O Brasil conseguiu fazer uma mágica curiosa. As mulheres são maioria no eleitorado, passam de 50%, dominam a fila da urna… mas quando abre a porta do poder, cadê? Some. Desaparece. Evapora. Parece promoção de loja: tem na vitrine, mas não tem no estoque. E aí a democracia segue capenga, mancando, fingindo que está tudo normal enquanto metade da população fica olhando o jogo do lado de fora.
Aí entra a famosa cota de gênero, aquele 30% obrigatório que, na teoria, era para abrir espaço. Na prática, virou muitas vezes aquele “cumpre tabela e segue o jogo”. Tem partido que trata candidatura feminina como quem preenche formulário: coloca o nome, tira uma foto e pronto, missão cumprida. Só esquece de um detalhe básico… eleição não se ganha com nome na lista, se ganha com estrutura, apoio e voto.
E quando a coisa aperta, vem o clássico jeitinho brasileiro versão eleitoral. As chamadas candidaturas fictícias. Mulher que entra na disputa só para dizer que entrou, sem campanha, sem recurso, sem chance. A Justiça Eleitoral já começou a apertar o cerco e avisou: se brincar com cota, pode perder mandato, diploma e até o futuro político. Ou seja, a conta chega. E chega sem desconto.
Mas o problema não é só jurídico, é cultural e estrutural. Partido ainda é, em muitos casos, clube do bolinha. Decisão fica na mão de meia dúzia de caciques, geralmente homens, que distribuem espaço como quem reparte herança. E quando uma mulher resolve entrar de verdade, não é só disputa política não… é enfrentar resistência, ataque, deslegitimação e, muitas vezes, violência política escancarada.
No fim das contas, não adianta ter mulher na urna se ela não tem voz depois do resultado. Democracia não é só quantidade, é representatividade real. Não basta cumprir percentual, tem que garantir presença de verdade, com força, com estrutura e com poder de decisão. Porque enquanto mulher for maioria no voto e minoria no comando, a política brasileira vai continuar sendo esse teatro estranho… onde quem sustenta o espetáculo não é quem sobe ao palco.




