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Editorial: Ricardo Marques, o Lázaro da política

Deram por morto. Fizeram velório. Escreveram epitáfio. Mas esqueceram de avisar o suposto defunto. Ricardo Marques, vice-prefeito de Aracaju, segue circulando pelos corredores da política sergipana como quem não tem pressa, nem ansiedade, nem necessidade de responder ao primeiro chamado. Enquanto muita gente jurava que ele tinha sido empurrado para o rodapé da história, os bastidores contam outra coisa bem diferente. Dizem que morto não escuta. Ricardo escuta. E muito.

Nos últimos meses, partidos da direita passaram a sondá-lo com mais frequência do que cafezinho em reunião de condomínio. PL aqui, conversa ali, sinal discreto acolá. Nada oficial, nada anunciado, nada confirmado. Porque Ricardo não corre. Ele avalia. Ouve mais do que fala. Pensa mais do que responde. E quando responde, costuma ser genérico o suficiente para deixar todo mundo curioso e ninguém seguro. Política, no seu estado mais clássico.

Entre as hipóteses que circulam com mais força, uma ganha musculatura nos bastidores: Ricardo Marques no PL de Rodrigo Valadares. A equação é tentadora para a direita. Um vice-prefeito da capital, com mandato, visibilidade e discurso próprio, puxando uma candidatura ao governo e oferecendo a Flávio Bolsonaro um palanque em Aracaju. Não é pouca coisa. Em política, palanque em capital vale ouro, principalmente quando o sobrenome Bolsonaro entra na conversa.

A jogada, se acontecer, não seria apenas eleitoral. Seria estratégica. Dois candidatos da direita no primeiro turno, pulverizando votos, tensionando o tabuleiro e empurrando a eleição para o segundo turno. E aí, como manda o figurino, toda a direita se junta em torno de um nome só. O famoso “agora é conosco”. Esse cenário, claro, não passa despercebido por Fábio Mitidieri, que assiste a essa dança das cadeiras com a tranquilidade de quem está no camarote, mas com o olho clínico de quem sabe que política não perdoa distração.

O detalhe jurídico, que muita gente ignora de propósito, é decisivo: Ricardo Marques não precisa renunciar ao cargo de vice-prefeito para ser candidato ao governo do Estado. A legislação eleitoral é clara. Vice só precisa se afastar se tiver assumido como titular do Executivo nos seis meses anteriores à eleição. Não é o caso. Logo, o discurso de “tem que largar o cargo” não passa de torcida disfarçada de argumento jurídico. A lei, nesse ponto, joga a favor da movimentação.

Enquanto isso, Ricardo segue no seu estilo. Não confirma. Não nega. Não fecha porta. Não bate martelo. Deixa que falem. Em Sergipe, quando começam a dizer que alguém está “morto politicamente”, geralmente é sinal de que essa pessoa está incomodando mais do que aparenta. E morto, definitivamente, não provoca reunião silenciosa, nem cochicho em corredor, nem análise estratégica de segundo turno. No fim das contas, Ricardo Marques pode até não ser candidato. Mas só o fato de poder ser já mexe com o jogo. E em política, às vezes, o maior poder não está em anunciar, mas em fazer todo mundo recalcular o próximo passo.

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