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Editorial – Propriá: quando a piranha faz espuma e o pacu faz política no fundo do rio

No Baixo São Francisco, política nunca foi natação sincronizada. Aqui é água barrenta, corrente traiçoeira e peixe que nada demais vira notícia antes de virar almoço. Quem aparece cedo demais vira alvo. Quem confunde atalho com correnteza termina ofegante no meio do rio, olhando a margem cada vez mais longe. É nesse cenário, mais parecido com documentário do Rio São Francisco do que com cartilha de ciência política, que se arma o duelo entre Flávio Freire, a Piranha de bote rápido e dente sempre à mostra, e Luciano de Menininha, o Pacu do Meio-Dia, peixe grande, de nado firme, que só aparece quando o sol está alto e todo mundo está olhando.

Flávio Freire decidiu falar. Ou melhor, decidiu anunciar que prefere o silêncio. Fez questão de registrar nas redes que não responderia às provocações, como quem joga pedra e depois posa de monge. O detalhe é que o silêncio veio depois de meses de cutucadas, insinuações, ataques indiretos e movimentações claras de quem começou cedo demais uma campanha que ainda está a três anos da urna. Piranha é assim. Testa a água, belisca, mede reação e tenta cansar o peixe maior antes da disputa real.

A estratégia é velha conhecida de quem nada no rio desde pequeno. Começar cedo, cutucar a água, fazer barulho para ver se o outro perde a paciência, erra o tempo ou resolve brigar no raso. Funciona com peixe jovem, ansioso e sem noção de correnteza. Só que, do outro lado, não está um lambari assustado. Está Luciano de Menininha.

E Pacu velho não morde isca fácil. Luciano já passou por mais correntezas do que discurso em palanque. Foi deputado, foi secretário, já sentou na cadeira de prefeito de Propriá mais de uma vez e aprendeu, no método empírico do rio, que quem responde a todo ataque acaba nadando em círculo. Ele conhece o fundo, sabe onde tem pedra, onde a água engana e, principalmente, entende que nem toda piranha merece dente à mostra. Às vezes, o silêncio cansa mais o adversário do que qualquer mordida.

Quando resolveu falar, falou como Pacu raiz de água doce. Nada de gritaria, nada de live histérica, nada de espuma para plateia digital que se alimenta de confusão como lambari em resto de ração. Falou como peixe que ocupa espaço e sabe exatamente o tamanho que tem no rio. Disse, com a tranquilidade de quem não precisa inflar o peito nem abrir a boca o tempo todo, que não escolhe adversário, não teme candidatura de ninguém e que, se Flávio quiser disputar Propriá, que faça isso do jeito clássico: no tempo certo, no trecho certo do rio e com responsabilidade. E avisou, com aquela frieza elegante de peixe grande que conhece o peso da própria cauda, que o caminho agora não é a troca de mordidas. É a Justiça. Onde o eco é mais longo, a correnteza é lenta e o barulho costuma custar caro.

Aqui mora a diferença central desse duelo aquático. A Piranha vive do ataque constante, do ruído diário, da provocação em cardume, daquele morde e foge típico de quem precisa beliscar o tempo todo para não desaparecer. O Pacu governa. Trabalha. Administra. Enquanto um tenta antecipar eleição como quem queima largada achando que vai assustar peixe grande, o outro toca a cidade, organiza a equipe e entrega gestão. Enquanto um se move nervoso no submerso da provocação, o outro aparece no horário nobre do rio, sol alto, água clara, com obra, base política e caneta funcionando como motor de popa.

E isso incomoda. Incomoda muito. Porque nada tira mais o sossego de quem aposta no caos do que um adversário que simplesmente não se intimida. Luciano não se apressa, não dá bote no reflexo e não desce para o jogo rasteiro do fundo lodoso. Isso, para a Piranha, é quase uma afronta pessoal. Porque o silêncio estratégico do Pacu não é medo. É método. É aquela calma de peixe grande que fica parado, deixa o outro rodar, rodar, morder água e cansar sozinho.

Flávio quer transformar o rio em ringue antes da hora, montar arquibancada de tronco, vender ingresso e anunciar luta que ainda nem tem data marcada. Luciano deixa claro que, se o duelo vier, será institucional, no tempo da política, não no ritmo nervoso da provocação. Um nada em círculos, outro segue em linha reta. Um vive de memória e ressentimento, outro governa o presente. Um precisa do conflito para continuar nadando, o outro segue existindo apesar do barulho.

No fundo, o que se vê é um choque clássico de espécies. De um lado, quem precisa fazer onda para não sumir do radar. Do outro, quem sabe que, no São Francisco, o barulho mais respeitado costuma vir depois que o peixe grande passa. Sem estardalhaço. Mas deixando rastro, correnteza e aquele silêncio respeitoso que o rio aprende a obedecer.

No Baixo São Francisco, piranha quase sempre tenta morder primeiro. Pacu responde quando precisa. E quando responde, não é com dente afiado. É com peso, tempo e posição na correnteza. O rio observa. O tempo passa. E a política, como a natureza, costuma premiar quem sabe nadar firme, sem desespero e sem precisar morder tudo que se mexe. O duelo está posto. Mas quem conhece o rio sabe: nem toda briga começa no grito. Algumas começam no silêncio. E silêncio, quando vem de peixe grande, quase nunca é sinal de fraqueza. É aviso.

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