O governador Fábio Mitidieri decidiu cortar Alessandro Vieira da chapa majoritária ao Senado. O gesto foi vendido como estratégico, calculado, necessário. Mas política não é apenas matemática fria, é comando. E comando exige coerência. Cortar da foto e manter dentro da moldura é gesto pela metade. É cirurgia sem fechar o corte. É anúncio forte com execução frágil. Se a decisão era política, que fosse completa. Porque meia decisão, governador, vira meia liderança. E meia liderança, em ano pré-eleitoral, vira meme de oposição.
E antes que alguém diga que é exagero, vale lembrar o roteiro das eleições municipais. O governador deixou o grupo correr solto. Deixou Danielle Garcia e Yandra Moura serem candidatas, deixou todo mundo brincar de pré-campanha como se fosse campeonato interno de condomínio. Resultado. Grupo dividido, egos inflados, e derrota nas urnas. História recente. Filme reprisado. E o risco agora é assistir à continuação com pipoca na mão e placar adverso de novo.
Todos sabem que a equação passa por Brasília. A conversa com Luiz Inácio Lula da Silva não é detalhe, é eixo. Há pressão por espaço para Rogério Carvalho, há necessidade de fortalecer Márcio Macedo nos colégios eleitorais. A política nacional atravessa a estadual como faca quente em manteiga. Até aí, tudo normal. O problema não é negociar. O problema é negociar e depois largar o grupo no modo cada um por si e Deus por todos.

Porque em menos de 24 horas o grupo começou a se desmanchar em praça pública. Danielle foi às redes declarar respeito à decisão do governador, mas reafirmar carinho e voto em Alessandro. É o famoso eu respeito, mas não acompanho. É o casamento onde a pessoa vai à festa de aniversário do ex e posta foto dizendo amizade eterna. Política não é terapia de casal. Se a chapa é uma, o voto é um. O resto é flashback eleitoral.

O prefeito Samuel Carvalho fez o mesmo movimento. Respeita, mas vota diferente. Isso não é respeito político. Isso é independência gourmet dentro do governo. É usar a estrutura oficial durante o dia e, à noite, mandar coraçãozinho para outro candidato. E o detalhe pitoresco é que, até pouco tempo atrás, Samuel pedia a bênção a Luiz Mitidieri, chamava de paizinho, fazia foto sorridente, gesto de filho político aplicado. Agora, num passe de mágica eleitoral, troca a devoção pública por voto paralelo em Alessandro Vieira. Se essa é a nova doutrina do grupo, alguém precisa avisar o eleitor que fidelidade virou item opcional no cardápio político.
André Moura entra nessa história como noivo em casamento onde metade dos convidados ainda dança com o ex. Se a chapa é para fortalecê-lo, o grupo precisa votar fechado. Do jeito que está, o governador Fábio Mitidieri, botafoguense declarado, parece estar jogando contra o próprio Botafogo: escala o time, mas cruza a bola para o adversário. Ou comanda o grupo de verdade, ou vira técnico que dá discurso firme e deixa o elenco torcer para outro escudo. Política não é amistoso. É final de campeonato.
Há um dado histórico que a política sergipana conhece bem, mas finge esquecer. Candidatos ao governo que tentaram conviver, apoiar ou dividir palanque com mais de dois senadores acabaram pagando a conta na urna. Não é teoria, é retrospecto. É estatística que não perdoa vaidade. Quando o candidato vira refém de mais dois projetos senatoriais simultâneos, ele deixa de ser cabeça de chapa e vira síndico de condomínio político. A história mostra que esse arranjo é terreno movediço. Quatro senadores fortes no mesmo tabuleiro transformam a eleição majoritária em disputa paralela de egos, estrutura e narrativa. O governador deixa de comandar o jogo e passa a administrar vaidades. É xadrez com duas torres no seu próprio campo. E quem tenta sorrir no meio dessa tensão descobre, tarde demais, que neutralidade excessiva em política é convite para derrota anunciada.
Recordo de quando Marcelo Déda definia sua chapa. O grupo votava fechado. Jackson Barreto idem. Belivaldo Chagas também entendia que decisão coletiva não é sugestão de WhatsApp. Não era questão de simpatia pessoal. Era disciplina política. Quem não estivesse confortável, entregava o cargo e seguia a vida. Sem drama. Sem textão. Mas hoje a sensação é outra. Corta-se o nome da chapa, mas mantêm-se cargos, indicações e espaços estratégicos preenchidos por aliados de quem foi cortado. Delegados aqui, comissionados ali, estrutura funcionando como se nada tivesse acontecido. Pergunta que ecoa na praça do cafezinho. Adianta retirar da majoritária e manter a tropa interna trabalhando para outro projeto?
Se prefeitos e lideranças que ocupam espaços no governo declaram publicamente voto divergente, existem apenas duas saídas coerentes. Ou libera geral oficialmente e cada um faz sua campanha particular, ou exige alinhamento com consequência. Quem não vota na chapa oficial precisa ter a elegância de entregar o cargo. Isso não é radicalismo. É coerência. O eleitor entende coerência. O que ele não entende é essa política de namoro aberto onde só um lado acredita que é casamento.
O discurso de que política é ampla e democrática não pode virar desculpa para frouxidão estratégica. Governador, liderança se exerce. Não se terceiriza. Não se dilui em postagem com emoji de coração. Se o gesto foi para reorganizar o tabuleiro, reorganize por inteiro. Porque do jeito que está, parece que o senhor cortou o bolo, mas deixou metade da festa cantando parabéns para outro aniversariante.
Política não perdoa fragilidade. O eleitor percebe quando o comandante não comanda. A oposição agradece. E a história, essa senhora implacável, adora repetir roteiros quando o protagonista insiste no mesmo erro. Se a chapa é André e Rogério, que todos votem André e Rogério. Se não for, que se diga claramente qual é o projeto. O que não pode é esse teatro de respeito público e voto paralelo. Porque, no final das contas, governador, a urna não ri. Mas o adversário, esse ri bastante.




