Há muito tempo a advocacia deixou de ser apenas o templo da razão e passou a ser o laboratório da divisão. A OAB/SE, essa senhora que se autoproclama guardiã da democracia, resolveu inovar: criou o conceito da advocacia segregada. Agora temos cotas de cor, cotas de gênero, cotas ideológicas e, quem sabe no próximo edital do Quinto, cotas espirituais: 20% de advogados reencarnados.
O presidente da seccional sergipana, Daniel Alves, parece ter confundido o papel da Ordem dos Advogados com o de um diretório partidário em pré-campanha. Em vez de unir a classe, resolveu criar “movimentos”, “grupos”, “frentes” e “comissões”, uma espécie de Big Brother Jurídico, onde todo mundo finge estar mudando o mundo, mas no fundo só quer o certificado para pendurar na parede (ou postar no Instagram com a legenda: “Mais uma conquista!”).
Essa é a nova OAB/SE: uma usina de certificados e selfies, onde as comissões produzem menos que reunião de condomínio e discutem mais que assembleia de síndico. Resultado? A advocacia virou um mosaico de facções, cada uma com sua cor, sua bandeira e seu grupinho de WhatsApp exclusivo. Enquanto isso, colegas se atacam nas redes, outros se espionam como se o sucesso alheio fosse crime inafiançável, e a famosa banca de heteroidentificação virou o nosso “tribunal da melanina”, uma espécie de júri popular de tons de pele, onde a sentença depende da luz do ring light.
E aqui entra o ponto que ninguém quer encarar: a OAB, com tanto edital colorido, esqueceu o preto no branco, ou melhor, virou o uísque “Black & White” da prateleira institucional. Um blend confuso de intenções, onde ninguém sabe se está bebendo inclusão ou vaidade. O presidente Daniel, com seu jeito diplomático de síndico da advocacia, parece ter inventado a “Cota de Ego”: ilimitada, intransferível e vitalícia.
A polêmica em torno do advogado Matheus Chagas, que concorre ao Quinto Constitucional como cotista racial, é apenas o sintoma mais visível da doença. O homem se declarou pardo, o que, até ontem, era um direito de autodeclaração reconhecido até por tribunais. Mas bastou isso para que metade da advocacia virasse antropóloga de plantão, e a outra metade, inquisidora da cor alheia.
Esse Quinto de Sergipe virou o país do espelho: todo mundo quer medir o tom da pele do outro, enquanto esquece o conteúdo da cabeça. É curioso: quando uma pessoa trans se reconhece mulher, todos dizem que ela deve entrar no banheiro feminino e quem ousa questionar é taxado de intolerante. Mas quando um advogado se reconhece pardo, ele é submetido a exame laboratorial de melanina e suspeita pública. Que lógica é essa, OAB/SE?
O que é aceitável para o banheiro parece inaceitável para o plenário. A diferença é que, na OAB/SE, o espelho virou instrumento de aferição política e o reflexo depende da coligação. Há tempos, a instituição que deveria unir a advocacia virou um coquetel de contradições. Metade se diz “Black”, a outra “White”, e no fundo ninguém sabe mais o que é. É o uísque institucional mais confuso da história: OAB Black & White, servido em copo de cristal, mas com gosto de hipocrisia.
A Ordem esqueceu o básico: todos os advogados são iguais perante a Constituição, a lei e o Estatuto da Advocacia. Cursaram as mesmas faculdades, enfrentaram o mesmo inferno do exame da Ordem, pagam as mesmas anuidades, mas agora são separados por pigmento, gênero, credo e ideologia, como se a OAB tivesse virado uma escola de samba dividida por alas.
Criaram-se partidos dentro da advocacia. E o maior culpado por essa partidarização é a falta de senso de condução do presidente, que parece dirigir a instituição com o GPS do ego e o freio de mão da vaidade. Enquanto isso, o debate jurídico agoniza numa maca e o discurso identitário toma o plenário, com direito a plateia, ring light e hashtag. A Ordem, que deveria ser uma ponte entre o Direito e a Justiça, virou um muro e do tipo mal rebocado e sem engenheiro responsável.
