PUBLICIDADE

Medicina em queda livre: muito diploma, pouca competência

A medicina brasileira vive uma transformação profunda e perigosamente silenciosa. Um curso que já foi sinônimo de vocação, disciplina e quase um chamado espiritual virou, aos poucos, um grande negócio de varejo educacional. Se antes ser médico era destino de quem realmente tinha o dom de ouvir, enxergar, interpretar e cuidar, hoje virou uma escolha quase automática: faz medicina quem quer status, faz medicina quem quer dinheiro, faz medicina quem vê o jaleco como investimento e não como responsabilidade. Entre 2010 e 2023, o Brasil saltou de 180 para mais de 370 escolas médicas, como quem abre franquia de fast-food em cada esquina. A promessa era democratizar o acesso; o efeito foi democratizar a mediocridade. Multiplicamos faculdades precárias, sem hospitais-escola, sem estrutura mínima, sem preceptores qualificados. Resultado? Formamos mais de 50 mil médicos por ano, mas uma parcela assustadora deles chega ao mercado sem residência, sem preparo prático, sem domínio clínico e, em muitos casos, sem vocação alguma.

É a nova era do “faço medicina porque dá dinheiro”, como se a vida real fosse um comercial motivacional. O problema é que saúde não é palco para improviso. Segundo o MEC, quase 30% das vagas de residência médica estão ociosas, não por falta de médicos, mas por falta de condições dignas: bolsas defasadas, sobrecarga desumana e programas sucateados afastam jovens que já chegam exaustos de um curso mal estruturado. A AMB mostra que apenas 27% dos médicos completam residência, etapa fundamental para consolidar o raciocínio clínico e garantir segurança assistencial. Os outros 73% chegam ao mercado com lacunas tão grandes que tentam compensar insegurança com excesso: pedem tomografia para dor de cabeça, ressonância para lombalgia, bateria de exames para qualquer sintoma que os assuste e assusta quase tudo. Isso custa caro, prolonga internações, sobrecarrega o SUS e, pior, aumenta o risco de iatrogenia. Pesquisas apontam que 83% dos erros médicos seriam evitáveis com melhor capacitação. A OMS estima que 10% dos pacientes sofrem danos durante o atendimento e que 3 milhões de mortes por ano, em todo o mundo, poderiam ser evitadas com práticas seguras.

Mas quem disse que estamos falando apenas de dados? Basta abrir qualquer rede social para encontrar denúncias de erros grotescos, pacientes tratados como números, vídeos de atendimentos que viralizam pelo absurdo, médicos gravando conteúdo durante consultas, estudantes fazendo dancinha em centro cirúrgico, profissionais oferecendo procedimentos irreais como se fossem filtros de Instagram. É o colapso da vocação travestido de modernidade. O problema não é a medicina ter evoluído, é parte da classe ter regredido. Não se forma médico pelo jaleco; forma-se pela responsabilidade, pelo raciocínio, pela ética. E quando isso falta, sobra marketing. O Conselho Federal de Medicina, os Conselhos Regionais e o Ministério da Educação assistem a esse cenário como quem vê tempestade chegando e finge que é só garoa. O país está produzindo médicos em série, sem filtro, sem supervisão, sem cobrança rigorosa. E a sociedade brasileira paga a conta: na demora, no erro, na insegurança, no trauma.

A verdade incômoda é que a medicina não perdeu valor, perdeu filtro. O diploma já não garante competência; é apenas o início de uma estrada que muitos não concluirão com excelência porque nunca tiveram formação robusta. Formar mal é gastar duas vezes: primeiro com o aluno, depois com a vítima. E se os Conselhos, universidades e autoridades continuarem empurrando a crise com a barriga, a medicina brasileira entrará numa espiral irreversível de desconfiança, banalização e tragédia. A vocação está desaparecendo, o preparo está enfraquecendo e a responsabilidade está ficando pelo caminho, substituída por pressa, vaidade e atalhos. Sem intervenção séria, ética e estrutural, em breve ir ao médico deixará de ser sinônimo de cuidado e passará a ser um exercício de fé. Porque, do jeito que estamos indo, escolher um profissional será quase como jogar roleta-russa: torcer para cair no CRM certo.

Uma resposta

  1. Maravilhosa explicação da realidade dos fatos, em que vivenciamos nos tempos atuais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *