A declaração de Gilberto Kassab teve efeito de terremoto silencioso sobre a política sergipana. Ao afirmar que o PSD seguirá integralmente Tarcísio de Freitas, seja na reeleição em São Paulo, seja numa eventual candidatura presidencial, Kassab retirou qualquer margem de manobra do governador Fábio Mitidieri. A mensagem é seca e irrecorrível: se Tarcísio disputar a Presidência, o PSD, inclusive o PSD de Sergipe, terá que apoiá-lo. E, a partir dessa lógica, o que parecia apenas uma frase protocolar ganhou contornos devastadores para a engenharia política local, porque significa que Fábio Mitidieri, eleito sob a sombra do lulismo, não poderá oferecer palanque a Lula em 2026. O resultado é imediato: o PT perde o espaço que acreditava ter conquistado por antecipação e, sem acesso à chapa governista, fica obrigado a lançar candidato próprio para não desaparecer do mapa político do Estado. O que antes era hipótese virou necessidade.
Enquanto isso, Tarcísio de Freitas, que nunca pediu nada a Sergipe, terá dois palanques simultâneos no Estado, algo inédito na política recente. De um lado, o palanque da oposição, agora reorganizado sob a condução de Edvan Amorim, acompanhado de Valmir de Francisquinho e Emília Corrêa, que transformaram os Republicanos na principal estrutura conservadora de Sergipe. Ali está o palanque ideológico, alinhado com clareza ao projeto nacional de Tarcísio. Do outro lado, o palanque governista, obrigado pela verticalização do PSD a seguir o mesmo caminho. Com isso, Fábio ficará na desconfortável posição de apoiar um candidato presidencial que não é o preferido de sua base histórica, exibindo uma contradição que deve custar caro no discurso eleitoral. Não haverá zona de conforto. Não haverá meio-termo. A política nacional encurralou a engenharia estadual.
Diante desse cenário, o PT se move. As conversas existem, circulam e já produzem esboços. Edvaldo Nogueira admite diálogos com João Daniel, Márcio Macêdo e Eliane Aquino; fala em reencontros, afinidades, memórias; lembra a história de Marcelo Déda como ponto de conexão emocional. Falta apenas uma conversa com Rogério Carvalho, que, sendo Rogério, só entra em jogo para discutir de forma absoluta. Mas a equação, hoje, aponta para uma composição forte: Edvaldo governador e Eliane vice. Uma chapa com densidade histórica e apelo social suficiente para reagrupar a esquerda e oferecer o palanque que Lula precisará ter em Sergipe.
Assim, o Estado se aproxima de uma configuração incomum: Tarcísio com dois palanques, Lula com um, e o governador sem um caminho ideológico claro. Ele será empurrado a uma contradição permanente e contradição, na política, cobra juros altos. Quanto à oposição, ganha robustez com a reorganização dos Republicanos e com a força eleitoral potencial de nomes como Valmir ou Eduardo Amorim, este último recolocado no centro do debate como alternativa sólida para governo ou Senado. Tudo isso converge para uma constatação inequívoca: Sergipe entrou, de fato, em um novo patamar político, com três campos fortes disputando o mesmo território e sem qualquer garantia de estabilidade para o governo. O que Kassab disse em Brasília pode ter reescrito a lógica eleitoral do Estado. E, goste ou não, essa reescrita não tem volta.