O Judiciário nos observa de longe, rindo como quem assiste a uma comédia pastelão: — “Olha lá eles (advogados) brincando de eleição.” E nós, no meio da peça, brigamos por curtidas, selos e cargos que mais parecem cadeiras de vereador do que vagas no Quinto Constitucional. Nos corredores do Tribunal, desembargadores e procuradores já tiram onda. A advocacia, outrora respeitada, virou piada de happy hour jurídico.
Hoje mesmo, vi um colega postar nas redes sociais uma foto com o paletó coberto de bottons do seu candidato, com a legenda: “Sabe em quem eu vou votar?” Meu Deus… isso não é campanha, é Pré-Caju Jurídico! É o Bloco das Cajuranas da Advocacia! O Quinto Constitucional virou micareta jurídica, com abadá, trio elétrico e egos no volume máximo. Fabiano Oliveira que se cuide!
Brincar com o Quinto Constitucional é brincar com a própria dignidade da classe. A diferença é que, no nosso caso, o ingresso é caro e o espetáculo, infelizmente, é trágico com trilha sonora de comédia. O Brasil parece ter se especializado em dividir o indivisível, e Sergipe não fica pra trás. Hoje temos minorias de cor, minorias religiosas, minorias políticas, minorias de gênero e até minorias que se declaram “neutras”. Cada uma com seu microfone, sua bandeira e sua militância própria. O resultado? Um país que, de tão fragmentado, já não consegue discutir nada em conjunto.
O problema não é defender direitos, é usar identidades como moeda de poder. E é exatamente isso que se vê hoje na Ordem: causas legítimas transformadas em bandeiras eleitorais. A cota racial, que nasceu para corrigir injustiças históricas, virou arma de guerra política. E no meio do tiroteio, está Matheus Chagas, alvejado por movimentos que só reconhecem o “negro de carteirinha”, aquele que desfila em ato, mas não o que simplesmente se declara.
Era uma conquista simbólica e necessária, e é agora que vem a parte mais grave. O grupo originalmente criado para garantir representatividade real, o chamado Quinto Negro, acabou sendo pressionado por pessoas ligadas à atual gestão do presidente Daniel Costa. A ideia inicial era simples: a advogada Carla Carol seria a representante negra apoiada pelo movimento, dentro dos critérios definidos desde o início. Mas nos bastidores, aliados de Matheus Chagas começaram a interferir. A pressão foi para que o nome dele também entrasse como candidato pelas cotas raciais, sustentando que ele se enquadraria como pardo. Isso gerou desconforto entre os próprios integrantes do Quinto Negro, porque a manobra descaracteriza completamente a proposta original. A denúncia que circula entre os advogados é que tudo isso teria sido orquestrado com o aval político da atual gestão da OAB de Sergipe, transformando a cota racial em atalho eleitoral, um passaporte diplomático para que aliados do poder pudessem desfilar no tapete vermelho do Quinto Constitucional.
O movimento que deveria abraçar a diversidade, agora faz o papel de fiscal da melanina, medindo quem é “negro o bastante” para merecer o voto, como se houvesse uma tabela Pantone da Negritude pendurada na parede da OAB. A luta contra o racismo, que deveria ser nobre, virou uma competição cromática de gabinete, onde cada um escolhe a cor que mais combina com sua conveniência política.
E, ironicamente, no meio desse palco identitário, surge Matheus Chagas, o advogado que ousou ser pardo num país que quer definir o tom da pele por edital. Uns o chamam de oportunista, outros o veem como vítima do racismo reverso institucionalizado. No fim, ninguém sabe se ele é culpado de algo, mas todo mundo já se sente no direito de julgá-lo.
O presidente Daniel Costa, por sua vez, é aquele maestro que rege a orquestra com a batuta de selfie: cada gesto seu produz mais curtidas do que acordes. Uns dizem que ele quis modernizar a OAB; outros garantem que ele apenas a transformou num reality show jurídico com sabor de intriga.
A ironia é que, no final, o leitor é quem precisa decidir o que é certo, errado, justo ou conveniente. Porque, quando até a cor da pele vira objeto de julgamento público, talvez a verdadeira cota necessária seja a de bom senso, com validade eterna e distribuição gratuita, especialmente na sede da OAB.





Uma resposta
Nossa texto reflete tanta coisa que vemos hoje um dia! Muito bom!