Ontem, Sergipe amanheceu antes do sol. Não foi metáfora, foi rotina. Às quatro da manhã, enquanto muita gente ainda brigava com o despertador, um homem já estava de pé, como sempre esteve. Filho de marchante, criado no cheiro forte da feira, no barulho da balança, no grito da venda e no suor honesto de quem aprende cedo que a vida não aceita atraso. E foi assim, com café simples e cabeça erguida, que Valmir de Francisquinho começou o dia mais simbólico da sua trajetória.
Não houve drama. Não houve encenação. Houve método. Foi à prefeitura como quem cumpre mais um expediente, caminhou entre os seus como quem nunca saiu dali, e depois seguiu para a Câmara. Tudo com uma naturalidade que irrita adversário e encanta eleitor. Porque enquanto muitos ensaiam discursos, ele executa roteiro. E naquele dia, o roteiro era claro: renunciar para subir. E quando desceu a serra, não foi apenas geografia. Foi narrativa. Foi imagem. Foi política em estado bruto. Como no hino de Itabaiana, desceu jogando a bola com alma e paixão, com o povo vibrando junto, como se cada passo fosse acompanhado por uma multidão invisível que já entendeu o que está em jogo. Aquilo não era um deslocamento. Era um lançamento.
Nas redes sociais, o que se viu foi aquele velho roteiro de pré-campanha que começa no grito e termina lá em cima, no alcance, no comentário, na repercussão. Teve emoção, teve disputa, teve vídeo rodando sem parar, teve gente exaltando, dizendo que é o homem do povo, que acorda cedo, que conhece o peso da vida de verdade. E teve também a turma da crítica afiada, dizendo que abandonou, que foi projeto pessoal, que foi ambição maior do que a cidade. Até aí, nada de novo na política. O curioso veio depois, e veio forte. Foi perceber que, quanto mais batia, mais o nome crescia. Quanto mais criticava, mais engajamento vinha. Quanto mais tentavam diminuir, mais o algoritmo empurrava para cima. Virou aquele efeito clássico que todo mundo já conhece, tenta derrubar e acaba impulsionando. No fim das contas, a internet fez o que sempre faz, pegou a briga, transformou em vitrine e entregou para o povo decidir. E agora o jogo mudou. Porque o barulho deixou de ser só crítica e passou a ser combustível. E dessa vez, meu amigo, o efeito tem outro gosto, outro peso, e está bem diferente do que muitos imaginavam.
Mas há um detalhe que poucos perceberam. Enquanto uns discutiam se foi abandono ou estratégia, o grupo já estava em movimento. Emília Corrêa sinalizando, apoio, Eduardo Amorim reposicionado no tabuleiro, André Davi entrando como peça de composição e com muita humildade. Não é bagunça. É engenharia. E quando chegou a Aracaju, na sede do Republicanos, o jogo ganhou outro nível. Lá estava Priscila Felizola, carregando um sobrenome pesado, filha de Belivaldo Chagas, representando a tradição política que se mistura agora com o improviso calculado do interior. É o encontro do passado institucional com a força bruta do voto popular.
E aí entra o ponto que ninguém consegue esconder. Essa candidatura não nasce em gabinete. Ela nasce na feira. Ela nasce no madrugar. Enquanto há quem tenha sido criado em ar-condicionado e mandato herdado, Valmir carrega a estética da sobrevivência. E isso não é detalhe. É ativo eleitoral. Só que política não é conto de superação. É confronto.
E do outro lado está Fábio Mitidieri, que carrega o peso de decisões difíceis e, principalmente, de narrativas mal resolvidas. A questão da Iguá, que um dia foi discurso de combate, virou ato de governo. E na política, meu amigo, incoerência não evapora. Ela acumula. Nas redes, isso virou combustível. Comentários ácidos, memes, críticas técnicas e ataques diretos. A venda da Iguá passou a ser mais do que uma decisão administrativa. Virou símbolo. E símbolo, quando pega, não solta fácil. É aí que a candidatura de Valmir entra como onda. Não resolve tudo, mas muda o vento.
A mídia, por sua vez, tenta manter o equilíbrio clássico: chama de movimento estratégico, fala em reposicionamento, evita cravar favoritismo. Mas nos bastidores, a leitura é outra. A renúncia colocou a eleição em outro patamar. Não é mais previsão. É disputa aberta. E Sergipe, que parecia caminhar para uma eleição morna, agora acordou. E acordou cedo. Porque quando um candidato sai da prefeitura com aplauso e entra na disputa com narrativa forte, o jogo muda. E muda rápido.
No fim das contas, a pergunta não é mais se Valmir é candidato. Isso já está resolvido. A pergunta é outra, mais profunda, mais incômoda e mais decisiva: Sergipe quer o filho do marchante que aprendeu na marra ou prefere continuar apostando em quem sempre teve tudo e não conhece a dor da sede? Porque no meio dessa história toda, entre a serra, o café, a feira e o palanque, tem uma verdade simples que ninguém consegue ignorar: o povo entende muito mais do que parece. E quando ele começa a sentir… a eleição deixa de ser cálculo e vira destino.





Respostas de 2
Parabéns amigo e colega Fausto! Texto impecável…
MAIS UM TEXTO IMPECÁVEL E QUE MERECE UMA REFLEXÃO PRFUNDA PELO ELEITORADO DE SERGIPE. DA CAPITAL AO INTERIOR. PARABÉNS FAUSTO!