A Universidade Federal de Sergipe (UFS) aprovou, sem oposição, a criação de cotas afirmativas para pessoas trans e travestis em todos os cursos presenciais de graduação. A decisão histórica — anunciada na segunda-feira, 17 de novembro — passa a valer a partir do período letivo 2026.1, com vagas já oferecidas nos vestibulares de 2025. Mas o que realmente está em jogo? Avanço, reparação ou mais um gesto que esbarra na realidade cruel do Brasil?
📌 O que foi aprovado?
De forma objetiva: uma vaga extra por curso, por turno, exclusivamente para pessoas trans. Isso não mexe no total de vagas já previstas — são chamadas de vagas supranumerárias. Ou seja, ninguém “perde” espaço, mas quem sempre foi excluído agora ganha, no mínimo, uma chance.
Segundo a professora Terezinha Leite, relatora do parecer aprovado pelo Conepe/UFS, o modelo respeita as cotas raciais, indígenas, para pessoas com deficiência e quilombolas já existentes. Nada sai do lugar. Apenas se soma.
🚪 Ingresso é só a primeira porta
Agora, vale o alerta: entrar não é o mesmo que permanecer. A própria vice-reitora da UFS, Silvana Bretas, reconheceu isso: “Estamos implementando políticas para garantir permanência desses estudantes”. Uma promessa que, esperamos, vire realidade com recursos, estrutura e suporte psicológico.
A UFS já conta com o programa AfirmaSUS, voltado a estudantes cotistas, e trabalha na criação de uma Pró-Reitoria de Ações Afirmativas — uma sinalização de que não basta aplaudir no dia da aprovação. É preciso manter a porta aberta até a formatura.
🧨 O Brasil que expulsa antes do vestibular
Vamos encarar os números: menos de 0,3% das pessoas trans no Brasil estão no ensino superior. A expectativa de vida gira em 35 anos — metade da média nacional. Cerca de 90% estão na prostituição, segundo dados da ANTRA e declarações da deputada Linda Brasil (PSOL), que foi aluna da própria UFS e hoje ocupa a Assembleia Legislativa de Sergipe.
Ela crava: “Não é privilégio, é justiça social.” E tem razão. Quem acha que cotas são regalias, precisa parar de confundir ponto de partida com linha de chegada.
📚 Diversidade também é produção de conhecimento
A pró-reitora de Graduação, Marta Élid Amorim Mateus, defende que a presença trans no meio universitário não é só questão de identidade, mas de renovação do próprio saber. “É um avanço. A gente traz pluralidade para a universidade”, disse.
E isso importa. Porque não há neutralidade acadêmica quando as salas são formadas só por quem já foi aceito pelo sistema.
📍UFS entra para lista de pioneiras
Com a decisão, a UFS se junta a pelo menos 30 universidades federais que já adotaram cotas trans, como UFSB, UFBA, UnB, UFRJ, UFSC, UFABC, entre outras. Uma tendência crescente — e necessária — para enfrentar a transfobia estrutural que começa na infância e culmina na evasão escolar.
Essa conquista em Sergipe só veio graças à pressão da Frente por Cotas Trans e Travestis na UFS, além do diálogo direto com a reitoria e apoio de coletivos sociais e estudantis.
🤔 O debate que não pode parar
A pergunta que fica: uma vaga por curso basta? É o suficiente para reparar anos — ou melhor, séculos — de exclusão sistemática?
A resposta talvez não seja binária. Mas é inegável que a medida abre uma rachadura em um muro que parecia intransponível. Que essa brecha vire passagem. Que essa vaga vire voz. E que a UFS não pare por aí.
E você, o que acha?
A criação de cotas trans é uma medida justa ou simbólica demais? Concorda que isso representa um avanço real ou falta ousadia? Comente, compartilhe e continue o debate no Portal Fausto Leite.
Fontes Principais:
G1, UFS, ANTRA, Carta Capital, F5News, Agência Brasil, Linda Brasil




