Os Correios sempre foram aquela presença inevitável do Brasil. Você pode até não amar. Mas sabe que existem. É a agência no centro da cidade, a encomenda do interior, o carteiro que aparece como se fosse personagem fixo da vida real. Pois bem. O governo Lula conseguiu transformar essa velha instituição numa mistura de teatro musical com filme de desastre. Tem luz, tem palco, tem patrocínio, tem slogan. E tem greve, prejuízo e trabalhador olhando para o décimo terceiro como quem olha para uma miragem no asfalto quente.
Comecemos pelo que dói, porque é mais honesto. No governo Bolsonaro, os Correios tiveram um ciclo de lucros até 2021. Em 2019, lucro. Em 2020, lucro de R$ 1,53 bilhão. Em 2021, lucro líquido na casa de R$ 2,2 bilhões, com aquela discussão típica de contabilidade brasileira, onde alguns chamam uma coisa de lucro recorrente para parecer ainda mais bonito. Em 2022, sim, veio prejuízo, por volta de R$ 767 milhões a R$ 808 milhões, dependendo do recorte contábil. Isso é importante porque mata duas mentiras com uma pedra. A primeira é a mentira de que estava tudo perfeito antes. Não estava. A segunda é a mentira de que está tudo ruim agora apenas por herança. Porque herança explica problema, não explica escalada.
Com Lula, o vermelho virou rotina e ainda ganhou turbo. Em 2023, prejuízo de R$ 597 milhões. Em 2024, prejuízo de R$ 2,6 bilhões. Em 2025, prejuízo acumulado de R$ 6,1 bilhões até setembro. Isto não é um tropeço. É uma trajetória. É o tipo de curva que, se fosse carro, já estava batendo no guard rail faz tempo. Aí entra a parte que faz o Brasil rir para não chorar. No meio dessa crise, os Correios decidiram virar mecenas. Patrocinaram Lollapalooza. Seis milhões de reais para colocar a marca no festival. Patrocinaram a turnê Tempo Rei de Gilberto Gil. Quatro milhões de reais. E, segundo levantamento publicado, já foram R$ 38,4 milhões em patrocínios no terceiro governo Lula, com 2024 concentrando R$ 33,8 milhões desse total.
É aqui que a piada fica pronta sozinha. A estatal que cambaleia para pagar conta básica encontra fôlego para pagar camarote. A empresa que precisa de reestruturação urgente acha que a solução é colar o logo no palco. O carteiro não quer backstage. Quer salário. Quer previsibilidade. Quer gestão. Mas recebe branding.
E quando a crise aperta, aparece o ministro da Fazenda com uma frase que virou combustível de redes sociais. Haddad argumenta que os Correios têm um problema estrutural porque os concorrentes não têm obrigação de entregar cartas e só fazem o que dá lucro. A lógica, em tese, até existe. O problema é que, no Brasil, usar isso como explicação em meio a prejuízo bilionário soa como justificar enchente dizendo que choveu. Sim, choveu. E daí. A pergunta é por que o telhado caiu, por que o ralo entupiu e por que alguém gastou com letreiro luminoso em vez de consertar a calha.
Lula, por sua vez, corre para o microfone e diz que não vai privatizar. Diz que quer a empresa sarada, produtiva, de pé. Diz que empresa pública não pode ser rainha do prejuízo. Bonito. Mas o carteiro não se alimenta de metáfora. Se alimentar, a categoria já estava obesa de discurso há décadas. No fim, a gestão atual criou um símbolo involuntário do próprio governo. Uma máquina de comunicação forte e uma máquina de operação fraca. Uma obsessão por narrativa e uma dificuldade crônica com resultado. A marca vai bem nas fotos. O serviço vai mal no balcão. A estatal vira tema de meme. E a população vira refém da logística capenga.
O país não precisa escolher entre privatizar por impulso nem estatizar por devoção ideológica. Precisa exigir o mínimo civilizatório: gestão responsável e sem cinismo. Empresa pública não vive de fé nem de marketing, vive de caixa, operação e respeito ao trabalhador. Primeiro paga salário. Depois garante que o serviço funcione. Só então, se sobrar dinheiro e sobrar juízo, patrocina o que quiser. Inverter essa lógica é promover festa com verba pública enquanto o prédio pega fogo, colocar Gilberto Gil cantando Andar com Fé no palco patrocinado e dizer ao carteiro que também é só ter fé que o décimo terceiro chega.




