a oito governos e seis tempestades eleitorais. O falcão disse: — Gov. se o Guaxinim e o Saruê continuarem brigando, quem perde é o senhor. É o governo. É a estrada do leite, é o viaduto, é a água do interior. Preciso de autorização pra sobrevoar o Baixo e costurar a paz. O Leão balançou a juba, sem palavras, gesto de rei que significa: vai, mas rápido.
Enquanto isso, os radialistas se deliciavam. O Cisnei Narcisiano abriu outro programa: — Tema do dia: quando aliados brigam, quem perde mais: o povo ou o poder? A Pomba Aureliano respondeu do estúdio: — O povo perde primeiro, o poder depois. O Foca, rindo: — Mas quem ganha é o Ibope!A Coruja Messias, séria: — A floresta precisa entender: governo rachado é governo cansado.
E lá longe, o Pato da Serra, da oposição, ria de bico aberto: — Se os bonachões da situação já estão se bicando, nós da oposição nem precisamos voar. É só esperar que a fruta caia madura. E a oposição vermelha da Serpente rogeriana, pragmática, completava: — Divide aí que a gente multiplica aqui. O Gov. que se vire com seus aliados estrelados.
Mas o Fabulista, curioso, quis entender os dois. Chamou o Saruê e o Guaxinim à beira do Rio Franciscano. A água corria entre eles, refletindo seus rostos como espelho do destino. — Guaxinim (disse o Fabulista) diga três qualidades do Saruê. O bicho coçou a cabeça: — Sereno, tem ouvido bom e sabe fazer política sem arrebentar. — Saruê (indagou o Fabulista) diga três qualidades do Guaxinim. O outro sorriu: — Organizado, valente e com fome de liderança.
O Fabulista respirou e viu que naquele momento as críticas eram mais leves e civilizadas. O Saruê respirou: — O Guaxinim confunde cuidado com cercado. Liderar não é mandar, é costurar. O Guaxinim rebateu: — E o Saruê confunde paciência com lerdeza. Política é maré, quem demora demais, afunda.
A Pomba Aureliano, que assistia tudo, deu uma gargalhada: — Vocês dois são iguais! Um teme o espelho do outro! A Coruja Messais concluiu: — E enquanto brigam com o espelho, o governo se corta no vidro.
E foi assim, entre risos, raivas e transmissões ao vivo, que o Fabulista terminou a história. Na floresta, dizem que o Saruê e o Guaxinim ainda se falam por educação, não por acordo. Que o Gov. ainda tenta costurar, com a paciência dos que já viram tudo. Mas a bicharada, essa bicharada silenciosa, aprendeu a moral simples, direta, definitiva: Quem cerca demais o próprio território, perde a vista do horizonte. Quem fala alto demais, não escuta o rio. E quem briga em casa, dá banquete à oposição.
E assim termina esta fábula. Ou melhor: termina o capítulo de hoje que levou mais de 5 horas para ser escrita. Porque em Sergipólis, meu caro leitor, toda fábula é só o ensaio da próxima eleição. Agora comentem, curtam e critiquem o Fabulista adormecido que foi acordado pela Pomba Aureliano.




