Sergipe entrou oficialmente no modo economia de água, aquele em que a torneira vira item de decoração e o banho passa a ser planejado como operação tática. Quem resolveu dizer isso em voz alta foi o advogado Clóvis Barbosa, ex-conselheiro do Tribunal de Contas, num desabafo que mistura indignação, ironia e a pergunta que todo sergipano faz olhando para a pia seca: até quando?
Segundo Clóvis Barbosa, o povo de Aracaju foi “sentenciado” a passar três dias sem água, não por catástrofe natural, não por colapso histórico, mas pela explicação mais preguiçosa do serviço público moderno: “interrupção para manutenção”. É a frase que resolve tudo e não explica nada. A água some, a nota aparece e a vida que se vire.
O mais curioso é a reação da população. Fecha a torneira, pega o balde, escolhe se lava o prato ou o corpo e segue. Não é tranquilidade, é esgotamento. É o cansaço de quem já sabe que reclamar dá trabalho e resposta vem pronta, padrão, genérica.
Nos últimos seis meses, a falta d’água deixou de ser exceção e virou rotina. Está nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp e nas conversas de esquina. A água falta, mas o assunto jorra.
Para completar o pacote, este mês a maioria dos sergipanos levou um susto na conta. Mesmo com torneira seca, a fatura veio cheia, turbinada pelo novo papel da Iguá. Água faltando, cobrança aumentando. Uma combinação que não fecha nem em matemática criativa. É exatamente aqui que o Ministério Público precisa entrar em campo, investigar critérios, cobranças, reajustes e a lógica de pagar mais por receber menos.
Antes, quando a Deso era estatal, a culpa era da obra, do sistema, da transição. Agora, com a Iguá, a culpa roda em círculo. O povo culpa a empresa, culpa o governo, culpa quem vendeu, culpa quem comprou e continua tomando banho de caneca.
Clóvis Barbosa lembra o óbvio que virou exceção: água é bem público, é direito básico, é vida. Não é favor, não é luxo e não deveria ser tratada como serviço instável em pleno tempo de inteligência artificial, tecnologia avançada e discurso de eficiência.
No fim, o maior perigo não é a falta d’água. É a normalização do absurdo. Quando o povo começa a achar aceitável pagar mais e receber menos do básico, o problema já não está só na tubulação. Está na gestão, na fiscalização e no respeito.




