PUBLICIDADE

Sabatina da OAB/SE

A Ordem dos Advogados do Brasil tem um talento peculiar para reinventar a roda quando ninguém sequer pediu uma bicicleta nova. O processo do Quinto Constitucional mal tinha saído da UTI institucional, depois de um ano inteiro de idas, vindas, suspensões, retornos, reuniões exaustivas e aquela confusão clássica sobre quem escolhe quem, quando, como e por quê, e eis que, como num passe de mágica administrativa, surge uma sabatina relâmpago inventada praticamente na véspera da eleição. Menos de 24 horas antes. E com hora marcada: amanhã, às 17h, na sede da CAASE, como se fosse um evento planejado com meses de antecedência. É como se a presidência tivesse uma epifania súbita: “e se a gente criasse um evento solene agora, do nada, sem ninguém esperar?” O tipo de ideia que aparece quando alguém toma um café muito forte ou decide que o processo eleitoral precisa de adrenalina cinematográfica. Não estava no edital, não estava no calendário, não estava no mapa, mas estava no entusiasmo do presidente-inventor, que conseguiu dar a esse improviso toda a pompa de uma cerimônia que, claramente, não teve tempo nem de esquentar no forno.

A sabatina veio com regras tão específicas que mais parecia ritual de iniciação: silêncio absoluto, convidados limitados, nada de aplausos, nada de torcida, nada de espontaneidade. Cada candidato com direito a apenas oito testemunhas humanas, todas com semblante de missa silenciosa sendo transmitida ao vivo. E sim, transmitida ao vivo no YouTube, porque uma sabatina improvisada não estaria completa sem a promessa de virar corte de vídeo, trechinho viral, recorte conveniente ou meme jurídico. Não por acaso, muitos candidatos preferiam um debate real, debate de verdade, com perguntas cruzadas, respostas afiadas e ideias sendo testadas no calor da hora. Mas, claro, um debate toma tempo, exige preparo e, principalmente, permite que surjam opiniões, um risco incompatível com a estética coreografada da sabatina-relâmpago das 17h.

E como se não bastasse o suspense criado ao redor do evento, há a cereja digital no bolo institucional: a votação virtual. Um sistema tão moderno que só ele sabe quem votou, quem não votou, quem talvez vote, quem tentou entrar três vezes porque esqueceu a senha e quem decidiu não se envolver com a tecnologia do além. O algoritmo sabe tudo. A classe, coitada, não sabe nada. Uma eleição que deveria ser o auge da transparência virou algo tão opaco quanto votação de condomínio. Antigamente havia urnas físicas, fiscais, presença humana, aquela sensação acolhedora de que o voto existia porque você o colocou lá dentro. Hoje, o voto é um ato espiritual, uma profissão de fé digital. Não porque o sistema seja necessariamente inseguro, mas porque ninguém vê. E onde ninguém vê, todo mundo suspeita. Para completar, há o velho problema dos grandes escritórios, onde um sócio com dois ou três dedos de autoridade pode “sugerir” votos de forma tão elegante quanto obrigatória. Há quem empreste senha, há quem vote pelo colega, há quem não queira briga. Uma eleição digital, assim, acaba abrindo espaço não para fraude, mas para dúvida, e dúvida, em eleição, pesa quase tanto quanto o voto.

Voltando à sabatina, o espetáculo seria cômico se não fosse tão sério. Os candidatos receberam termos de compromisso singulares, quase sigilosos, como convites para uma confraria. Dos 26 nomes, apenas 17 aceitaram se submeter ao show das 17h de hoje. Os outros, mais prudentes, concluíram que não valia a pena arriscar-se a virar clipe de YouTube em horário nobre. Afinal, em tempos de eleição, nada é mais perigoso do que uma resposta espontânea transmitida ao vivo. A espontaneidade, neste caso, foi banida com a mesma eficiência de quem proíbe celular em prova do Enem.

A coisa fica ainda mais saborosa quando se observa a divisão da classe. O processo eleitoral criou não apenas divergências, mas facções dignas de novela química. Os famosos “halogênios”, dezoito advogados divididos em grupos que não se misturam com ninguém, exceto entre eles mesmos. Uma tabela periódica viva, reativa, instável, brilhante quando provocada. E do outro lado, os independentes, aqueles que ainda acreditam no corpo a corpo, no cafezinho, no aperto de mão, no sorriso tímido. Um contraste tão grande que daria para montar um documentário.

Enquanto isso, a Ordem se movimenta como quem tenta arrumar a casa durante um terremoto. Cada decisão abre uma brecha. Cada alternativa cria uma dúvida. Cada gesto reorganiza a classe em direções inesperadas. A sabatina, que deveria esclarecer, confundiu. A votação virtual, que deveria modernizar, inquietou. O processo, que deveria pacificar, fragmentou. E o resultado é um clima generalizado de incerteza. Incerteza engraçada, vale dizer porque não existe tragicomédia mais perfeita do que uma instituição tentando mostrar força justamente no momento em que revela fragilidade.

No fim, ninguém sabe exatamente quem ganha com tudo isso. Talvez ninguém. Talvez alguém. Talvez o algoritmo. Talvez o YouTube das 17h. Talvez a fotografia oficial da Ordem, sempre ansiosa por novos registros. A única certeza é que a eleição virou menos uma escolha e mais uma interpretação. Menos um processo e mais uma narrativa. Menos um evento jurídico e mais um capítulo teatral da novela infinita que é o Quinto Constitucional.

Se é trágico? Um pouco. Se é cômico? Bastante. Se é uma mistura irresistível dos dois? Com toda certeza. E como toda boa história criada às pressas, termina com a plateia se perguntando: “Isso foi genial, foi improviso… ou foi só mais um daqueles dias normais por aqui?”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *