O Brasil viveu, nesta semana, um daqueles capítulos que pedem menos grito e mais respiração profunda. A derrubada dos vetos à Lei Geral do Licenciamento Ambiental reacendeu um debate urgente, e legítimo, sobre até onde podemos avançar no desenvolvimento econômico sem transformar o meio ambiente em dano colateral. Não se trata de demonizar o Congresso, tampouco negar que o país precisa destravar obras, ampliar infraestrutura e fortalecer sua economia. Mas, como todo jardineiro sabe, até a árvore mais frondosa começa na mesma base: uma muda pequena, um punhado de terra e paciência diária. E o que faltou, talvez, foi justamente isso: paciência.
Sim, o Brasil precisa modernizar seu modelo de licenciamento. Sim, há burocracias que mais atrapalham do que protegem. Sim, há empreendimentos que esperam anos por análises que poderiam ser resolvidas em meses. Mas reformar o sistema ambiental não é trocar a terra viva por concreto, nem substituir a sombra da floresta por um canteiro apressado. É trabalho de regador, não de motoniveladora. E mudanças assim, quando feitas de uma vez, trazem o risco de um jardineiro ansioso: ao tentar podar demais, acaba machucando o tronco.
A nova lei avança em alguns pontos, é verdade. Mas avança como quem acelera carro potente em estrada molhada: pode até chegar mais rápido… ou pode derrapar feio. Muitos Estados e Municípios ainda não têm corpo técnico, equipe especializada ou independência suficiente para assumir tamanha responsabilidade. Licenciamento não é papel passado, é ciência, método, prevenção. Basta lembrar que água cristalina não nasce por decreto: nasce da nascente, atravessa a terra devagar, purifica-se no caminho e só então chega segura ao rio que alimenta a cidade.
E nesse cenário, é preciso reconhecer um ponto delicado: a posição do senador Alessandro Vieira, que votou pela derrubada dos vetos, gerou perplexidade não apenas entre especialistas, mas entre aqueles que esperam coerência de quem sempre se apresentou como defensor da técnica e do equilíbrio. Não se trata de apontar o dedo, mas de lembrar que decisões tão profundas exigem o mesmo cuidado que se tem ao plantar uma árvore: escolher o terreno certo, avaliar a estação ideal, medir a luz e a sombra. Quando se faz tudo às pressas, o risco é que a muda não vingue. A política ambiental também é assim: requer constância, coerência e, sobretudo, tempo.
O Congresso não errou por querer desenvolvimento; errou por tentar fazer isso de uma vez, como quem planta um pé de manga hoje esperando colher amanhã. E meio ambiente não funciona assim. Primeiro se planta. Depois se rega. Depois se protege do sol forte. Só então vira árvore. Só então dá fruto. A proteção ambiental também deveria seguir esse ciclo simples: ajustar, testar, corrigir, nunca desmontar tudo de uma vez. Uma política pública bem-feita costuma ser como um bom pomar: leva tempo, cuidado e, claro, um pouco de humor para lidar com as surpresas da natureza porque até a chuva muda de ideia de vez em quando.
E há um ponto crucial para que essa nova etapa funcione minimamente bem: os órgãos ambientais, IBAMA, ADEMA e as secretarias municipais, precisam ser conduzidos por técnicos capazes de unir essas mudanças à proteção ambiental, e não por figuras colocadas apenas por conveniência política. O momento exige gestores que entendam de legislação, de ecossistemas, de licenciamento e, principalmente, de como traduzir a nova lei em prática responsável. Não basta ocupar cadeira; é preciso ocupar função. Só com profissionais que dominem técnica e sensibilidade ambiental será possível evitar que a atual transição vire um salto no escuro.
É evidente que o país precisa de obras, de energia, de estradas, de emprego e de investimento. Mas o país também precisa de água, de ar puro, de biomas vivos e de segurança climática. A economia não sobrevive sem o meio ambiente e o meio ambiente não prospera sem uma economia sustentável. O ideal, portanto, não é escolher entre um e outro, e sim fazer os dois caminharem na mesma trilha, como galhos diferentes do mesmo tronco.
Os vetos poderiam ter sido ajustados aos poucos, com revisões graduais, debates mais amplos e atenção às condições reais de cada ente federativo. Uma dose homeopática aqui, outra ali. Uma correção técnica hoje, outra amanhã. Assim se constroem políticas sólidas, como se cultiva uma árvore que crescerá por décadas.
Ainda dá tempo de corrigir o curso. A lei pode ser aperfeiçoada, regulamentada com cuidado e aplicada com responsabilidade. O IBAMA, a ADEMA e os órgãos municipais continuarão sendo peças fundamentais para garantir que o desenvolvimento não vire devastação. Nada disso é incompatível com progresso, incompatível mesmo é acreditar que avanço se faz com pressa, e não com planejamento.
O Brasil precisa sim de crescimento. Precisa sim de infraestrutura. Mas também precisa, e muito, de sabedoria. Afinal, no jardim das nações, colhe melhor quem planta com calma e quem entende que até a maior árvore do mundo começou como um grão minúsculo de responsabilidade.




