Confesso que gosto quando uma boa história começa longe dos lugares onde normalmente dizem que elas começam. Foi exatamente assim que me senti ao olhar para a trajetória de Ifebola Alaúd. A menina de Nossa Senhora do Socorro que agora aparece na televisão nacional interpretando a versão adulta de Felícia na novela Eita Mundo Melhor!. E não pude evitar o trocadilho que me veio à cabeça imediatamente. Se a novela promete um mundo melhor, eu já começo torcendo para que o exemplo dela inspire também um “Eita Socorro Melhor”. Porque talento, meu amigo, às vezes nasce onde a gestão pública anda precisando de aula.
Ifebola vem de Nossa Senhora do Socorro, cidade que todo sergipano conhece bem. Não apenas pela proximidade com Aracaju, mas também pelos contrastes. De um lado, gente trabalhadora, criativa, cheia de energia. Do outro, uma realidade que muitas vezes parece abandonada. Ruas esburacadas, contratos milionários que ninguém entende muito bem, bairros que convivem com lixo acumulado e serviços que deveriam funcionar melhor. No meio disso tudo, surge uma jovem que decidiu não esperar solução cair do céu. Foi atrás da própria história.
E que história. Entre trabalhos como modelo, ensaios, testes e muita persistência, Ifebola foi abrindo espaço no mundo artístico. Não veio de escola de celebridades, nem de sobrenome famoso. Veio da vida real. Daquela rotina em que o talento precisa disputar espaço com a sobrevivência. Talvez por isso ela tenha desenvolvido algo que não se aprende em oficina de atuação: presença. A câmera percebe quando alguém traz verdade junto com o texto.
Na novela Eita Mundo Melhor! ela assume a fase adulta da personagem Felícia, uma mulher cuja trajetória é marcada por superação. A personagem que cresceu em um orfanato e foi adotada por um casal homoafetivo chega à vida adulta carregando valores de cuidado, afeto e responsabilidade. E é justamente nessa etapa que Ifebola entra em cena, trazendo uma interpretação que mistura sensibilidade e força. Uma combinação que, diga-se de passagem, combina muito com as mulheres nordestinas.
Mas o que mais me diverte nessa história é o simbolismo involuntário do título da novela. Porque enquanto Ifebola brilha na televisão dizendo, ainda que indiretamente, “Eita Mundo Melhor”, muita gente em Nossa Senhora do Socorro talvez esteja pensando outra coisa ao olhar para certos buracos na rua, para o caminhão de lixo que demora a passar ou para a água que não chega na torneira. Talvez fosse o caso de alguém na prefeitura assistir à novela com um caderninho na mão e anotar uma ideia simples: determinação também é política pública.
Ifebola representa exatamente isso. Uma revelação sergipana que nasce num território cheio de desafios, mas que escolhe construir outro destino. Ela não saiu de Socorro renegando suas raízes. Ao contrário. Carrega a cidade consigo. Cada passo que dá nas telas também conta um pouco da história de quem cresce em lugares onde o sonho precisa ser teimoso para sobreviver.
Por isso escrevo este texto com uma mistura de orgulho e humor. Orgulho porque Sergipe e Nossa Senhora do Socorro ganha mais uma atriz talentosa surgindo para o Brasil. Orgulho também por ser socorrense. Humor porque a vida às vezes é cheia dessas ironias bonitas. Enquanto a novela promete um mundo melhor, quem sabe a trajetória dessa menina de Nossa Senhora do Socorro não inspire também um pequeno milagre administrativo por lá. Porque se Ifebola conseguiu transformar sonho em realidade, talvez alguém na política local consiga ao menos transformar buraco em asfalto. E aí sim, quem sabe, a gente possa dizer sem ironia nenhuma: “eita Socorro melhor” e não “eita Socorro pior”.




