A política sergipana entrou naquela fase deliciosa em que ninguém briga oficialmente, mas todo mundo comenta como se tivesse visto a discussão da janela. Fábio Henrique e André Moura, dois pesos pesados do tabuleiro, começaram a aparecer menos juntos, menos alinhados, menos sorridentes nas fotos. E quando a foto muda, meu amigo, é porque o bastidor já virou roteiro.
A história que circula, e aqui é circula mesmo, é a da expectativa de afastamento de Yandra Moura para abrir espaço ao primeiro suplente, Fábio Henrique. Só que Yandra seguiu no mandato, com licença legítima e trabalho remoto, dentro das regras do jogo. Resultado, quem estava aquecendo para entrar em campo teve de voltar para o banco. Política é assim, às vezes você já está com o número da camisa, mas o técnico muda a escalação.
E Fábio Henrique não é jogador que gosta de assistir ao jogo da arquibancada. Ele tem recall, tem televisão, tem dois mandatos de prefeito de Socorro no currículo, já foi deputado federal, já sentiu o gosto do plenário de Brasília, inclusive em períodos de efetivação como suplente. Ficar esperando o destino resolver não combina com o perfil de quem sempre construiu mandato na marra, no voto e na visibilidade.
É aí que entra o famoso telefone sem fio do Palácio. Dizem, com aquela convicção típica de corredor, que teria sido o próprio governador Fábio Mitidieri quem soprou a ideia de Fábio Henrique disputar federal pelo PSD, fortalecendo a chapa e ampliando o palanque. Política é xadrez, e reforçar uma nominata com um nome de peso é como colocar torre no centro do tabuleiro, muda a dinâmica e obriga todo mundo a recalcular.
E para temperar o enredo, surge a dobradinha familiar. Fábio Henrique na federal, Adilson Júnior, o carinhosamente apelidado de girafa soneca, na estadual. Só que tem um detalhe que dá graça à história. O prefeito Samuel Carvalho, de Socorro, teria dito que apoia Adilson em Socorro, e ponto final. Nos outros municípios, cada qual com seu deputado estadual. Ou seja, Adilson é o protagonista absoluto apenas dentro das fronteiras de Socorro, fora dali o mapa muda.
Isso transforma a engenharia eleitoral numa espécie de condomínio político. Em Socorro, o porteiro reconhece a girafa pelo nome. Fora de Socorro, cada prédio tem seu síndico favorito. É a matemática do voto regionalizado, onde o apoio é quase CEP dependente. E quem não entende essa divisão acha que dobradinha é sempre casamento. Às vezes é namoro com horário marcado.
No meio desse turbilhão, André Moura observa. E observa com aquela tranquilidade que só tem quem já viu filme parecido antes. André não é homem de rompante público, ele é homem de caderninho. E dizem que o caderninho de André é forte, desses que anotam quem esteve, quem faltou, quem falou e quem silenciou. Ele pode até sorrir com leveza, mas ninguém duvida que cada movimento é registrado com caneta firme.
Há quem fale em afastamento, há quem sussurre a palavra traição, mas na política a palavra certa quase sempre é ajuste de rota. Um queria a vaga agora, outro preferiu manter o controle da cadeira. Um foi convidado a subir de patamar partidário, outro manteve a base. E no fim, ninguém rasga foto, só reorganiza álbum.
O fato é que Fábio Henrique não parece disposto a viver de suplência eterna, e o PSD agradeceria ter mais um puxador de votos experiente na nominata. Ao mesmo tempo, André Moura segue como figura central do jogo, articulando, medindo, calculando. Se há ruído, ele escuta. Se há movimento, ele anota. E enquanto o público debate no grupo da família, os dois seguem jogando, cada um com seu estilo, mas sabendo que, em Sergipe, nada é tão simples quanto parece e nada é tão definitivo quanto se imagina.




