Em Sergipe, união política é igual a guarda-chuva em ventania: dura menos que promessa de candidato. André Moura, que já foi titular do jogo e artilheiro de bastidor, agora assiste da reserva, mas sem drama, sem chilique, sem desespero. Faz isso com a calma de quem entende de política mais que tutorial de Brasília. Se o roteiro do governo vira novela mexicana, André é aquele personagem que sobrevive a todos os capítulos, elegante, sereno, pronto para voltar ao centro do palco quando a bagunça pedir adulto na sala. Enquanto isso, Fábio Mitidieri, dono do sobrenome e do microfone, faz malabarismo pra mostrar união num grupo onde cada um desafina por um lado. O discurso continua bonito, mas a banda já está tocando axé fora do Carnaval, e o governador finge que rege a orquestra enquanto corre para segurar o pedestal do microfone antes que alguém puxe o fio.
A metáfora da “sintonia AM e FM” nunca foi tão didática. A AM, para os nostálgicos e para quem tem experiência de estrada, traz aquele chiado inconfundível, aquela interferência cheia de vida, que faz parte da graça e da história. Tem quem diga, com razão, que não existe prazer igual ao de sintonizar uma boa AM numa noite de chuva, ouvindo notícia, música ou prosa de verdade. Muito mais saborosa e autêntica do que a FM, que pode até soar limpa, mas entrega uma harmonia artificial, feita para fingir que tudo vai bem. Só que basta o primeiro ruído para a ilusão cair. Sergipe está justamente nesse ponto: passou da promessa de união de vozes para o estágio em que cada um só se comunica por bilhete, WhatsApp, e-mail e, no máximo, um boné do André Moura largado na cadeira.
O governador antecipou a chapa como quem tenta reservar a melhor mesa na pizzaria antes do rodízio político começar. Chapa fechada um ano antes da eleição: parecia cena inédita, talvez até para Harvard, aquela mesma, onde a persuasão se aprende mais nos bastidores do que nas aulas. Mas a política sergipana, sempre criativa, mostrou que “fechar chapa” não significa “fechar feridas”. Pelo contrário, deixou as cicatrizes bem à mostra.
A divisão tá tão escancarada que até álbum de figurinha da família Mitidieri ficou confuso: Alessandro Vieira é o “queridinho do mês”, André Moura virou “cromada rara” que ninguém mais troca no recreio. Érika, Maísa, Cláudio, todo mundo cantando na FM do Alessandro, enquanto o dial da AM do André faz mais silêncio que político em fila da Receita Federal. Isso aí já passou de intriga de camarim faz tempo, virou episódio especial de novela das oito, só que aqui não tem mocinho, só torcida pra ver quem tropeça primeiro na própria narrativa.
E aí entra André Moura. Lembra dele como o camisa 10 do time de Fábio Mitidieri, sempre escalado como primeiro nome, estrela da campanha, aposta certa para o ataque? Pois agora virou reserva de luxo, daqueles que assistem ao jogo do banco e ainda tem que aplaudir o novo titular, sem poder reclamar. André, porém, segue sereno, mais zen do que monge em retiro, porque já viu muita estrela brilhar no início do campeonato e sumir do álbum de figurinhas antes do segundo turno.
O governador Fábio Mitidieri, que jurava amor eterno a André e fazia questão de anunciar que ele era o seu número um, agora mexe na chapa como quem troca o controle remoto: cada semana tem um favorito novo na tela. André, com faro pra crise e talento pra descascar pepino alheio, não se desespera. Ele sabe que em política, o titular de hoje pode ser o reserva de amanhã e, às vezes, o único que não sai do álbum é o goleiro ou o narrador do fiasco.
E é justamente nesse cenário de troca-troca político que Eduardo Amorim entra em campo sem nem precisar alongar. Começou discreto, se posicionou nas beiradas e, quando o governo percebeu, já estava ocupando cada espaço livre como quem oferece até pra segurar o uniforme do time, só para garantir presença no jogo. O acordo era simples, pelo menos no papel: o governador indicaria André e Alessandro para a chapa do senado. Só que, na prática, os prefeitos aliados bateram o pé, deixaram claro que o governador só escolheria um nome, a outra vaga ficaria aberta para escolha dos aliados. Resultado: André foi escanteado, a preferência de Fábio recaiu sobre Alessandro e, nesse vácuo, quem foi ganhando terreno foram os de sempre: Rogério, Rodrigo, Edvaldo e Eduardo.
O fato é que, enquanto a maioria ainda ensaia discurso, Eduardo Amorim já faz gol de letra e pede música no Fantástico. Prova? O prefeito Luciano de Menininha, lá em Propriá, mandou avisar: Alessandro Vieira, voto declarado e com carimbo do governador; Rogério Carvalho, nem com reza brava; e para a segunda vaga, cravou sem medo: é Eduardo Amorim e pronto. Chame isso de conveniência, instinto de sobrevivência ou puro faro de oportunidade, mas Amorim já vai ganhando território, encostando o peito na janela e avisando: “pintou espaço, é meu”. No final das contas, político bom é aquele que vê vácuo e já chega puxando cadeira, e nesse quesito, Eduardo é bom.
Enquanto isso, no epicentro dessa zona mista, Rogério Carvalho, de braços abertos e sorriso largo, nada de braçada no governo. Dizem que está eleito antes da urna abrir, o que, em política, costuma ser o beijo da morte. O PT, em sua costumeira habilidade de não lançar candidato próprio quando convém, flerta ora com Valmir de Francisquinho, ora com Fábio, ora com quem oferecer mais espaço na selfie da vitória.
Sergipe, mais uma vez, ensina ao Brasil como a política é feita de acordos desfeitos, alianças por conveniência e chapas fechadas que se abrem como guarda-chuva furado em tempestade. A diferença entre AM e FM nunca foi tão didática: uma entrega o ruído da verdade, a outra esconde o conflito atrás de notas oficiais, releases e selfies de grupo.
Se alguém ainda sonha com harmonia perfeita em época de eleição, pode desligar o rádio, o Spotify e até o fone Bluetooth porque o que vale mesmo é o fuxico de bastidor. É lá, longe do discurso ensaiado, que André Moura segue calmo, quase em modo zen budista, enquanto Alessandro é paparicado como novo queridinho do governo e Amorim aproveita cada fresta, entrando onde sobra espaço como penetra em festa de aniversário. No fim das contas, política em Sergipe é igual karaokê de bar lotado: ganha quem não desafina quando o microfone cai e ainda consegue transformar o ruído em música para a própria plateia.




