Rogério Carvalho precisa explicar ao povo de Sergipe se acusação de corrupção é coisa séria ou se é apenas frase de palanque que depois se recolhe como quem guarda bandeira depois do comício. O senador disse com todas as letras que o governo de Fábio Mitidieri precisava ser investigado por corrupção. Agora aparece dizendo que falou sob pressão, no calor do momento. Ora, acusação de corrupção não é tropeço de entrevista. Ou havia convicção ou havia exagero político. Quando a frase muda tão rápido, o eleitor começa a desconfiar se a política virou apenas um jogo de memória curta.
Essa mudança de discurso não acontece por acaso. Ela tem endereço eleitoral claro. 2026 já está na mesa. Rogério Carvalho sabe que precisa de palanque, de estrutura e de apoio político para disputar novamente o Senado. E o governador Fábio Mitidieri também precisa organizar seu grupo para a eleição que se aproxima. Quando os interesses eleitorais aparecem, algumas acusações começam a perder o volume. Aquilo que ontem era corrupção hoje passa a ser explicado como um momento de tensão.
O problema é que o governo de Fábio Mitidieri atravessa um momento de desgaste real. Professores nas ruas, pressão do Sintese, críticas de setores do funcionalismo e uma sensação crescente de que o governo enfrenta dificuldades para administrar conflitos sociais. A resposta do governador foi clara. Cada lado escolheu sua estratégia e o governo vai resolver na Justiça. Do ponto de vista administrativo pode ser um caminho. Do ponto de vista político, porém, professor protestando na rua sempre pesa contra quem está no poder.
Outro ponto que começa a incomodar parte da população é a polêmica envolvendo a Iguá. A promessa era modernização do serviço de água e saneamento. Na prática, muitos sergipanos ainda aguardam melhorias concretas. Na política existe um risco curioso. Governos podem acabar se afogando exatamente nas águas que disseram que iriam administrar. Há quem diga que Fábio Mitidieri corre o risco de se afogar nas águas da Iguá sem conseguir matar a sede da confiança popular.
Nesse cenário aparece um movimento importante dentro da base política. O grupo político que acompanha André Moura começa a avaliar com atenção a permanência dentro do governo. Não é André Moura quem fala diretamente em rompimento. É o grupo dele que observa o desgaste do governo e começa a discutir a possibilidade de sair antes que o desgaste respingue em todos. É preciso reconhecer uma coisa. O grupo de André Moura tem experiência política, tem leitura de cenário e sabe identificar quando um projeto começa a entrar em zona de risco.
Aliás, é justo dizer que o grupo político de André Moura construiu ao longo dos anos uma capacidade de análise estratégica que poucos possuem em Sergipe. Eles sabem que lealdade política não pode significar cegueira diante da realidade. Quando um governo começa a acumular desgaste, os aliados mais experientes observam o horizonte com calma. Não se trata de rompimento por impulso. Trata se de avaliar se permanecer no barco pode comprometer o futuro político de todo um grupo.
E aqui entra uma peça importante nesse tabuleiro. A eventual aproximação entre Rogério Carvalho e o governo pode mudar completamente o desenho da chapa para o Senado. Se Rogério entra no grupo, e se o grupo de André Moura decide sair, abre se espaço para um terceiro nome. E esse nome seria Edvaldo Nogueira. Essa possibilidade já circula nos bastidores da política sergipana. Para Rogério Carvalho, esse cenário seria extremamente confortável.
Não é difícil entender por quê. Todo mundo na política sergipana sabe que o candidato preferencial de Fábio Mitidieri para o Senado é Alessandro Vieira. Esse é o primeiro nome do governador. O segundo nome poderia ser justamente Rogério Carvalho. Evidentemente Rogério não entraria no governo para ser coadjuvante. Ele cobraria posição, espaço e compromisso político. Essas negociações costumam envolver trocas bastante palatáveis entre os grupos.
Nesse desenho, quem acaba ficando pressionado é o grupo de André Moura. Se Rogério entra como segundo nome da chapa e Alessandro permanece como candidato principal do governador fora da chapa, o espaço político se estreita. Na prática, essa engenharia política pode acabar empurrando o grupo de André para fora do governo. Não por falta de força, mas por falta de espaço dentro de um tabuleiro já ocupado.
No final das contas, Sergipe assiste a um momento delicado da sua política. Rogério Carvalho tentando recalibrar o discurso depois de ter acusado o governo de corrupção. Fábio Mitidieri lidando com desgaste administrativo e tentando montar sua estratégia eleitoral que é já considerada capenga. Alessandro Vieira consolidado como candidato preferencial do governador mesmo fora da chpa. E o grupo de André Moura, experiente e atento, avaliando se continua dentro de um projeto que pode trazer mais desgaste do que resultado. Em política, às vezes a decisão mais inteligente é saber a hora de mudar de porto antes que a tempestade chegue.




