Capela não é quintal. E a história não aceita pichação narcisista. Hoje eu saio um pouco da trincheira estadual, mas não da política. Porque política não mora só em Brasília, nem apenas em Sergipe, muito menos restrita aos gabinetes. Às vezes ela resolve aparecer em uma parede recém-reformada, em letras grandes, como quem grita para compensar o silêncio da consciência.
Circulou nas redes sociais um vídeo em que Manoel Messias Sukita Santos, o Sukita, resolveu eternizar em alvenaria a própria opinião: “Aqui mora Sukita, o melhor prefeito da história de Capela”. Não é marketing. É autoelogio. Não é memória. É provocação. Não é vaidade. É delírio com reboco. Capela é uma cidade com quase três séculos de história. Nasceu da fé, cresceu com trabalho, resistiu ao cangaço, sobreviveu ao fim das usinas, construiu identidade cultural, lendas, festas e dignidade. Lampião passou por lá duas vezes. Na segunda, saiu correndo. Disse que até os santos atiravam. Hoje, ironicamente, tem quem atire contra a própria memória do município com tinta e ego.
Capela sempre produziu grandeza sem precisar de cargo eletivo. Produziu gente. Produziu referências. Antônio Correia Matos, o Correia, advogado brilhante, figura humana rara, respeitada, lembrada com afeto e caráter. Anselmo Oliveira, juiz, professor, intelectual, referência nacional, desses que engrandecem a cidade só por existirem. José Arimatéa Júnior, médico exemplar, profissional que honra Capela pelo serviço prestado à saúde e pela postura ética. José Carlos Santos, cardiologista reconhecido, cuja trajetória ultrapassa consultórios e se confunde com o cuidado direto à população. Fernando Macedo, que exerceu a magistratura com sobriedade e respeito, deixando marca de seriedade.Purinha, Maria da Purificação, advogada conhecida, respeitada, referência na advocacia local. Eduardo Ribeiro, grande advogado, reconhecido no Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe, nome que impõe respeito pela técnica e pela conduta. Isabel Cristina Santos, pedagoga, educadora, formadora de gerações, símbolo de compromisso com o futuro da cidade. São biografias que não cabem em um muro, mas sustentam uma cidade inteira.
Comparar isso com a frase cravada na casa de Sukita não é debate político. É constrangimento histórico. Porque enquanto a parede diz “o melhor prefeito da história”, os autos dizem outra coisa. O Tribunal Regional Federal da 5ª Região manteve a condenação de Sukita por lavagem de dinheiro. Nove anos, quatro meses e quinze dias de prisão, em regime fechado. Mais de R$ 12,8 milhões movimentados de forma irregular entre 2007 e 2012. Saques fracionados. Empresas familiares. Relatórios da Polícia Federal. Documentos da Controladoria-Geral da União. Não é fofoca. É sentença. A Justiça não escreve em letreiro, escreve em acórdão.
A irmã condenada. A ex-esposa parcialmente condenada. O ex-secretário de Finanças condenado. Um esquema inteiro desenhado não por adversários políticos, mas por laudos técnicos, provas documentais e decisões judiciais. E mesmo assim, alguém acha razoável se autoproclamar “o melhor da história”.
É aqui que o episódio deixa de ser apenas ridículo e passa a ser ofensivo. Não a opositores. Ao povo de Capela. À inteligência média. À memória coletiva. Capela não é cenário para stand-up involuntário. É um município com quase 34 mil habitantes, com história, cultura, dor, festa e orgulho. Não merece ser reduzida a um outdoor de autoexaltação de alguém que ainda responde à Justiça e cujo legado administrativo é, no mínimo, controverso e, no máximo, judicializado.
O povo de Capela não é figurante de rede social. Não é plateia cativa de provocação barata. Tem o direito de repudiar esse tipo de afronta simbólica. Porque história não se escreve em muro. E reputação não se constrói com cimento, mas com conduta. Se a intenção era chamar atenção, funcionou. Sempre funciona. O narcisismo político é barulhento. Mas barulho não é grandeza. E letreiro não é legado. Capela merece mais do que isso. Merece respeito.




